Efeitos da Queda por João Calvino.

Calvino traça um paralelo entre o estado da mente e o estado da vontade. A faculdade natural da razão permanece intacta depois da queda, mas a perfeição do nosso pensamento foi manchada pelo pecado. O homem está, presentemente, em exílio do reino de Deus e só a graça da regeneração pode restaurá-lo. Embora o poder do pensamento racional do homem não tenha sido completamente destruído e ele não tenha se tornado um mero animal, a luz da sua razão é tão obscurecida pelo pecado que não pode resplandecer para qualquer bom efeito. 


O homem ainda pode obter conhecimento valioso com relação ao que Calvino chama de objetos inferiores. Calvino faz uma distinção entre uma inteligência com relação às coisas terrenas e uma inteligência com relação às coisas celestiais. A primeira inclui o conhecimento da arte, mecânica, economia e assim por diante. Ele até mesmo (assim como Agostinho) recomenda o aprendizado de certas áreas dos pensadores pagãos: "Assim, na leitura de autores profanos, a luz admirável da verdade mostrada neles deveria nos lembrar de que a mente humana, por mais caída e pervertida da sua integridade original, ainda é adornada e caracterizada com os dons admiráveis do seu Criador". 


Calvino considerava a razão como uma propriedade essencial da natureza humana. A queda não destruiu a humanidade natural do homem. O homem ainda tem a capacidade de pensar mas essa capacidade foi severamente danificada pelo pecado. Isso é verdadeiro particularmente com relação às coisas espirituais. Em nosso entendimento das coisas de Deus, Calvino diz que somos "mais cegos do que as toupeiras". Para o nosso conhecimento das coisas celestiais, dependemos da iluminação graciosa de Deus. O entendimento requerido para uma pessoa entrar no reino de Deus procede somente do Espírito de Deus. 


Que poder permaneceu na vontade humana depois da queda? Calvino argumenta que o homem não escolhe racionalmente o que é bom ou aspira a ele. O homem tem um desejo por coisas boas (todos nós queremos ser felizes, por exemplo), mas à parte do Espírito, não aspiramos pelo bem que é pré-requisito para a felicidade eterna. 


A natureza caída e corrupta do homem é descrita no Novo Testamento como "carne". Calvino aponta para as palavras de Jesus a Nicodemos: para alguém entrar no reino, deve primeiro nascer de novo (João 3.3). A regeneração é necessária porque a única coisa que a carne pode gerar é carne. 


Calvino diz: "Admita que nada há na natureza humana além da carne e, então, extraia algo bom dela se você puder. Mas se dirá que a palavra carne só se aplica ao que é sensual e não à parte mais elevada da alma. Isso, no entanto, é completamente refutado pelas palavras de Cristo e também [de] seu apóstolo. A afirmação de nosso Senhor é que o homem deve nascer de novo porque ele é carne. Ele não requer o novo nascimento com relação ao corpo. Mas uma mente não nasce de novo simplesmente tendo uma porção reformada. Ela deve ser totalmente renovada... Mas nada temos do Espírito a não ser por meio da regeneração". 


Aqui Calvino toca o cerne da questão. A regeneração é um requisito para uma pessoa ser liberta da escravidão do pecado. Assim como a mente não pode discernir as coisas espirituais sem a iluminação prévia do Espírito Santo, da mesma forma a carne não se inclina a Deus sem primeiro receber Calvino alega que sua doutrina não é nova, mas simplesmente faz eco à posição de Agostinho. Então ele desvia a sua atenção da enfermidade para o remédio, a libertação do pecado que Deus proporciona ao pecador. Calvino cita a carta de Paulo aos Filipenses, na qual o apóstolo fala de Deus tendo "começado" a boa obra entre nós (Fp 1.6). Calvino interpreta isso como o início da conversão na vontade. A obra do Espírito na vontade é o que inicia a conversão a Cristo. Calvino explica: "Deus, conseqüentemente, começa a boa obra em nós exercendo em nosso coração um desejo, um amor e uma preocupação com a justiça, ou (falando mais corretamente) desviando, treinando e guiando o nosso coração para a justiça... Eu digo que a vontade é abolida, mas não enquanto for [uma] vontade porque, na conversão, permanece tudo o que é essencial à nossa natureza original: também digo que ela é criada novamente, não porque a vontade, então, começa a existir, mas porque é desviada do mal para o bem".


