Uma Confissão Reformada




Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto em: Monergismo.com

1. Creio que meu único objetivo na vida e na morte deve ser glorificar a Deus e gozá-lo para sempre; e que Deus me ensina a como glorificá-lo em sua santa Palavra, isto é, a Bíblia, que ele deu pela inspiração infalível do seu Espírito Santo, para que eu pudesse saber com certeza no que crer concernente a ele e quais deveres ele requer de mim.

2. Creio que Deus é um Espírito, infinito, eterno e incomparável em tudo o que ele é; um Deus, mas três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo; meu Criador, meu Redentor, e meu Santificador; em cujo poder e sabedoria, justiça, bondade e verdade posso depositar minha confiança com segurança.

3. Creio que os céus e a terra, e tudo o que neles há, são obra das mãos de Deus; e que tudo o que ele fez, agora dirige e governa em todas as suas ações; de forma que cumprem o fim para o qual foram criados; e eu, que confio nele, não serei envergonhado, mas posso descansar com segurança na proteção de seu amor Todo-Poderoso.

4. Creio que Deus criou o homem segundo a sua imagem, em conhecimento, justiça e santidade, e entrou num pacto de vida com ele sobre a condição única de obediência, que era o seu dever: de forma que foi por pecar deliberadamente contra Deus que o homem caiu no pecado e miséria no qual nasci.

5. Creio que, tendo caído em Adão, meu primeiro pai, sou por natureza um filho da ira, sob a condenação de Deus e corrompido no corpo e alma, tendente ao mal e suscetível à morte eterna; de qual estado terrível não posso ser liberto, salvo por meio da graça imerecida de Deus meu Salvador.

6. Creio que Deus não deixou o mundo perecer em seu pecado, mas por causa do grande amor com o qual o amou, desde toda a eternidade escolheu graciosamente para si uma multidão que ninguém pode contar, para livrá-los do seu pecado e miséria, e deles edificar novamente no mundo seu reino de justiça: no qual reino posso estar seguro ter minha parte, se me apego a Cristo o Senhor.

7. Creio que Deus redimiu o seu povo para si através de Jesus Cristo nosso Senhor; que, embora fosse e sempre continua ser o eterno Filho de Deus, todavia nasceu de uma mulher, nascido sob a lei, para que pudesse redimir aqueles que estavam sob a lei: creio que ele suportou a penalidade devida aos meus pecados em seu corpo no madeiro, e cumpriu em sua pessoa a obediência que eu devia à justiça de Deus, e agora me apresenta ao seu Pai como sua possessão comprada, para o louvor da glória de sua graça para sempre: portanto, renunciando todo o mérito meu, coloco toda a minha confiança no sangue e justiça de Jesus Cristo meu redentor.

8. Creio que Jesus Cristo meu redentor, que morreu por minhas ofensas, ressuscitou para a minha justificação, e subiu aos céus, onde se assenta à mão direita do Pai Todo-Poderoso, faz contínua intercessão pelo seu povo, e governa o mundo todo como O cabeça sobre todas as coisas para a sua Igreja: de forma que não preciso temer nenhum mal e posso saber com segurança que nada pode me arrebatar das suas mãos, e nada pode me separar do seu amor.

9. Creio que a redenção realizada pelo Senhor Jesus Cristo é eficazmente aplicada a todo o seu povo pelo Espírito Santo, que opera fé em mim e através da qual me uno a Cristo, renova-me no homem completo segundo a imagem de Deus, e me capacita mais e mais a morrer para o pecado e viver para a justiça; até que essa obra graciosa tenha sido completada em mim, e eu seja recebido na glória – na qual grande esperança habita –, devo esforçar-me para aperfeiçoar a santidade no temor de Deus.

10. Creio que Deus requer de mim, sob o evangelho, em primeiro lugar, que, como resultado de um verdadeiro senso do meu pecado e miséria e apreensão da sua misericórdia em Cristo, devo me voltar com tristeza e ódio do pecado, e receber e descansar em Jesus Cristo somente para a salvação; assim, ao ser unido a ele, posso receber perdão para os meus pecados e ser aceito como justo aos olhos de Deus somente pela justiça de Cristo imputada a mim, e recebida pela fé somente; e assim, e somente assim, creio que posso ser recebido no número e ter direito aos privilégios dos filhos de Deus.

11. Creio que, tendo sido perdoado e aceito por causa de Cristo, é adicionalmente requerido de mim que ande no Espírito que ele adquiriu pra mim, e por quem o amor é derramado em meu coração; cumprindo a obediência que devo a Cristo meu Rei; realizando fielmente todos os deveres que me são impostos pela santa lei de Deus, meu Pai celestial; e sempre refletir em minha vida e conduta, o perfeito exemplo que foi estabelecido por Cristo Jesus meu Líder, que morreu por mim e me concedeu o seu Espírito Santo, de forma que eu possa fazer as obras que Deus de antemão preparou para que eu andasse nelas.

12. Creio que Deus estabeleceu a sua Igreja no mundo e concedeu-lhe o ministério da Palavra e as santas ordenanças do Batismo, a Ceia do Senhor e a Oração; para que através desses como meios, as riquezas de sua graça no evangelho possam ser feitas conhecidas ao mundo, e, pela bênção de Cristo e a operação do seu Espírito naqueles que pela fé recebem esses meios, os benefícios da redenção possam ser comunicados ao seu povo: razão pela qual é requerido de mim também que participe desses meios de graça com diligência, preparação e oração, para que por meio deles eu possa ser instruído e fortalecido na fé, e na santidade de vida e em amor; e que eu use meus melhores esforços para comunicar esse evangelho e transmitir esses meios de graça ao mundo todo.

