A BELEZA TEOLÓGICA DAS GENEALOGIAS BÍBLICAS

A presente meditação dominical inspirou-se no sermão proferido pelo pastor da nossa igreja, reverendo Renan de Oliveira Pereira, que, na semana passada, na Escola Bíblica Dominical, tomando como texto base para a sua pregação o primeiro capítulo do livro do evangelista Mateus, discorreu sobre a importância das genealogias bíblicas, notadamente a que desemboca na pessoa de Jesus Cristo, ponto de partida e de chegada de todas as profecias que a seu respeito foram escritas NO Antigo Testamento; e que, pela soberania e ação providencial de Deus em seu absoluto e sábio controle da história, obtiveram pleno cumprimento. De modo geral, há uma tendência muito grande, verificada entre os leitores da Bíblia, de se desprestigiar os relatos genealógicos, como se eles fossem desimportantes e dispensáveis; como se, em última instância, eles ocupassem, no texto sagrado, uma posição de mero apêndice, sem maior relevância. Postura, de resto, inescondivelmente equivocada, por uma série de razões. Em primeiro lugar, porque não há nada na Escritura sagrada que seja desvalioso. Ao contrário, tudo quanto se encontra abrigado nas santas páginas das Escrituras sagradas teve o selo da infalível, inerrante e suficiente supervisão do Deus todo-poderoso que, por meio do Espírito Santo, inspirou profetas, apóstolos e outras pessoas ligadas a eles, a fim de que todos registrassem a sua gloriosa revelação especial. A esse respeito, cremos ser oportuno evocar duas emblemáticas passagens bíblicas, que, sem rasuras, evidenciam a plenária inspiração da Palavra de Deus, “pois tudo quanto, outrora, foi escrito, para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Romanos 15.4). Ora, se toda a Escritura é inspirada (Tota Scriptura), não são menos inspiradas as genealogias que, no limite, apontam para a milimétrica execução do plano de Deus para a redenção do seu povo. Em segundo lugar, as genealogias, conforme sinalizado anteriormente, mostram como Deus foi cirurgicamente preciso na administração do plano que traçou na eternidade, com vistas à salvação dos seus escolhidos. Tal projeto salvífico, arquitetado pela Trindade nos Pacto da Redenção, tinha em Jesus Cristo o grande agente e executor na história, pois, em face de um princípio estabelecido pelo próprio Deus, de maneira sábia e imutável, “sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hebreus 9.22), não há perdão de pecados, não há salvação, não há, enfim, esperança para o homem, somente a certeza do inevitável e terrível juízo de Deus. As genealogias, com a sua impressionante coleção de nomes e mais nomes, apontam para marcos redentivos que Deus, ao longo da história da revelação, foi espalhando. Abraão, Isaque, Jacó, Davi, dentre outros tantos que compõem o código onomástico das genealogias, são satélites que orbitam em torno do glorioso Sol da Justiça, Jesus Cristo, sem o qual todos nós permaneceríamos nas trevas e no mais dramático processo de afastamento do Senhor. A compreensão de tais verdades livra-nos de olhar para a Escritura sagrada, e para algumas das suas porções, como se ela fosse pontuada, aqui/acolá, de narrativas meramente edificantes do ponto de vista ético e moral. Como se o seu alvo primordial fosse, em determinados momentos, apenas colocar-nos, face a face, com exemplos de ações nobres, dignas de serem imitadas, praticadas por heróis épicos elevados e acima da média do comum dos mortais. Ao procedermos assim, retiramos da Escritura a sua indelével dimensão profético-redentiva e ato contínuo passamos a encará-la tão somente como uma metanarrativa histórica, em nada diferente, em seu cerne essencial, das outras tantas que abarrotam as bibliotecas pelo mundo afora. Por fim, as genealogias nos sinalizam para um Deus absolutamente fiel a si mesmo e sumamente poderoso para dar cabal cumprimento a todas as promessas que ele fez em consonância com o seu propósito eterno e com o seu irretocável caráter. Nenhum ser humano, por mais diligente que seja, é capaz de supervisionar todos os passos de sua vida, de maneira a fazer com que todos eles aconteçam exatamente conforme o que foi delineado no planejamento previamente elaborado. Aliás, sobre tal matéria a Escritura sagrada afirma-nos em nítida tonalidade exortativa: “Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros. Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por um instante e logo se dissipa. Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isso ou aquilo. Agora, entretanto, vos jactais das vossas pretensões. Toda jactância semelhante a essa é maligna” (Tiago 4.13 a 16). Diferentemente do homem, falível em todos os seus caminhos, Deus é aquele que “tudo pode, e nenhum dos seus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2). As genealogias bíblicas, em sua beleza teológica, sinalizam para tal verdade gloriosa. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER. JOSÉ MÁRIO DA SILVA PRESBÍTERO

