Exegese Aplicada – Tristeza Pelo Pecado


A RAIZ DO ARREPENDIMENTO CRISTÃO

Anderson José Teixeira Cavalcanti de Barros



Leitura: 1 Co 5.2

Introdução- O cristianismo é conhecido por pregar a amor a Deus e ao próximo. Esse modus vivendi muitas vezes é obstaculado por nossa inclinação ao erro, acabando por ofender a Deus, ao próximo ou a ambos. Diante disso, muitos alegam que é só se arrepender e pedir perdão para que haja restauração espiritual. Mas, o que caracteriza o verdadeiro arrependimento não pode ser visto como um mero balbuciar "perdoe-me". É possível perceber qual é a raiz do verdadeiro arrependimento? Cremos que sim, desde que haja UMA REAL TRISTEZA pelo pecado.

Dentre várias palavras que encontramos no NT grego, uma tem um significado especial: pentheo. Ela é a palavra mais enfática do grego, em todos os tempos até o período neotestamentário, que traduz o vocábulo lamentar. Como podemos verificar isso? Bem, isso pode ser visto através do seu uso em alguns períodos anteriores ao NT e no próprio NT.



I. O uso de pentheo no grego clássico e na LXX (Septuaginta).

Encontramos no grego clássico o verbo pentheo empregado no sentido de lamentar ou prantear por alguém que faleceu (Heródoto, Ésquilo). O substantivo penthos se emprega no sentido de luto ou tristeza, apontando para os sinais externos que identificam o luto. Assim, o vocábulo era utilizado não para descrever um mero pesar interno pela perda, mas a expressão visível de pranto por alguém que morreu.

Mas além do seu uso no período clássico, temos também o seu emprego na LXX, que é o Antigo Testamento traduzido para o grego. Nessa versão também encontramos pentheo traduzindo o hebraico 'abal, palavra empregada para o prantear e o pesar por causa do infortúnio ocorrido ou iminente. Também é utilizada para o luto por causa da morte de alguém (2 Rs 14.2; 1 Cr 7.22), para o remorso em geral ( Ne 8.9), e para a tristeza sentida por causa de um ente querido 2 Rs 13.27; 19.10). Também traduz o heb. 'amal , que significa estar fraco, definhar-se, conforme pode ser visto em Isaías(16.8; 19.8; 24.4,7; 33.9). Pode, por causa do seu uso em contextos de luto, descrever os efeitos psicológicos e físicos do luto, como o chorar, no heb. 'bakah (Gn 23.2; 50.3), o tremular, estremecer, como expressão da mágoa, do heb. Nûd (Jr 23.10), e escurecer-se, isto é, ficar de luto, tradução do heb. qadar (Ez 31.15). O verbo apresenta assim vários aspectos da tristeza, inclusive com a demonstração externa da tristeza.

Já o subst. Penthos representa o Heb. 'ebel, cujo significado é semelhante à forma verbal 'abal, lamentar (Gn 27.1; 50.10-11; Am 5.16; 8.10; Is 60.20).





II. O uso de pentheono grego neotestamentário.

O verbo pentheo aparece para descrever também a tristeza por um ente querido (Mt 9.15), para os que choravam pela morte de Jesus(Mc 16.10) e para a tristeza de Paulo ao saber da atitude impenitente de alguns crentes de Corinto (2 Co 12.21). É empregado para relatar a lamentação daqueles que agora riem impenitentemente ( Lc 6.25), e para o luto futuro daqueles que contemplarão o julgamento da Grande Babilônia (Ap 18.11,15,19).

Paulo e Tiago usam o termo num sentido de tristeza segundo Deus, arrependimento. Paulo emprega o verbo para denotar a atitude que deve ter a igreja de Corinto acerca do pecado de prostituição existente no meio dela(1 Co5.2). Tiago chega a exortar os pecadores a se afligirem, lamentar e chorar pelo pecado (Tg 4.8-10).



Conclusão

É possível perceber que o vocábulo em análise tem mantido uma certa homogeneidade semântica por vários períodos. Ele descreve o prantear por alguém que já faleceu, mas não uma mera contrição mental, e sim a expressão visível por todos que presenciam o enlutado. Quando chegamos no Novo Testamento, vemos seu uso também no sentimento de reprovação pelo pecado. Diante do pecado, esse vocábulo nos ensina não a um pseudo-arrependimento, um mero "franzir a testa", mas uma reprovação tal que nos leve a chorar pela nossa situação como se chora pela morte de um ente querido. Essa deve ser a nossa atitude diante do erro. Essa é a raiz do verdadeiro arrependimento cristão.

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