13. Creio que como Jesus Cristo veio uma vez em graça, assim também ele virá uma segunda vez em glória, para julgar o mundo em justiça e designar a cada um sua recompensa eterna: e creio que se eu morro em Cristo, minha alma será na morte aperfeiçoada em santidade e voltará para o Senhor; e quando ele retornar em sua majestade, serei ressuscitado em glória e feito perfeitamente bendito no pleno gozo de Deus por toda a eternidade: encorajado por essa bendita esperança, requer-se de mim tomar alegremente minha parte no duro sofrimento aqui como soldado de Cristo Jesus, estando certo que se morro com ele também viverei com ele, se sofro, também reinarei com ele.


E a Ele, meu Redentor,
com o Pai,
e o Espírito Santo,
Três Pessoas, um Deus,
seja glória eternamente,
para todo o sempre,
Amém, e Amém.
Fonte: Selected Shorter Writings of Benjamin B. Warfield – Volume I, pp. 407-410. John E. Meeter, editor (Nutley, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1970); via Monergismo.com.

CONVITE AO LOUVOR

             
                                             
               
  Vinde, irmãos, louvar a Deus,
                Criador da terra e céus.
                               Exaltemos o Senhor!
                               Infinito é seu amor!
                Glória e honra ao grande Rei;
                Alta e santa é sua lei.
                Age com poder real,
                Com grandeza divinal.
                Dia e noite a sua mão
                Desenvolve o tenro grão.
                Com os dons do seu poder
                Nossas vidas faz crescer.
                               (S. P. Kalley)
                O Breve Catecismo, um dos mais importantes Símbolos de Fé da Teologia ancorada na Tradição Reformada, assevera-nos, logo em sua pergunta inaugural, que a finalidade precípua do homem é glorificar a Deus e desfrutá-lo para sempre. Nisso reside a sua bem-aventurança eterna, fonte suprema de alegria e plenitude existencial. De fato, Deus é digno de toda honra, glória, louvor e adoração, não apenas por causa dos seus e grandes e poderosos feitos na história, seu absoluto, providencial, santo e soberano controle sobre toda a história, mas, sobretudo, porque Ele é Deus, Ser sumamente amável e adornado com os mais sublimes e gloriosos atributos morais.
                Louvar a Deus, portanto, é tanto um dever quanto um privilégio do seu povo, que é convocado pelo próprio Deus para cultuá-lo em Espírito e em verdade: ouvindo a sua Palavra, a ela respondendo com fé, oração, obediência e amor, expressões indeléveis de corações que têm como anelo supremo viver de maneira inteiramente agradável ao Senhor. O hino em foco, uma verdadeira obra-prima do Novo Cântico Presbiteriano, admirável consórcio entre poema e sólida teologia, é um santo chamamento ao povo de Deus para louvar ao Senhor e exaltá-Lo, realçando alguns dos aspectos mais notáveis do seu grandioso Ser.
                O primeiro ponto que releva no texto é o que sinaliza para a dimensão comunitária de que se deve revestir a adoração pública que a igreja realiza em seus ajuntamentos solenes. Esse traço conceitual, doutrinariamente falando, é sobremaneira pedagógico, pois nos ensina que o cantar para Deus, na realidade concreta do culto, é uma atividade rigorosamente congregacional. Não há, no culto que prestamos ao Senhor, justificativa teológica para apresentações individuais que, por causa de nossa congênita pecaminosidade, facilmente descambam para o desfile exibicionista de vaidades tolas, apropriações indébitas de uma glória somente passível de ser tributada a Deus. Quem se julga imune a essas tentações é porque nutre uma imagem muito positiva de si mesmo e, na outra ponta, desconhece o quanto é “enganoso e desesperadamente corrupto o coração humano”. (Jeremias 17.9).
                Na congregacionalidade do culto público, acentua-se em nós uma forte relação de pertencimento ao corpo de Cristo, uma compreensão tanto intelectiva quanto experimental de que, verdadeiramente, Deus fez uma aliança conosco, exemplarmente manifestada na igreja, da qual Jesus Cristo é o Cabeça, e na qual o Espírito Santo habita, sempiternamente. Prossegue o hino, pondo em realce o poder de Deus revelado na criação de todas as coisas.
                O Credo Apostólico enfatiza, em sua proposição inicial, a onipotência criadora de Deus. O brilho aqui recai sobre o fato de Deus ter criado tudo do nada, valendo-se, unicamente, da proferição livre e soberana da sua Palavra. Desse poder magnífico dá-nos o Livro de Gênesis vislumbres impressionantes e belos. Ali, vemos Deus falando, e, imediatamente, o universo todo, em sua assombrosa diversidade, sendo formado; tal inspirado escrito foi, mais tarde, pelo mesmo Espírito Santo, esculpido nas páginas neotestamentárias, mais precisamente as que emergiram da pena do autor da Epístola aos Hebreus, que, ao tratar da matéria em foco, assim se pronunciou: “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem”. (Hebreus 11.3).