A SUBLIME REVELAÇÃO ESPECIAL DE DEUS

Na meditação dominical da semana passada, dissertamos sobre a revelação especial de Deus, a que se manifesta no grande livro da criação, em cujas páginas, de modo indelével, o Senhor espalhou as suas impressões digitais, “porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Romanos 1.20). Tal revelação é extensiva a todos os homens. É incompleta e insuficiente para salvar os pecadores, embora seja mais do que suficiente para torná-los, sem nenhuma exceção, inteiramente indesculpáveis perante o criador. Como afirma o pastor presbiteriano Adão Carlos Nascimento, em seu excelente livro, A Bíblia é Nossa Testemunha, “O homem foi atingido. Espiritualmente ele tornou-se ignorante e embrutecido como um irracional. E, assim, ficou impossível compreender corretamente o que Deus nos fala através da natureza”. Quando lemos o soberbo livro da criação, nós nada aprendemos acerca do pecado, da graça salvadora, da redenção que há em Cristo Jesus, do evangelho bendito; enfim, das gloriosas doutrinas da graça e dos aspectos mais detidos e específicos das pessoas da Trindade, que criaram o mundo, preservam-no, providencialmente, e, de maneira bondosa, proveram uma eterna salvação para o seu povo, objeto do seu amor eletivo, pactual, incondicional e verdadeiramente salvífico. Todas essas verdades são comunicadas por intermédio da revelação especial. O desconhecido e inspirado autor da epístola aos Hebreus, acerca da natureza da revelação especial, assim se expressou: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hebreus 1.1,2). Vemos aqui, claramente, que Deus falou, revelou-se ao homem, e o fez várias vezes, de maneiras diversas, notadamente pelos profetas, com o indesviável alvo de mostrar ao seu povo o seu plano de salvação eterna. Deus falou por meio de sonhos, visões, intervenções miraculosas, das palavras inspiradas dos profetas, tudo em estrita consonância com a história da redenção. Depreendemos, nitidamente, das palavras empregadas pelo sacro autor, que a revelação especial de Deus, em seu cerne, é portadora de um indisfarçável caráter progressivo, que se foi agenciando ao longo do tempo, até encontrar o seu definitivo e suficiente ápice na pessoa gloriosa de Jesus Cristo, a palavra final de Deus na história. Toda a Escritura sagrada aponta para Jesus Cristo. Ele é o ponto de convergência de todas as profecias que a seu respeito foram escritas em todo o Antigo Testamento. No Gênesis, ele é o descendente da mulher prometido, que será ferido no calcanhar, mas, ao mesmo tempo, destruirá o poder da serpente por intermédio da sua morte substitutiva e ressurreição justificadora dos seus eleitos, o que ocorreu, como sinaliza o apóstolo Paulo, na “plenitude dos tempos”. (Gálatas 4.4) No Êxodo, ele é o cordeiro imolado, cujo sangue, espargido nos umbrais das portas das casas dos seus escolhidos, é garantia de vitória certa contra o anjo da morte. Em Levítico, ele é o sacrifício perfeito, o único que nos franqueia o acesso a Deus. Em Números, ele é um profeta semelhante, e superior, a Moisés, a quem devemos ouvir incondicionalmente, dado que é o verbo supremo de Deus, encarnado, em quem “reside toda a plenitude da divindade” (Colossenses 1.9b). Em Deuteronômio, ele cumpre, irrasuravelmente, toda a lei de Deus, e, assim, torna-se, de fato, o nosso substituto eficaz. E por aí segue a supremacia indisputável daquele que é o ponto culminante da revelação especial de Deus: Jesus Cristo. A revelação especial de Deus, conquanto suficiente, não é exaustiva, pelo simples fato de que não nos revela tudo sobre Deus, sobre a misteriosa e indecifrável essência do seu ser. Nesse sentido, Deus é o “totalmente outro”, intocado e inapreendido em sua imanência pura. Por outro lado, ela é suficiente, em razão de que tudo quanto Deus quis que soubéssemos sobre ele, seu caráter santo, atributos sublimes, seu controle da história e grandes e poderosos atos de salvação, ele nos revelou, de modo a podermos, pela iluminação do seu Santo Espírito, conhecê-lo e adorá-lo em espírito e em verdade, como ele, de fato, quer ser adorado. De modo rigorosamente didático, podemos dizer que a revelação especial de Deus nucleariza-se pela confluência de quatro grandes narrativas que, integradas, perfazem a solene metanarrativa celestial. A primeira delas diz respeito à criação. Aqui, aprendemos que o mundo não é fruto do acaso, do arranjo fortuito e impessoal de uma suposta explosão cósmica, sem beleza e sem teleologia. Antes, é resultado de um projeto concebido por um Deus bom, santo, sábio e amoroso, que tudo fez para o seu louvor e glória, principalmente o homem, em quem pôs a