Capelania Hospitalar, O que e como fazer?

Capelania
Ajuda ao doente
Rev. Luiz Henrique dos Reis

“Era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visi-tastes" (Mt 25.43).

Há intenso debate na sociedade sobre questões éticas de atendimento médico ao doente. Há, no meio reli-gioso, dúvidas de ordem filosófico-teológica, de prática do tratamento e da ajuda que se deve oferecer ao doente. Tenho recebido interessantes questionamentos sobre o assunto. Verifico preocupações pertinentes da necessidade de ruptura com abordagem religiosa ultrapassada, em que se destacam as preocupações de transmissão de pseudo-verdades religiosas, em detrimento das reais e concretas necessidades de apoio e ajuda carecidas pelo doente. Vamos estabelecer, a seguir, um diálogo de perguntas e respostas. Verifi-quemos:

1ª pergunta: Sinto-me inclinada, ao ouvir rapidamente a exposição da situação do doente, a emitir con-selhos a partir de minha experiência de vida. Observei que alguns pacientes se aborreceram e bloquearam os canais de comunicação.

Resposta: As orientações dadas depois de se ouvir a situação do doente são geralmente inúteis e às vezes prejudiciais. Isso se dá por duas razões originadas no orientador: a) Ele não consegue entrar no universo de vida da pessoa enferma; e b) Ele tende a realizar uma projeção de valores e convicções pessoais e ou religiosas, que não necessariamente encontram respaldo no doente. É importante que se destaque que toda orientação carece de intenso apoio externo e acompanhamento da realidade de vida e necessidades do enfermo. Neste caso, troque a orientação por disponibilidade de ajuda real e concreta.

2ª pergunta: Que devo fazer com minhas convicções religiosas, morais e culturais quando em contato para disponibilizar ajuda ao doente?

Resposta: As convicções religiosas, morais e culturais são determinantes para a realização de todo e qualquer trabalho, inclusive o de ajuda ao enfermo. Contudo, há que se verificar o seguinte: a) Quando lidamos com as convicções religiosas, morais e culturais de outras pessoas, não precisamos nos sentir cobrados em substituí-las pelas nossas; b) Não há necessidade de precipitação em se estabelecer um dis-curso religioso, como se a salvação do enfermo dependesse unicamente de nossa abordagem; c) Ouvir sempre é a mais oportuna atitude e o melhor remédio. Depois, se necessário, trabalhar conceitos do diálo-go sempre com base na própria pessoa atendida e não no atendente.

3ª Pergunta: O que o doente espera, de fato, das pessoas que lhe oferecem ajuda ou se disponibilizam a ajudar?

Resposta: O doente espera, mesmo inconscientemente, que associemos à nossa abordagem o trato dos seguintes temas: a) A situação de dificuldade, cujo grau de importância deve ser estabelecido pelo doente e não pelo orientador; b) A intensidade de sofrimento e o ritmo de sua discussão também devem ser prer-rogativas do enfermo e o orientador deve ser sutil em abordá-las; c) Os sentimentos na situação da enfer-midade afloram com força maior que o nosso julgamento sobre o senso da razão. Eles possuem grande valor e, mesmo que manifestos desproporcionalmente, devem ser considerados e respeitados pelo orien-tador.

4ª Pergunta: Quais são os objetivos fundamentais da relação de ajuda ao doente, baseados em respaldo ético-cristão?

Resposta: Vamos compartilhar os três objetivos, resumidamente, apresentados pela experiência pastoral de assessoramento ético de A. Brusco: a) Ajudar os doentes a tomarem suas decisões pessoais, inclusive no que se refere à salvação, sem que o orientador as induza ou tome decisões por ela. O doente precisa ser ajudado a conciliar suas convicções e valores pessoais à situação de crise gerada em sua vida. Esses valo-res naturalmente entram também em conflito e precisam ser retrabalhados à luz de uma consciência liber-ta de culpa e medo. Não podemos mais dizer ao enfermo: “Você pode fazer isto; não pode fazer aquilo”; b) Ajudar os doentes a transformarem a própria experiência de crise e dificuldade em experiência moral, ou seja, que sirva de ponto de apoio para o enfrentamento combativo da situação em que vive. O orienta-dor deve e pode ajudar o enfermo a encontrar sentido de sua vocação cristã mesmo no momento de grave dificuldade. Nosso compromisso no campo ético da vida e da saúde não nos limita a sermos guardiães da lei, mas em fazer com que ela se cumpra na mais nobre atitude humana, que visa o crescimento e a liber-tação do doente; c) Colaborar, em ato contínuo, para que o doente transforme seu conflito moral em oca-sião oportuna de crescimento humano e espiritual. Reverter a fonte de sofrimento em fonte de amadure-cimento, em proposta de profunda revisão de vida e dos valores que a permearam até aquele momento, como atitude livre, espontânea e soberana de quem está em sofrimento.
Povoam a nossa mente a necessidade de definições de linha de ação a serem adotadas, em sentido prático, em nossa abordagem de ajuda ao doente. Apontamos, ao final dessa reflexão, atitudes orientadas pelo Senhor Jesus, que certamente são oportunas para ajudar todas e quaisquer pessoas em crise, lutas, dores e sofrimentos:

a) A atitude do amor. Sem amor não há libertação, correção, transformação, crescimento e, especialmen-te, salvação. Não só com palavras, mas com atitudes concretas e sinceras de quem se solidariza de fato com o drama do doente. “O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 15.12);

b) A atitude da assertividade. Jesus em relação à mulher adúltera (Jo 8.3-11) e à samaritana (Jo 4) adota a atitude da assertividade, tanto para corrigir fraternalmente quanto para exercer sua função profética. Não podemos condenar as vidas enfermiças às vielas estreitas e sombrias do legalismo. Precisamos, no entanto, abrir as oportunidades para um futuro novo e abençoado;

c) A atitude de aceitação incondicional. Aceitar incondicionalmente a vida do enfermo que está diante de nós, não significa que se aprovam seus comportamentos equivocados. Ao aceitar um comportamento equivocado não significa que o consideramos desejável, mas que o aceitamos, compreendendo que foi natural para as circunstâncias em que ele se encontra. Nossa reprovação não é capaz de mudar a vida de ninguém. Pensemos em Jesus aceitando incondicionalmente a mulher adúltera: “E disse-lhe Jesus: Nem eu te condeno; vai-te, e não peques mais” (Jo 8.11); como também sua aceitação e preocupação em rela-ção a Judas, quando este vai traí-lo: “Também Judas, que o traía, perguntou: Porventura sou eu, Rabi? Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste” (Mt 26. 25); ou na confiança que demonstra em relação a Pedro, sabendo que ele vai negá-lo: “Disse-lhe Pedro: Por que não posso seguir-te agora? Por ti darei a minha vida. Respondeu Jesus: Darás a tua vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo até que me tenhas negado três vezes” (Jo 13.37-38).

A ajuda ao doente, do aspecto de tratamento ético-pastoral, é uma tarefa que exige muito mais que boa vontade. José Carlos Bermejo afirma sabiamente: “A experiência de um acompanhamento pastoral eficaz reconstrói o coração do sofredor, faz experimentar a graça de Deus mediada pelo testemunho cheio de esperança do agente pastoral”. Há necessidade, portanto, de revestirmo-nos de misericórdia e amor, mas simultaneamente, nos despojarmos do preconceito e da atitude de julgador.

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