                Ao Deus Criador de todas as coisas, com especialidade do homem, feito à sua imagem e semelhança, “vinde, irmãos, louvar”. Continuando em sua argumentação, damo-nos conta de que o Deus Criador é, também, amor em sua essência; e que ama infinitamente a sua criação, tanto que, mesmo depois de caída e rebelada contra o seu senhorio, Ele ainda a sustenta, renova sobre ela as suas misericórdias, causa de não sermos consumidos por seu justo furor, conforme sinaliza o profeta Jeremias; e, em amor incomparável e sem fim, providenciou para o seu povo, urdida nos bastidores da eternidade e consumada no palco concreto da história e do tempo, uma grande, perfeita e eterna salvação. Salvação, assim adjetivada, não porque a sua eficácia radica no presumido e falacioso poder do supostamente livre arbítrio humano, mas sim na ação harmônica e soberana da misteriosa Trindade: do Pai, que elege; do Filho, que redime; e do Espírito Santo, que sela e torna-se o definitivo e irrasurável penhor dos eleitos de Deus. Ao Deus, que é puro amor, e que ama tão pura e infinitamente, “vinde, irmãos, louvar”.
                O Deus Criador e amoroso é, de igual modo, Rei supremo do universo. A figura de Deus como um rei perpassa as Escrituras Sagradas de uma a outra ponta, com ênfase no Antigo Testamento. Quando o povo de Israel, ávido por imitar o comportamento das nações circunvizinhas, pediu ao profeta Samuel que lhes concedesse um rei, tal anelo, mais do que ao servo de Deus, desagradou ao próprio Deus, que tinha a prerrogativa maior e indisputável de reinar sobre o seu povo.
                No Novo Testamento, a figura de Deus como rei avulta, e de modo emblemático, no modo como Jesus Cristo, que é Deus, é descrito na carta de Paulo aos irmãos da cidade de Filipos, mais precisamente no capítulo dois. Nele, depois de ser mostrado em seu estado de extrema humilhação, Jesus Cristo é glorificado e recebe do Pai um nome que está acima de todo nome, e diante de quem, na consumação da história, a gosto ou a contragosto, todo joelho se dobrará e toda língua entoará uma submissa e monofônica sinfonia: Jesus Cristo é o Senhor, o que promoverá a glória do Deus Pai.
                Vê-se aqui, claramente, o Filho de Deus entronizado como o Rei dos reis e o Senhor dos senhores. Sendo Jesus Cristo o nosso grande Rei, sejamos os seus súditos leais e prontos para fazer a sua boa, perfeita e agradável vontade. Ao nosso Deus, que é Rei absoluto do universo, “vinde, irmãos, louvar”. Criador, amoroso e Rei soberano, o nosso Deus, para cujo louvor todos somos convocados, é um Deus que se revelou para nós: na ordem natural da criação (Revelação Geral) e nas Escrituras Sagradas (Revelação Especial), , “sua alta e santa lei” por meio da qual conhecemos quem é Deus; tomamos ciência do seu caráter; discernimos os seus grandes e redentivos atos espalhados pela história; recebemos, enfim, informações suficientes, embora não exaustivas, sobre o Senhor, as quais nos habilitam a amá-Lo e servi-Lo corretamente.
                Não tivesse Deus se revelado a nós e, como cegos, viveríamos tateando na mais abismal escuridão, cultuando falsos deuses, dado que, como bem pontua João Calvino: “nosso coração é uma fábrica de ídolos”, em tudo carente da iluminação somente de Deus procedente; da sua suficiente Palavra, “Escola do Espírito”, ainda de acordo com o notável exegeta da Reforma Protestante. Ao Deus revelado nas Escrituras Sagradas, “vinde, irmãos, louvar”.
                O nosso Deus é, também, o Deus da soberana providência. Tomamos por empréstimo ao teólogo presbiteriano Heber Carlos de Campos o justo conceito de “providência divina como a atividade do Deus triúno por meio do qual ele (a) provê as necessidades de suas criaturas, (b) preserva todo o universo criado, (c) dirige todos os caminhos individualmente, (d) governa toda a obra de suas mãos, (e) retribui todas as obras más e (f) concorre em todos os atos de suas criaturas racionais, sejam atos bons ou maus, de modo que nada escapa ao seu controle”.
                Os três dísticos finais do hino em apreço sinalizam nessa direção. Deus é grande, poderoso, de tudo cuida com cirúrgica precisão. Do grão mais ínfimo que fecunda a terra, ao homem, coroa da sua criação, a muitos dos quais salva, a eles concedendo a profusão dos seus dons maravilhosos. Ao Deus da providência, “vinde, irmãos, louvar”. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.
                                                                                              JOSÉ MÁRIO DA SILVA

                                                                                              PRESBÍTERO

OS ATRIBUTOS COMUNICÁVEIS DE DEUS

                                 
         