sua imagem e semelhança, e a quem constituiu a coroa da criação. A segunda relaciona-se ao trágico relato da queda. Criado originalmente livre, com possibilidade efetiva de autenticar-se em santidade, o homem preferiu desconectar-se de Deus e quebrar a sua aliança; enfim, pecar, e atrair, para si, a justa ira de Deus. A terceira vincula-se à poderosa obra de redenção arquitetada pela Trindade nos invisíveis bastidores da eternidade e, posteriormente, consumada no tempo e na história por Jesus Cristo. Diante da proclamação de tão retumbante e gracioso feito do Pai/Filho/Espírito Santo, o pecador é exortado ao arrependimento e à fé unicamente na pessoa de Jesus Cristo. A quarta e última radica na restauração de todas as coisas, que será efetuada por Deus, quando Jesus Cristo retornar, glorioso, e o pecado for erradicado, definitivamente, do universo. Os salvos permanecerão para sempre com o Senhor. Os perdidos serão banidos da face do Senhor e da glória do seu poder (2 Tessalonicenses 1.9b). Novos céus e nova terra serão implantados. Alegria e paz no Espírito refulgirão por toda a eternidade. Que a revelação especial de Deus, a Escritura sagrada, seja o deleite permanente do nosso coração. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER. JOSÉ MÁRIO DA SILVA PRESBÍTERO

AS BASES DE UMA IGREJA GENUINAMENTE CRISTÃ

À luz das Escrituras sagradas, uma igreja genuinamente cristã é aquela que exibe uma nítida consciência acerca do seu chamado. Noutras palavras, ela sabe que foi Deus quem a constituiu por meio da ação sobrenatural do Espírito Santo que, por sua vez, instrumentalizou-se da pregação da palavra, do glorioso evangelho da salvação que o Pai concede na pessoa do seu Filho amado Jesus Cristo. E, tudo em sintonia com o decreto feito por Deus na eternidade, no qual ele decide salvar um povo e firmar com ele uma eterna e inquebrantável aliança. Neste sentido, transcendendo a mera condição de uma organização humana, a igreja é uma instituição divina, o corpo vivo do Salvador, formada por pessoas que, verdadeiramente, foram regeneradas; nasceram de novo; passaram da morte para a vida; e, embora ainda sejam imperfeitas e machadas pelas nódoas do pecado, já foram purificadas pelo sangue de Jesus Cristo; e, ato contínuo, estão experimentando o progressivo e dinâmico processo da santificação. Uma igreja genuinamente cristã é aquela que adora unicamente a Deus; e o faz no poder do Espírito Santo e pela mediação perfeita operada pelo Senhor e Salvador Jesus Cristo. Essa adoração tanto se cristaliza no momento solene do culto público prescrito e convocado pelo Senhor, por meio de louvores harmonizados com os ditames bíblicos, como deve ser a expressão de uma vida inteiramente consagrada ao Senhor, comprometida com os santos valores do seu reino e com a promoção, em todas as coisas, da justa glória de Deus, do louvor incondicional da sua esplêndida majestade e do modo providencialmente sábio, santo e amoroso como ele governa todas as coisas. Uma e outra realidade interpenetram-se reciprocamente, de maneira que se não há adoração na vida, a adoração gestada no culto não passa de encenação vazia e sem nenhum valor diante de Deus. Uma igreja genuinamente cristã é aquela que, balizada pelas Escrituras sagradas, proclama, quer oportuno, quer não, única e exclusivamente, o evangelho simples e poderoso da cruz do calvário, no qual Jesus Cristo pontifica como o indesviável centro. Por esse viés, tal igreja, adornada pela graça do discernimento espiritual sabiamente exercitado, não se deixará, em momento algum, seduzir pela multiplicidade dos falsos evangelhos, que não param de surgir todos os dias, forjados pela vã imaginação humana. “Evangelhos” divorciados da Bíblia sagrada e inteiramente desaprovados pelo Senhor. Sendo assim, tal igreja haverá de se nutrir por forte e ardente paixão pelas almas dos pecadores que, distantes de Deus, caminham para a perdição eterna. A verdadeira igreja sabe que em todos os lugares da terra há ovelhas do Senhor; e que elas, pela instrumentalidade da pregação do evangelho, reconhecerão a voz do Bom Pastor e se apegarão a ele em atitude de arrependimento e fé. E, firmada nessas imutáveis verdades da graça, a genuína igreja de Jesus Cristo prega o evangelho, enfrenta os exércitos do inimigo e descansa no agir soberano e sobrenatural do Deus a quem ela serve. A verdadeira igreja de Jesus Cristo cultiva e põe em prática, ainda que de maneira limitada, o amor, distintivo do cristão verdadeiro, fruto do Espírito Santo, mandamento do Senhor, graça preciosa que Deus derramou em nossos corações por meio do Espírito Santo, que nos foi outorgado, conforme doutrinação inspirada do apóstolo Paulo. Se não há amor entre irmãos que professam a mesma fé, nosso cristianismo pode não ser mais do que mera