Calvino claramente não pretende ensinar que a vontade é destruída na conversão. Antes, ela é mudada na sua orientação ou disposição. Ele usa a palavra desviar. A direção da vontade é mudada. Considerando que a vontade não-convertida é dirigida somente para o mal, a vontade regenerada é agora dirigida para Deus. 


Quando Deus dirige a vontade de uma pessoa, aquele que anteriormente não tinha vontade de mover-se para Deus e estava indisposto com relação às coisas espirituais, se torna desejoso de chegar-se a Deus. Essa mudança na direção da vontade é realizada pela graça regeneradora de Deus. Isso levanta a questão do caráter irresistível da graça regeneradora. A caricatura da doutrina agostiniana é que Deus força pessoas que se negam a se chegarem a ele. Por sua vez, o semipelagiano diz que o homem tem a capacidade de cooperar com a graça regeneradora ou rejeitá-la. 


Crisóstomo havia argumentado que "aquele que ele atrai, ele atrai de bom grado". Sua noção, em si mesma, não é incorreta, mas Calvino se sente desconfortável com o que Crisóstomo insinua: "que o Senhor apenas estende a sua mão e espera para ver se nós estaremos satisfeitos em aceitar a sua ajuda". "Admitimos que como o homem foi originalmente constituído, ele podia se inclinar para qualquer lado", continua Calvino, "mas visto que ele tem nos ensinado, pelo seu exemplo, o quão miserável é o livre-arbítrio se Deus não opera em nós o querer e o realizar, qual a utilidade para nós da graça ter sido dada nessa medida escassa?... A doutrina do apóstolo não é que a graça da boa vontade é oferecida a nós se nós a aceitarmos..., mas que o próprio Deus se agrada em trabalhar em nós para guiar, dirigir e governar o nosso coração por meio do seu Espírito, e reinar nele como sua própria possessão".

Aqui, Calvino claramente se inclina para o lado do monergismo. A obra da graça regeneradora não é uma mera oferta exterior, mas uma recriação interior por Deus, que realiza o que ele pretende realizar. Uma mera oferta exterior da graça ou assistência à vontade enfraquecida, que Calvino chama de tipo de graça "escassa", é insuficiente para conduzir o pecador à fé e salvação. Uma oferta exterior nada faz para vencer a escravidão da carne ao pecado mas, num sentido, iria apenas ridicularizá-la. A carne é tão impotente que é necessário mais do que uma atração exterior para libertar a criatura da sua escravidão. O coração de pedra deve ser mudado por Deus por um coração de carne. 


Devemos ser cuidadosos em não confundir os dois diferentes usos da palavra carne na Bíblia. O significado dominante de carne no Novo Testamento é o da natureza corrupta e caída do pecador, que não lhe é útil para nada com relação à justiça ou à vitalidade espiritual. Aqui, carne é o oposto de espírito.
 

Na frase "coração de carne" do Antigo Testamento, carne é o oposto de pedra. O homem está em escravidão moral porque seu coração é recalcitrante, ossifícado. As pedras não abraçam voluntariamente as coisas de Deus. Quando é dito que Deus mudará o coração de pedra por um coração de carne, isso não significa que ele o fará mau, mas que ele irá fazê-lo uma força palpitante, vigorosa, viva para ele e seu reino. Nesse uso, o coração de carne é um coração regenerado. No outro uso, o coração de carne é um coração não-regenerado. 


Calvino diz: 


Assim, para combater a enfermidade da vontade humana e evitar que ela fracasse, por mais fraca que seja, a graça divina foi feita agir nela de forma inseparável e ininterrupta. Em seguida, Agostinho entrando totalmente na questão de como o nosso coração segue o movimento quando Deus o atinge, diz que, de fato, o Senhor necessariamente atrai o homem por meio da sua própria vontade; vontade, no entanto, que ele mesmo produziu. Temos, agora, um atestado de Agostinho à verdade que desejamos especialmente manter - isto é, que a graça oferecida pelo Senhor não é simplesmente algo que cada indivíduo tem liberdade total de escolher receber ou rejeitar, mas uma graça que produz, no coração, tanto a escolha quanto a vontade: de forma que todas as boas obras que se seguem são seus frutos e conseqüências; a única vontade que produz obediência é a que a própria graça causou. 

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