                Semana retrasada dissertamos, nesta coluna dominical, sobre os atributos incomunicáveis de Deus, que são prerrogativas indisputáveis do Senhor, e não podem ser compartilhadas, em nenhuma hipótese, com os seres humanos. Como emblemáticos exemplos de atributos radicados no cerne essencial e intransferível da divindade, apontamos a onipotência, a onisciência e a onipresença. Deus tudo pode, tudo sabe e em todos os lugares manifesta a sua gloriosa presença.
                Já os atributos comunicáveis de Deus são aqueles que ele compartilha com as suas criaturas, conferindo a elas as possibilidades efetivas para encarná-las e manifestá-las em seu viver cotidiano. É claro que, na realidade concreta e experiencial dos homens, tais atributos comunicáveis nunca se operacionalizam de modo pleno e isento de imperfeição, dado que os homens se encontram, ontologicamente, contaminados pela corrupção do pecado. Em suma: os atributos comunicáveis de Deus incorporam-se à condição humana e materializam-se de forma limitada.
                No viver prático das pessoas regeneradas, renascidas pelo poder do Espírito Santo de Deus e do transformador evangelho da graça do Pai e do Filho, tais atributos comunicáveis de Deus devem ser reais, visíveis e progressivos, uma espécie de antecipação gloriosa daquilo que nós seremos e faremos quando, completamente glorificados e sem o mais leve vestígio do pecado, estivermos, definitivamente, na presença do Senhor, com corpos plenamente renovados e almas totalmente purificadas.
                A Escritura Sagrada diz-nos que Deus é amor. Essa é a imutável essência do seu ser. Amor que, antes mesmo de ser explicitado nos grandes atos da criação do mundo e do homem, e, depois, na redenção dos seus eleitos, já se constituía na natureza intrínseca do relacionamento que, na eternidade, Pai/Filho/Espírito Santo vivenciavam entre si. O Deus revelado nas Escrituras Sagradas é, sobretudo, um Deus relacional.
                Na belíssima Oração Sacerdotal que realizou, Jesus Cristo fala ao Pai acerca da glória que lhe foi conferida, porque me “amaste antes da fundação do mundo” (João 17.24). Pois é exatamente esse amor que norteia o maravilhoso relacionamento exponenciado pelas pessoas da Trindade que Deus, por meio da obra regeneradora do seu Santo Espírito, comunica ao seu povo para que ele o pratique de forma genuína, facilmente perceptível, de modo a fazer com que as pessoas com as quais nós convivemos percebam, claramente, que, em nós, o evangelho é uma verdade comprovada por nossos exemplos e gestos; e não um mero discurso, peça retórica bonita para ser ouvida, mas realidade feia demais para ser acatada, dado que, flagrantemente, negada pelas nossas atitudes.
                Num dos últimos sermões que pregou aos seus discípulos, Jesus Cristo, de modo luminosamente incontroverso sentenciou: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos ameis, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros”. (João 13.34,35).
                Ao criar o homem à sua imagem e semelhança, Deus o fez com propósitos distintos, mas rigorosamente complementares: que ele amasse a Deus com todas as dimensões do seu ser; o glorificasse em todos os seus atos; e, e igual modo, amasse o seu próximo, irreservada e altruisticamente, transformando o viver na terra numa experiência comunitária marcada pelos indeléveis signos da fraternidade, da solidariedade e do amor recíproco.
                O flagelo abominável do pecado, contudo, conforme conta-nos o santo livro, entrou na história humana, envenenou os corações e infeccionou as almas com o vírus do desamor, do ódio e da indiferença. No lugar da cooperação amistosa, instalou-se a competição predatória; no lugar do cuidado de uns para com os ostros, entronizou-se o egoísmo e a lógica perversa do cada um por si. Que o diga Caim, que, ao ser perguntado por Deus acerca do seu irmão Abel, insolentemente respondeu: “Não sei; acaso, sou o tutor de meu irmão?”. (Gênesis 4.9b).
                A Escritura Sagrada nos afirma que “o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado”. (Romanos 5.5b). Amar, portanto, irmãos queridos, não é uma opção a ser acolhida ou rejeitada por nós, de conformidade com a nossa vontade, mas sim um mandamento do Senhor, para cujo cumprimento recebemos de Deus a capacitação do seu Espírito Santo.