religiosidade, quando não, o que é bem pior, hipocrisia consentida e celebrada. Esse amor faz com que a igreja seja capaz de administrar os conflitos que emergem em seu seio, de forma bíblica, sem belicosidades, nem espírito faccioso e glorificador das contendas. Conflitos são inevitáveis, onde quer que haja ajuntamento de pessoas. O que depõe contra a igreja não é que o conflito surja, mas sim a entronização das desavenças, o fomento deliberado e ímpio de situações que só servem mesmo para comprometer a unidade do corpo de Cristo. Unidade que é a essência da natureza do relacionamento vivenciado pela Trindade desde toda a eternidade. Unidade, pela qual Jesus Cristo orou na sublime Oração Sacerdotal, e que é indício explícito da maturidade de uma igreja cristã. Quem promove a unidade do povo de Deus é o Espírito Santo. Contudo, cada um de nós deve ser um agente efetivo da unidade, e não uma pedra de tropeço, um veículo de desagregação, que se compraz em ver a igreja despedaçada e sangrando no altar espúrio da desunião e das brigas constantes. Uma verdadeira igreja tem zelo pela glória de Deus, daí a valorização que ela deve conferir à prática da disciplina eclesiástica, instrumento bíblico que visa levar o transgressor ao arrependimento, ao abandono do pecado, à restauração e ao retorno á comunhão com o Senhor e com os demais membros da igreja. Visa, de igual modo, infundir temor na comunidade, a fim de que ela medite, profundamente, na seriedade do pecado e no quanto ele é ultrajante à santidade de Deus. Uma igreja genuína administra, com fidelidade, os sacramentos estabelecidos pelo Senhor Jesus Cristo: o batismo e a ceia da nova aliança, observando-os de conformidade com o que preceituam as Escrituras sagradas. Que Deus conceda-nos a graça de nos avaliarmos permanentemente, a fim de verificarmos se o nosso proceder compatibiliza-nos ou não com o padrão que a Escritura sagrada esculpe acerca do que efetivamente vem a ser uma genuína igreja cristã. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER. JOSÉ MÁRIO DA SILVA PRESBÍTERO

O LEGADO DO CRISTÃO

EXEMPLOS DE PIEDADE / EXEMPLOS DE IMPIEDADE No salmo noventa, cujo autor é o profeta Moisés, somos informados de que “Os anos da nossa vida chegam a setenta, ou, para os que têm mais vigor, a oitenta; mas o melhor deles é cansaço e enfado; pois tudo passa rapidamente, e nós voamos” (Salmo 90.10). Aprendemos, aqui, que é Deus quem, providencialmente, estabelece o tempo da nossa existência. Aprendemos, de igual modo, que nossa vida terrena, por prolongada que seja, é breve, sumamente fugaz, irresistivelmente, passageira. Sendo assim, devemos refletir, seriamente, a respeito do nosso viver; do legado que pretendemos deixar neste mundo, depois que os nossos dias se findarem, e a porta da eternidade se abrir para nós. As Escrituras Sagradas estão repletas de exemplos de pessoas que aproveitaram o tempo que lhes foi concedido por Deus para imprimirem nele marcas de piedade e consagração ao Senhor. Outros, contudo, em direção contrária, assinaram pactos de convivência com a impiedade e legaram tristes exemplos de descompromisso com Deus e com os valores normativos da sua palavra. Vejamos alguns relatos bíblicos que ilustram tais realidades. No livro de Gênesis, a Escritura fala-nos acerca de um homem chamado Lameque, que tinha duas mulheres. Uma chamava-se Ada, a outra, Zila. Ele matou dois homens, de modo cruel. Ao tomar conhecimento de que Caim, também assassino, havia recebido do Senhor proteção, após ter tirado a vida de Abel, seu irmão, Lameque, em vez de vislumbrar no gesto do Senhor um exercício de bondade e de restrição ao mal, tomou-o como um convite à prática reiterada do pecado. Um salvo-conduto para continuar trilhando a senda da iniquidade. Triste exemplo de impiedade. No mesmo livro, há a história de Sete, mais um filho que Deus concedeu a Adão. Depois, Sete gerou a Enos. “Foi nesse tempo que os homens começaram a invocar o nome do Senhor” (Gênesis 4.26). Geração santa, semente celestial, sublime demonstração de piedade. Abraão, Ló e a mulher de Ló, três personagens, exemplos de impiedade e de piedade. Abraão e Ló, movidos pela contenda travada pelos pastores dos seus rebanhos, tiveram de separar-se, percorrer outras estradas, habitar outros espaços, conviver com outras geografias. Seduzido pela concupiscência dos olhos, “Ló escolheu para si todo o vale do Jordão, e partiu para o Oriente (Gênesis 13.11). Foi habitar nas cidades do vale, mudando suas tendas até chegar a Sodoma”, esquecendo-se de que “os homens de Sodoma eram maus e grandes pecadores contra o Senhor” (Gênesis 13.12b). Abraão, por seu turno, “habitou na terra de Canaã” (Gênesis 13.12), preferindo colocar os seus olhos e firmar a sua fé no “Deus invisível, mas real”, que lhe havia feito graciosas e imutáveis promessas, a todas conferindo, no tempo por ele determinado, cabal e infalível cumprimento. Precioso exemplo de piedade. Já a mulher de Ló inseriu-se na história da redenção da forma mais trágica possível. Na hora crucial da sua vida, quando o justo juízo de Deus caía sobre as ímpias cidades de Sodoma e Gomorra, em vez de fixar os seus olhos no Senhor e abraçar, pela fé, a grande e imerecida salvação que lhe estava sendo ofertada na hora extrema da sua existência, preferiu olhar para trás, enamorar-se até o fim com o pecado, com o mundo, que, continuamente, “jaz no maligno”) 1 João 5.19b) e, na consumação de tudo, será condenado pelo Senhor de maneira definitiva. Ao virar uma estátua de sal, a mulher de Ló deu-nos um dramático exemplo de impiedade, próprio de alguém que amou o mundo e, por essa razão, tornou-se inimigo de Deus. Quando nos transportamos para o universo do Novo Testamento, os exemplos contrastantes multiplicam-se. De um lado, vemos uma mulher chamada Dorcas. Ela só é mencionada uma única vez no livro de Atos de Apóstolos, mas o suficiente para percebermos que a sua vida foi operosa. “ela fazia muitas boas obras e dava esmolas” (Atos 9.36). Seu exemplo de piedade era tão vivo que quando ela morreu, “todas as viúvas o cercaram, chorando e mostrando as roupas e vestidos que Dorcas fizera enquanto estava com elas”. (Atos 9.39b). Posteriormente, o apóstolo Pedro faz uso dos dons extraordinários que Deus concedeu aos apóstolos, fazendo-os cessar depois, e ressuscita Dorcas. Eis-nos diante de um bonito exemplo de piedade. Mais adiante, nas epístolas pastorais, Paulo fala-nos de um homem chamado Alexandre, o latoeiro, que causou muitos males ao servo de Deus. Passou para a história como um mau obreiro, alguém descomprometido com o evangelho, que fez da impiedade o traço mais visível do seu ser/estar no mundo. Poderíamos arrolar inúmeros nomes de pessoas que viveram de forma digna do evangelho de Jesus Cristo; e de outras que, em direção contrária, escreveram, na história da revelação, capítulos de impiedade, de procedimentos destoantes dos santos caminhos do Senhor. O ponto central, entretanto, é o seguinte: e, quanto a nós, como temos vivido? Que legado deixaremos para os que nos sucederão na caminhada da fé, da esperança e do amor cristãos? Legado de piedade, inarredável compromisso com Jesus Cristo e o seu reino ou, ao contrário, de impiedade e vida de incompatibilidade com o padrão de santidade inerente ao caráter do Senhor? Que Deus nos ajude a meditar em realidades espirituais tão sérias e que têm implicações para toda a eternidade. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER. JOSÉ MÁRIO DA SILVA PRESBÍTERO

Exegese romanos 5.9

Em face da Páscoa, meditemos “LOGO, MUITO MAIS AGORA, SENDO JUSTIFICADOS PELO SEU SANGUE, SEREMOS POR ELE SALVOS DA IRA.”Rm 5.9 O capítulo 5 enfoca o tema “justificação” no início, v.1; no meio, v.9 no fim,vs.16,18. “Justificação é um ato da livre graça de Deus, no qual ela perdoa todos os nossos pecados e nos aceita como justos diante dele, somente por causa da justiça de Cristo a nós imputada, e recebida só pela fé.” Ef 1.7; II Co 5.21; Rm 4.6 “E é assim também que Davi declara ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça, independente de obras.”; Gl 2.16(Breve Catecismo pg.33).JUSTIFICADOS, 5.9, dikaiothentes, particípio aoristo passivo, declarados justos. Indica uma ação anterior à principal, “seremos salvos”, antes da salvação é preciso justificação; o aoristo é uma ação pontilear, significa dizer que a justificação é um ato, não um processo e a voz passiva indica que somos objeto da ação justificadora divina; PELO SEU SANGUE, Ex.12.5 “O cordeiro será sem defeito...”; v.7 “tomarão do sangue e o porão em ambas as ombreiras...” v. 11”...é a Páscoa do SENHOR.”v.12 “...ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, desde os homens até os animais; executarei juízo sobre todos os deuses do Egito. Eu sou o SENHOR.”v.13 “O sangue vos será por sinal...quando eu vir o sangue, passarei por vós, e não haverá entre vós praga destruidora, quando eu ferir a terra do Egito.” Hb 9.22 “...e, sem derramamento de sangue, não há remissão.” (perdão). “...SEREMOS POR ELE SALVOS DA IRA.” SEREMOS SALVOS, sothesometha, indicativo, modo da certeza, fato, realidade, não há dúvida de que os justificados serão salvos da justa ira. O futuro expressa uma qualidade de ação preferencialmente pontilear, quem sabe no grande trono branco, Ap 20.11, ou Mt 25.34 “então, dirá o Rei ao que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.” E a voz passiva destaca o fato do sujeito sofrer a ação de ser salvo. O juízo é certo: Rm 2.2”Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade contra os que praticam tais coisas.”; v.3 “...pensas que te livrarás do juízo de Deus?”; v.5 “Mas, segundo a tua dureza e coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus,”; v.16 “no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho.” Mas, a sentença condenatória inexistente “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.”Rm 8.1 A justiça de Deus foi satisfeita em Cristo. Estamos protegidos pelo sangue bendito do Cordeiro de Deus! Por isso João registrou “Quando O vi, caí a seus pés como morto. Porém Ele pôs sobre mim a mão direita, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o último e aquele que VIVE; estive morto, mas eis que estou VIVO pelos séculos dos séculos [...]” Ap 1.17,18. Porque Ele vive, posso crer no amanhã, a garantia de nossa ressurreição, Aleluia!!! I Co 15.20-28. “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão.” I Co 15.58

SUGESTÕES DE LEITURA (PARTE IV)

SUGESTÕES DE LEITURA (PARTE IV) Dando continuidade à séria de artigo que temos escrito com sugestões de leitura de livros que consideramos edificantes para a vida espiritual dos irmãos, discorreremos, hoje, sobre o instrutivo opúsculo intitulado 5 Pecados que Ameaçam os Calvinistas, de autoria do presbítero Solano Portela, que se tem notabilizado, no âmbito da Igreja Presbiteriana do Brasil, pela produção de escritos/livros sumamente úteis para quem aspira, em meio a uma babelização espiritual triunfante, a ouvir vozes sóbrias, que tomam como inafastável parâmetro para o seu sentir/pensar/agir, unicamente, as Escrituras Sagradas, Regra Única de Fé e de Prática para tantos quantos foram regenerados pelo poder do Espírito Santo e, ato contínuo, passaram a depositar a sua irrestrita confiança na pessoa e na obra do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. O presbítero Solano Portela, que Deus assim o preserve, tem se mantido fiel a uma confessionalidade que, reformada em sua nervura essencial, tem suas raízes e vivências cotidianas ancoradas no porto seguro da Palavra de Deus. Vamos, então percorrer, os vãos e desvãos do livro 5 Pecados que Ameaçam os Calvinistas, originalmente uma palestra que o presbítero Solano Portela proferiu no encontro promovido pelo Projeto Os Puritanos, ocorrIdo na cidade de Águas de Lindóia, nos dias de 9 a 13 de junho de 1997. Na parte introdutória da conferência/livro, o presbítero Solano esclarece que não irá tratar dos “pecados do calvinismo”, nem irá “falar contra o calvinismo”. Cedamos a palavra a Solano Portela: “Nossa preocupação é com os pecados que ameaçam os calvinistas. Esses, vale dizer, não são pecados que caracterizam os calvinistas. Eles podem ser encontrados em muitos campos de persuasão cristã e, nesse sentido, o alerta é generalizado. Nossa preocupação é, entretanto, a de que os calvinistas não se considerem imunes a esses perigos, pois os pecados que vamos mencionar representam também séria ameaça ao seu testemunho como cristãos eficazes na igreja de Deus”. De igual modo, Solano Portela sinaliza que os pecados sobre os quais vai se pronunciar, não são os únicos que assediam os calvinistas, dado que outros tantos conspiram contra os que anelam viver santamente diante de Deus. Prestados esses esclarecimentos preliminares, ele passa a abordar alguns dos cinco pecados que ameaçam os calvinistas. Principia o seu périplo pelo pecado do Orgulho Espiritual, que, lamentavelmente, ocupa, vezes sem conta, o coração do servo de Deus, levando-o a, diferentemente do que preconizam as Escrituras Sagradas, considerar os outros como sendo “inferiores a si mesmo”. Aqui, é demonstrando como o orgulho espiritual é portador de uma lastimável propensão para, na prática, cultivar “A tendência de se criar uma Hierarquia dos Salvos”, como se no meio do povo de Deus houvesse crentes de primeira e de segunda classe. Revisitando variados capítulos da História da Igreja – dos gnósticos, dos alegoristas, dos quacres, do pentecostalismo e de certos reformados enfatuados, Solano Portela mostra como persiste a velha e pecaminosa tendência para uns se sentirem mais elevados espiritualmente que os outros. Se o pentecostal corre o risco de julgar-se mais espiritual que os demais crentes, pelo fato de presumir ser possuidor de uma porção mais poderosa do Espírito Santo, o reformado não está isento de querer sentir-se mais espiritual por ser detentor de um sistema teológico mais robusto, abraçado pela igreja, ao longo da sua história. Na realidade concreta, por razões distintas e motivações diferentes, estão ambos a laborar em pecado idêntico: orgulho espiritual, do qual devemos, permanentemente, arrepender-nos e buscar em Deus o perdão e a restauração, que em nós devem se manifestar por meio do cultivo da humildade e do genuíno amor fraternal para com os nossos irmãos. O melhor antídoto contra o orgulho espiritual, que tanto nos ronda o coração, é alimentarmo-nos, constantemente, da