                Assim como o amor, a misericórdia também é um atributo que Deus nos comunica. Misericórdia é um atributo moral que faz com que Deus tenha uma disposição permanentemente benévola para colocar em seu coração um ser miserável, completamente despojado de qualquer merecimento. Por meio da misericórdia, Deus estende a sua mão bondosa a quem nada faz para desse ato gracioso tornar-se merecedor. Mesmo quando arrepende-se dos seus pecados e clama a Deus pela sua misericórdia, ainda assim, ele não se torna portador de mérito algum, dado que o arrependimento somente pode brotar no coração do pecador pela ação do Espírito Santo.
                Um dos exemplos mais impressionantes da misericórdia de Deus, nós encontramos na dramática história do rei Manassés. Depois de fazer da iniquidade o seu mais acalentado projeto de vida, Manassés tornou-se prisioneiro de um exército adversário de Israel; objeto do escárnio público e símbolo de um líder derrotado por sua própria maldade. Mas, arrependido, ele roga ao Senhor, que se apieda dele, concede-lhe perdão; enfim, é misericordioso para com ele.
                O crente em Jesus Cristo, alvo da misericórdia de Deus, deve também ser misericordioso com as pessoas que o cercam e com as quais convive, notadamente com as que mais sofrem, principalmente, o sofrimento maior, vivenciado pelos que se encontram longe de Deus e do evangelho da salvação, caminhando, céleres, para uma eternidade de eterno sofrimento. Um coração duro, frio e insensível à dor alheia, desprovido de misericórdia, não combina em nada com quem se diz renovado pelo poder do evangelho.
                Outro atributo comunicável de Deus é o que aponta para a sua gloriosa santidade. A Escritura Sagrada nos apresenta Deus como um ser santo, santo e santo; aliás, esse é o único atributo de Deus que aparece repetido três vezes. Alguns intérpretes sugerem que essa reiteração, para além da intensidade argumentativa de que se reveste, sinaliza para as três pessoas da Trindade. Seja como for, o ponto evidenciado radica na absoluta perfeição moral que envolve todo o ser de Deus.
                O Livro de Levítico, por exemplo, está, o tempo todo, lembrando ao povo de Israel, que Deus é santo; e que ninguém pode se aproximar dele desassistido do ministério de um mediador eficaz e suficiente chamado Jesus Cristo, tipologicamente, representado por todo o sistema sacrificial instituído pelo próprio Deus para assegurar ao seu povo livre acesso à sua presença.
                Deus é santo e, de igual modo, exige santidade dos que se dizem seus servos. Na Oração do Pai Nosso, Jesus nos ensina a santificar o nome do Senhor em nosso viver. O apóstolo Pedro, em sua primeira epístola, exorta-nos dizendo: “segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque escrito está: sede santos, porque eu sou santo” (1 Pedro 1.15b-16).
                Na vida prática de um cristão, a santidade, cultivada de modo progressivo é tão importante, que o autor da epístola aos Hebreus sentencia: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. (Hebreus 12.14). O apóstolo João, por sua vez, afirma que quem nutre, em seu coração, a esperança viva de um dia estar com o Senhor, em sua refulgente glória, “a si mesmo se purifica, assim como ele é puro” (I João 3.3b).
                Amor, misericórdia e santidade, eis, aqui, três atributos comunicáveis de Deus, que devem fazer parte da nossa vida aqui na terra, até o dia em que, no céu, se manifestarão de modo pleno e perene. Certamente, amados irmãos, dada a nossa inata pecaminosidade, nenhum de nós “é suficiente para essas coisas”, mas, pela mediação de Jesus Cristo e pelo munificente poder do Espírito Santo, “em todas essas coisas somos mais do que vencedores”. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.
                                                                                                              JOSÉ MÁRIO DA SILVA
                                                                                                              PRESBÍTERO