certeza de que, em nós mesmos, nada somos e nada temos; e de que tudo quanto temos e somos procede, exclusivamente, do Senhor. Assim procedendo, veremos que o orgulho espiritual, quaisquer que sejam as suas supostas fontes, não passa de uma rematada tolice. O segundo pecado abordado por Solano Portela é o da Intolerância Fraternal. Vivemos hoje, parece ser esse o consenso entre os estudiosos, na chamada era Pós-Moderna, que tem no pluralismo das ideias e na consequente relativização das verdades, um dos seus mais celebrados pressupostos. Assim, quanto mais tolerantes para com tudo e para com todos, estaremos demonstrando a nossa sintonia fina com o espírito antidogmático do nosso tempo. De acordo com Solano Portela, “como calvinistas acreditamos estar firmados na verdade, não em uma verdade sujeita à compreensão subjetiva de cada um. Essa verdade é proposicional, objetiva, não contraditória e inquestionável, pois procede de revelação da parte de Deus ao homem, representada pelas inerrantes Escrituras Sagradas – a Bíblia”. Ora, crer no absolutismo das Escrituras Sagradas, primado inafastável da Teologia Reformada, e, ao mesmo tempo, considerar a Intolerância Fraternal um pecado a ser evitado, não se constitui numa contradição argumentativa explícita? Solano Portela, com sobrante biblicidade, encarrega-se de mostrar que não. E o faz operando, no campo semântico, uma eficiente distinção “entre tolerância externa e a tolerância na fé, ou fraternal (entre irmãos da mesma fé). Nesse sentido, o próprio Heber Campos declara: Devemos ser politicamente corretos quando a verdade não está em jogo”. Para com os nossos irmãos na fé, que divergem de nós em alguns pontos, sem que haja nenhum comprometimento do núcleo essencial do evangelho, devemos, sim, ser tolerantes, e, ato contínuo, evitar confrontos estéreis, que, além de não edificarem, ainda contribuem, nefastamente, para o esgarçamento do tecido da comunhão fraternal que deve reger o cotidiano dos cristãos. Em suma, quando o coração do evangelho e das verdades essenciais do cristianismo não sofre nenhum tipo de alteração substancial, não há razão alguma para nos conflitarmos com irmãos na fé que, na essência, creem e confessam as mesmas verdades gloriosas do evangelho salvífico do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Esse é um lado argumentação do aludido presbítero. O outro, igualmente relevante, é o que reflete sobre o modo como devemos nos comportar quando a verdade de Deus está sendo atacada. Aqui, Portela propõe, com acerto, que devemos ser, ao mesmo tempo, tolerantes e intransigentes. A equação comportamental parece, numa visada inicial, contraditória, mas não é. A tolerância deve ser entendida como uma atitude respeitosa e educação em relação ao outro, acumpliciada a uma amorosa e firme intransigência. Intransigência, aqui encarada como a determinada disposição de não transigirmos, isto é, não ultrapassarmos, em nenhuma dimensão, por mínima que pareça ser, os limites fixados pelo próprio Deus, em sua imutável Palavra. No próximo domingo prosseguiremos. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER. JOSÉ MÁRIO DA SILVA PRESBÍTERO

AS FIRMES RESOLUÇÕES DE JONATHAN EDWARDS (FINAL)

Na meditação dominical da semana passada, discorremos sobre as famosas e Firmes Resoluções espirituais que o notável teólogo e filósofo norte-americano Jonathan Edwards estabeleceu com a indesviável finalidade de em todas as coisas, promover a glória de Deus, no pleno reconhecimento de que esse é o alvo supremo e a indisputável teleologia de todo o universo, com a imensa variedade das coisas que foram criadas. Hoje, vamos examinar, de modo mais detido, algumas dessas Firmes Resoluções que, pela graça de Deus, emergiram do piedoso e regenerado coração do eminente servo de Deus. “Resolvi nunca perder um momento, mas aproveitar o tempo da forma mais vantajosa que puder”. O tempo é uma preciosa escola que Deus nos concede a fim de que aprendamos nela, com a indispensável iluminação procedente do Espírito Santo em conúbio com as Escrituras Sagradas que o Santo Espírito inspirou, como devemos agir, de modo a que a glória do Senhor seja amplamente realçada em todas as coisas que sentirmos, pensarmos e fizermos. A palavra de Deus, em várias das suas suficientes porções, aborda o temário do tempo, sempre advertindo-nos para que dele nos utilizemos de maneira sábia, nunca insensatamente. Na belíssima oração que fez no poético salmo 90, o homem de Deus Moisés assim se pronunciou: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Salmo 90.12). Aqui, aprendemos que a vida, diferentemente do que apregoam os arautos do existencialismo clássico, não é uma mera sucessão de acontecimentos aleatórios e destituídos de propósito e transcendência, mas sim um magnífico dom de