OS SUTIS SUBSTITUTOS DA PREGAÇÃO


Começo a meditação bíblica deste domingo conferindo o devido crédito à sua matriz inspiradora: um alentado estudo bíblico ministrado pelo presbítero-teólogo Solano Portela, uma das referências da Igreja Presbiteriana do Brasil na área do ensino bíblico, notadamente o que se direciona para o fascinante território da Educação Cristã em suas múltiplas modalidades manifestativas. “Os sutis substitutos da pregação” foi o sugestivo título do estudo bíblico empreendido pelo aludido presbítero, tendo como suporte escriturístico o inspirado texto escrito pelo apóstolo Paulo e, ato contínuo, endereçado ao seu companheiro de caminhada cristã, o jovem pastor-evangelista Timóteo.
                Estamos no âmbito da segunda epístola encaminhada pelo bravo timoneiro do cristianismo ao jovem pastor Timóteo, mais precisamente no conteúdo presente no capítulo quatro da aludida carta. O contexto no qual Timóteo estava inserido, e no qual tinha sido vocacionado por Deus para o exercício do seu ministério evangelístico, não era dos melhores.
                Ao contrário, a conjuntura dominante era bem adversa. Internamente, isto é, na esfera da igreja, parecia pairar sobre Timóteo certa suspeição quanto às suas reais possibilidades de levar a bom termo as suas responsabilidades ministeriais. O ponto principal de tal desconfiança residia na juventude de Timóteo, na sua pouca experiência para o enfrentamento dos graves desafios que o aguardavam pela frente. A esse respeito, na primeira epístola que enviou ao jovem pastor, assim se pronunciou o apóstolo Paulo: “Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza” (1 Timóteo 4.12).
                Externamente, a corrupção doutrinária já exibia a sua face perversa, por meio da instrumentalidade de falsos mestres que, despidos do mais leve vestígio de temor a Deus e apreço por sua Palavra, não hesitavam em fazer da disseminação do erro o seu paradigma comportamental predileto. Tais homens, no dizer apostólico, “são de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé” (2 Timóteo 3.8b). Numa quadra assim, hegemonizada pelo flagelo da mentira teológica e de toda espécie de adulteração da Revelação do Senhor, dois eram, dentre outros, os perigos que cercavam Timóteo. O primeiro seria, simplesmente, fugir do campo da batalha, desertar do imperioso e claro chamamento do Senhor para ser um proclamador incansável das transformadoras verdades do seu glorioso evangelho. Contra tal possibilidade, de modo firme sentencia Paulo: “Por esta razão, pois, te admoesto que reavives o dom de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos. Porque Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação” (2 Timóteo 1.6,7).
                O segundo perigo a rondar o ministério de Timóteo, tão ou mais nefasto ainda quanto o primeiro, era o que poderia ser traduzido pela tentação do jovem pastor em reagir à situação circundante utilizando-se daqueles expedientes a que Paulo, noutra porção escriturística, chamou de “armas carnais” (2 Coríntios 10.4a). No caso em foco, tais armas se corporificariam na adoção de um evangelho comprometido em sua inalterável essência, no núcleo duro do seu inamovível conteúdo bíblico-teológico. Um evangelho humanista, facilmente digerível por pecadores “mortos em seus delitos e pecados” (Efésios 2.1b). Um evangelho psicológico, terapêutico, massageador do ego e nada confrontador do pecado. Evangelho sem cruz, sem sangue, sem a glória de Deus, sem a majestade de Jesus Cristo, sem necessidade de arrependimento, sem novo nascimento, sem renovado compromisso com o crescimento em santidade. Enfim, um evangelho aprovado pelos homens e reprovado por Deus.
                Em nossos dias, não têm sido poucos os pastores que, enredados pela falácia de uma igreja mais relevante – como se a relevância da igreja não decorresse do simples fato de ela ser o corpo de Cristo, “coluna e baluarte da verdade” (2 Timóteo 3.16 b)- têm se afastado do padrão fixado pelas Escrituras Sagradas para o ser/fazer da igreja e, em direção diametralmente oposta, enveredado pela estranha senda da absorção de metodologias mercadológicas e empresariais, supondo ser a igreja uma mera organização humana, movida pelo braço e pela força dos homens. Por tal viés desviante, os resultados a serem obtidos pela igreja, em sua práxis evangelizadora cotidiana, são mais importantes do que a fidelidade à Palavra de Deus, numa demonstração evidente de capitulação ao império da filosofia pragmática, em cujo estuário o que vale não é o que é certo, porque Deus diz em sua Palavra que é certo, mas sim o que funciona e atrai, carnalmente, o maior número de pessoas.
                Timóteo corria, sim, o risco de adotar, em seu ministério, o que, com muita propriedade, Solano Portela classificou como “os sutis substitutos da pregação”, declinando do dever de “anunciar todo o conselho de Deus” (Atos 20.27b), preferindo, em seu lugar, a harmonia com a vontade pecaminosa dos que o ouviam. Contudo, a exortação apostólica para o caminho a ser seguido por Timóteo foi claríssima: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2 Timóteo 3.14,15). O ponto nodal, aqui exponenciado, é que, contra todos os modismos, invencionices e heresias, Timóteo deveria permanecer firme no sólido terreno das Escrituras Sagradas, nas quais ele encontrou a suficiente salvação somente propiciada pela pessoa e obra expiatória do Senhor Jesus Cristo.
                O apóstolo Paulo, em seguida, faz uma exortação solene a Timóteo, tomando como testemunhas Deus Pai e Deus Filho, tamanha era a seriedade de que se revestia o apelo direcionado a Timóteo: “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina” (2Timóteo 4.1). A ênfase aqui não é que Timóteo deveria ser agressivo e desrespeitoso para com as pessoas a quem destinaria a sua pregação, nem muito menos inconveniente e insuportavelmente chato. Nada disso. O ponto é que, quer em circunstâncias favoráveis, quer em ocasiões adversas, a Palavra de Deus tem de ser anunciada em sua integralidade, de forma longânima e doutrinária. O argumento seguinte apresentado pelo apóstolo é espantoso: “Haverá tempo em que os homens não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (2 Timóteo 4.3,4). Tendo para com a Palavra de Deus uma atitude tão resistente e desprezível, tais ouvintes, na busca frenética pelos “sutis substitutos da pregação”, valorizarão pregações alicerçadas na leviandade e na superficialidade de enfoques suaves, tingidas de altas doses de subjetivismo existencialista, com um mínimo de exposição bíblica séria; e um quase nada de confrontação com o pecado, exigência de arrependimento e fé em Jesus Cristo. Valorizarão a cultura hedonista do entretenimento, ancorada em cultos antropocêntricos, feitos para a satisfação dos frequentadores de igreja, aqui concebidos não como adoradores penitentes e prostrados diante da majestade do Pai, pela mediação do Filho, no poder do Espírito Santo, mas sim como consumidores exigentes, pródigos em atravessar a calçada e procurar outros arraiais ditos evangélicos, ao menor indício de contrariedade das suas intocáveis vontades. Valorizarão o ativismo emocional, o correr de um lado para o outro, intenso e irrefletido, produzido para apaziguar a consciência e dar uma enganosa sensação de bem-estar. Valorizarão a opulência de estruturas organizacionais eclesiásticas alheias às prescrições bíblicas, mas aplaudidas pelos homens como indesmentíveis signos de êxito e da suposta bênção de Deus, esquecidos de que Deus vela pelo cumprimento da sua Palavra, conforme Ele bem o disse ao profeta Jeremias e não pela satisfação de nossas caprichosas e rebeldes vontades. Que Deus preserve o nosso coração e nos impeça de anelarmos, um segundo que seja, por qualquer coisa que, pecaminosamente, intente substituir, ainda que sutilmente, os inexauríveis tesouros da sua suficiente Palavra. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.
                                                                                                              JOSÉ MÁRIO DA SILVA

                                                                                                              PRESBÍTERO

VIDA QUE NASCE DA MORTE



VIDA QUE NASCE DA MORTE
                Comecemos a nossa meditação  de hoje com um pressuposto: a Escritura Sagrada não exibe contradições, mas paradoxos. A distinção semântica entre uma realidade e outra é flagrantemente ostensiva. Numa contradição, em qualquer que seja o campo em que ela se manifesta, um elemento conceitual finda invalidando o outro, com o qual estabelece uma dada relação de sentido.
                A linguagem da contradição é muito referencializada, por exemplo, no território de um depoimento que se presta em juízo, diante de uma autoridade constituída. Quando o que se afirma num determinado momento conflita, abertamente, com o que se asseverou noutro, então o relato resulta carente de integridade, revelando-se, portanto, falso. O paradoxo, ao contrário, conquanto lide com realidades aparentemente antagônicas e de difícil harmonização por parte da finita e pecaminosa mente humana, põe, lado a lado, conceitos que são igualmente verdadeiros.
                Afirmamos que as Escrituras Sagradas estão impregnadas de paradoxos. E, de fato, elas estão. Dentre os muitos que enxameiam as inspiradas páginas do santo livro de Deus, invoquemos, à guisa de exemplificação, um que nos parece ser um dos mais impressionantes e eloquentes, exatamente, o que sinaliza para a soberania de Deus e suas indeslindáveis vinculações com a responsabilidade humana. A Palavra de Deus, de Gênesis a Apocalipse, ensina, sobrantemente, que Deus é soberano; é o controlador supremo de toda a história delineada no universo que ele mesmo criou para o seu louvor e glória; que tudo quanto acontece e haverá de acontecer não é fruto do acaso; antes, obedece a um plano que, santa e sabiamente, foi decretado pelo Senhor, nos invisíveis bastidores da eternidade.
                Esse é um lado da verdade, cristalino e irrefutável. De igual maneira, a Escritura Sagrada ensina que o homem é um ser responsável, não age como uma máquina programada mecanicamente; antes, é portador de inalienável moralidade. Como se harmonizam essas duas instâncias conceituais teológicas, é tarefa complexa e inalcançável para o ser humano, mas, perfeitamente, solucionada na mente infinita do Criador. Em toda a parte da Revelação, encontramos o Senhor, por meio dos seus porta-vozes, exortando os homens ao arrependimento e ao abandono dos pecados. Contudo, na Escritura Sagrada também aprendemos que é Deus, pela ação benévola do seu Santo Espírito, que concede ao homem a graça do arrependimento, dado que, “morto em delitos e pecados” (Efésios 2.1b), sem o monergístico agir divino, o homem jamais esboçará qualquer gesto de inclinação em direção a Deus.
                Dentre esse repertório de paradoxalidade de que se impregna o texto bíblico, deparamo-nos com o ponto de que o cristianismo, encarado em seu cerne doutrinário, é, ao mesmo tempo, vida e morte, dependendo do ângulo por meio do qual ele é encarado. Num sentido, digamos, positivo, o cristianismo é vida; vida plena; vida eterna; vida genuinamente feliz; pelo simples fato de ser enraizada naquele que, não somente possui a vida, mas é a própria vida.
                O evangelista João, na parte prolegumenar do seu livro, ao discorrer sobre Jesus Cristo, afirma, solenemente, que “a vida estava nele e a vida era a luz dos homens” (João 1.4). Noutra porção do seu inspirado relato, ouvimos dos lábios do Filho de Deus a confortadora assertiva: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância” (João 10.10). Todos nós estávamos mortos nos nossos delitos e pecados, conforme doutrina o apóstolo Paulo na epístola endereçada aos efésios. “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou” (Efésios 2.4), nos concedeu vida, ao aplicar em nossos corações, pela instrumentalidade da pregação do evangelho e do agir do Espírito Santo em nós, as virtudes gloriosas do sacrifício redentivo que Jesus Cristo realizou na cruz do calvário em nosso favor.
                Entretanto, numa acepção negativa, cristianismo também é morte, na medida em que, biblicamente falando, viver para Deus pressupõe, inevitavelmente, o morrer para nós mesmos, para o nosso congênito egoísmo e senso de independência de Deus, coração intocável do pecado, visto como uma condição e um estado do homem diante do Criador. Morrer para os velhos apetites da carne, que, mesmo crucificada com Cristo Jesus, ainda insiste em manifestar as suas indesejáveis obras. Morrer para um estilo de vida autocentrado e idolátrico, que, em vez de ter na justa promoção da glória de Deus o seu indesviável alvo, consagra-se à satisfação de um ego orgulhoso e amante de si mesmo.
                Na exuberante epístola que endereçou aos cristãos da cidade de Colossos, o apóstolo Paulo enfatiza que a união mística do crente com Jesus Cristo produz, naturalmente, morte para o pecado e vida para Deus. Por esse viés, a santificação, por meio da qual Deus nos salva e continua a nos salvar do poder escravizador do pecado residente em nós, numa dimensão bem prática, constitui-se num morrer diário para o pecado e num viver contínuo para Deus e para os santos valores do seu reino.
                Certa feita, numa atitude diametralmente oposta à que hegemoniza a filosofia pragmático-marqueteira do nosso tempo, sempre ávida por satisfazer, incondicionalmente, os desejos e caprichos de consumidores cada vez mais exigentes, principalmente os que abarrotam o inflacionado mercado religioso, Jesus Cristo “convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdê-lá-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-lá-á” (Marcos 8.34,35).
                Aqui está, ratificado nas palavras do Filho de Deus, um dos grandes paradoxos da fé cristã, alicerçado numa perda, que é ganho; e numa vida, que nasce da morte. A grande e simples questão que se impõe é a seguinte: o que o mundo julga ser um ganho, Deus afirma que é perda; e o que o mundo considera perda, Deus assegura que é um ganho eterno. Cristianismo é vida que nasce da morte. Eis, aqui, um paradoxo que pode fazer toda a diferença, não somente para o que aqui e o agora, mas para toda a eternidade. Morramos para nós mesmos e vivamos para Deus. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.
                                                                                              JOSÉ MÁRIO DA SILVA