Deus, para ser vivido em Cristo Jesus, no poder do Espírito Santo, com a regência suprema de uma pedagogia eterna, que tem nas Escrituras Sagradas o seu inamovível fundamento. Mas, como somos absolutamente insuficientes para essas coisas, precisamos, humildemente, rogar ao Senhor: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio”. Tal sabedoria levar-nos-á a temer ao Senhor e a tomar como prioridade em nossas vidas, a realização daquilo que sabemos ser perfeitamente harmonizado com a sua “boa, agradável e perfeita vontade”. Somente desse modo podemos, verdadeiramente, certificar-nos de que estamos, como preconizava Jonathan Edwards, aproveitando o tempo da forma mais vantajosa possível. Dentro das vinte e quatro horas que Deus nos concede, dia após dia, quanto tempo investimos na oração, na leitura das Sagradas Escrituras, na proclamação às pessoas, com as quais convivemos, da gloriosa e salvadora mensagem do evangelho, no fazer o bem aos mais necessitados? Essas, dentre tantas outras, são algumas balizas por meio das quais podemos aferir de que maneira estamos administrando o precioso, e fugaz, tempo, que Deus, graciosamente, nos concede, não para que o dissipemos, egoisticamente, mas sim, convém reiterar, para o glorificarmos, envolvendo-nos, irreservadamente, nas demandas do seu bendito reino. “Resolvi meditar bastante, em todas as ocasiões, sobre minha própria morte e sobre circunstâncias comuns relacionadas à morte”. Eis aqui uma Resolução Firme, séria, e, sinceramente, bem ausente das nossas cogitações cotidianas. Na realidade prática do nosso dia-a-dia, forçoso é admitir, mesmo entre o povo de Deus, que não cessa de proclamar as excelências do céu e do estar par sempre com Deus, a morte nunca é apreciada com a solenidade exigida. Pode-se argumentar que a razão primacial para que as coisas se passem dessa maneira decorre do fato de ser a morte uma intrusa, uma indesejada, que somente adentrou na esfera das experiências humanas, por causa do pecado dos nossos primeiros pais, mormente de Adão, cabeça da velha raça, com quem Deus estabeleceu o Pacto das Obras. Por esse viés, a morte é algo que sempre queremos suprimir, a ela não conferindo a mínima atenção. Por atraente e razoável que pareça tal modalidade de manifestação do pensamento, presumo que, muitas vezes, nossa tola presunção de autossuficiência é que nos leva a ignorar que não passamos de uma “neblina que aparece por instante e logo se dissipa” (Tiago 4.14b). A fingir que não somos mais do que um pó movente, que se move, unicamente, por causa da misericórdia de Deus, copiosamente, derramada em nossas vidas. O meditar na morte e nas circunstâncias a ela subjacentes, postulado por Jonathan Edwards em uma das suas Firmes Resoluções, nada tem a ver com um estado emocional mórbido, próprio de quem despreza, irrazoavelmente, as legítimas e múltiplas alegrias que a vida, mercê de Deus, nos proporciona. Antes, radica na consciência imperiosa que devemos ter de que não somos seres essenciais, mas contingentes; não somos um fim em nós mesmos, mas um meio para exaltarmos a Deus e glorificarmos o seu bendito nome. Enfim, refletir, à luz das Escrituras Sagradas, sobre a desconfortável realidade da morte, é tomarmos como certo o fato de que a qualquer momento podemos estar face a face com aquele que nos criou para o seu louvor e glória. “Resolvi sempre fazer o possível para promover, manter e estabelecer a paz, desde que isso não seja feito em detrimento de outras áreas da vida cristã”. O cristão é classificado pelo Senhor Jesus Cristo como um pacificador. Nesse sentido, devemos, sim, ser instrumentos de Deus para a promoção da paz, no âmbito da família, do trabalho, da igreja, onde quer que o Senhor nos coloque como agentes do seu reino. Na igreja, por exemplo, a paz reina quando triunfa a unidade. Unidade que tem na verdade do evangelho o seu parâmetro inafastável. Unidade, pela qual o Senhor Jesus Cristo orou na majestosa Oração Sacerdotal. Unidade, essência do perfeito e trinitariano relacionamento que as pessoas da santíssima Trindade vivenciam desde toda a eternidade. Que o Senhor nos livre de sermos achados na triste condição daqueles que “semeiam contendas entre irmãos” (Provérbios 6.19b), procedimento abominado pelo Senhor Deus dos Exércitos. Que, no alvorecer de um novo ano, haja, em nossos corações, como houve no do santo profeta Daniel, a Firme Resolução de não nos contaminarmos com os (anti)valores deste mundo, com as iguarias que nos são oferecidas nos fartos e mortais banquetes da iniquidade. Que conhecer a Deus mais e mais, pela mediação de Jesus, no poder do Espírito Santo e pela instrução das Sagradas Escrituras, seja a mais Firme Resolução das nossas vidas. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER. JOSÉ MÁRIO DA SILVA PRESBÍTERO