                                                                                              PRESBÍTERO

A RESSURREIÇÃO DE JESUS CRISTO

A RESSURREIÇÃO DE JESUS CRISTO A doutrina da ressurreição física e histórica do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo constitui-se num dos pilares fundamentais do Cristianismo, não podendo, em hipótese alguma, ser removida, nem alterada, em sua essencialidade conceitual, sob pena de resultar inteiramente desfigurada a fé cristã. Ao longo da história, não poucas foram as vozes que se levantaram para questionar o fato concreto de ter o Filho de Deus, depois de ter passado três dias agasalhado no seio frio da terra, ressuscitado, corporalmente, e se apresentado, “com infalíveis provas”, aos seus discípulos, conforme o incontroverso testemunho das Escrituras Sagradas. Primeiro, de acordo com o relato dos evangelhos, houve uma fraudulenta tentativa de falseamento dos fatos. A estratégia mentirosa era se divulgar que os discípulos de Jesus Cristo haviam roubado o corpo de Jesus Cristo e, posteriormente, o ocultado e propagado a tese da sua ressurreição, contando, para o êxito do referido engodo, com a credulidade ingênua das massas ávidas por qualquer forma de expressão da esperança. Mais adiante, considerando que o Diabo nunca se cansa de atentar contra a verdade, dado que é o Pai da Mentira, os teólogos liberais encarregaram-se de produzir uma versão de cariz existencialista para a ressurreição de Jesus Cristo. Para esses apóstolos da incredulidade, Jesus Cristo não ressuscitou dos mortos literalmente, mas, sim, espiritualmente, no coração das pessoas que ouvem o seu evangelho; tomam conhecimento da sua mensagem; e, ato contínuo, acolhem-na; dão-lhe crédito e, assim, tornam melhor a si mesmas e o mundo no qual estão inseridas. Vê-se, aqui, claramente, que essa (des)crença radica em pressuposições puramente subjetivistas, carentes de qualquer dimensão de objetividade e historicidade. Para esses arautos consumados da incredulidade, que negam qualquer estatuto de sobrenaturalismo na Palavra de Deus, Jesus Cristo não morreu para salvar ninguém; antes, com a sua vida santa, amorosa, e morte solidária, deu-nos um grande exemplo, a fim de, inspirados nele, podermos nos aperfeiçoar moral e espiritualmente. Conquanto supostamente refinadas intelectualmente e matizadas por uma falsa piedade, inescondivelmente tingidas de exacerbado humanismo, tais pontos de vista são inspirados por aquele que, desde o princípio, tem-se oposto a Deus e à verdade da sua santa Palavra. Diferentemente dessas ideias contrárias à Palavra de Deus, aprendemos nas Escrituras Sagradas que a ressurreição de Jesus Cristo, operada pelo prodigioso e poder de Deus, foi corpórea, visível e histórica. Jesus Cristo, como ele mesmo afirmou e prometeu aos seus discípulos, ressurgiu dentre os mortos corporalmente, sendo visto e tocado por muitos no palco concreto da história. Examinada, à luz das Escrituras Sagradas, a ressurreição de Jesus Cristo sinaliza para uma série de verdades extremamente significativas para a vida do cristão. Em primeiro lugar, a ressurreição de Jesus Cristo ratifica a suficiência das Escrituras Sagradas, dado que, em várias passagens, ela é ensinada com inquestionável clareza. No Antigo Testamento, por exemplo, mais precisamente no poético Livro dos Salmos, aprendemos que Deus não permitiria jamais que o corpo do seu Filho amado experimentasse a corrupção inerente à morte física, numa indicação clara de que o foco, aqui, é o da ressurreição de Jesus Cristo. Em segundo lugar, a ressurreição de Jesus Cristo aponta para a sua completa vitória, na condição de verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, sobre a morte, o pecado e o Diabo. A morte de Jesus Cristo, na Bíblia Sagrada, não é encarada como um fatalismo histórico, contra o qual o Senhor Jesus Cristo nada pôde fazer, mas, sim, como uma entrega sacrificial voluntária, pois, como bem disse Jesus Cristo, ele recebeu do Pai um duplo mandamento: doar a sua vida em favor dos seus eleitos e, depois, reassumi-la na ressurreição. Em terceiro lugar, a ressurreição de Jesus Cristo é um indício claro de que a sua obra redentiva, em benefício do seu povo, foi plenamente aprovada pelo Pai, que o ressuscitou dentre os mortos, o glorificou e lhe conferiu um nome que está acima de todo nome; e diante de quem, na consumação de todas as coisas, todos os seres humanos haverão de se curvar e reconhecer o seu absoluto senhorio, conforme assevera o apóstolo Paulo em sua Epístola aos Filipenses. Em quarto lugar, a ressurreição de Jesus Cristo escancarou as portas do céu e propiciou a vinda, em plenitude, do Espírito Santo, para batizar a igreja, selá-la, fazer-se o penhor da sua herança eterna, e nela permanecer eternamente. Não que o Espírito Santo, no Antigo Testamente, fosse um ilustre desconhecido. Nada mais falso e desarmonizado com uma boa compreensão acerca da doutrina do Espírito Santo. O ponto, aqui, é a intrínseca relação que há entre a obra salvífica de Jesus Cristo e a descida do Espírito Santo. Em quinto lugar, a ressurreição de Jesus Cristo é o fundamento inabalável da nossa justificação, pois, de acordo com o inspirado escrito do apóstolo Paulo endereçado aos Romanos, Jesus Cristo “por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” (Romanos 4.25b). Por último, a ressurreição de Jesus Cristo é a antecipada garantia de que nós haveremos também de ressuscitar e receber das mãos do nosso Salvador bendito, conforme as promessas infalíveis da sua Palavra, um corpo glorioso, completamente renovado, não mais sujeito às contingências terrenas, às tentações que nos angustiam, ao pecado que nos envergonha, à dor que nos maltrata, ao sofrimento que nos aflige e, por fim, à morte. Assim, rendamos ao Senhor Jesus Cristo, que morreu, mas está vivo pelos séculos dos séculos, hoje e sempre, todo louvor, honra, glória e adoração. Vivamos para o seu completo agrado, servindo-o, amando-o e a ele obedecendo irreservadamente. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER. JOSÉ MÁRIO DA SILVA PRESBÍTERO