Crianças pequenas devem participar do culto?




por Randy Booth

Crianças pequenas devem participar do culto ao Senhor? Bem, em certo sentido a Bíblia diz que todos nós somos criancinhas, como Jesus indicou quando disse a seus discípulos: “Filhinhos, ainda um pouco estou convosco” (João 13:33). Portanto, em princípio, está claro que as crianças pequenas devem adorá-Lo. Mas há um outro sentido em que falamos “crianças pequenas”, e que, claro, se refere a bebês que ainda dão os primeiros passos. Que obrigação têm eles, se têm, no culto a Deus e, mais particularmente, que lugar eles têm, se têm, na reunião de culto a Deus?

Como povo de Deus, nós devemos nos regozijar ao ouvir barulho de crianças em nosso meio. Isso é uma indicação da bênção que elas têm na aliança e de seu dom da vida. Deus dessa forma aumenta nosso número e avança seu reino através das gerações. Mas isso significa que, sem exceção, as crianças devem sempre estar presentes com seus pais na congregação? Este artigo busca oferecer algumas diretrizes bíblicas tanto para pais de crianças pequenas como para a congregação ao se reunir para adoração.

A Menor das Crianças é Capaz de Aprender Grandes Coisas
Crianças pequenas são esponjas quando se trata de absorver nova informação. Em Lucas 1:44 a Bíblia registra esta assertiva de Isabel, a mãe de João Batista, quando ela ouviu Maria: “Pois, logo que me chegou aos ouvidos a voz da tua saudação, a criança estremeceu de alegria dentro em mim”. Mesmo quando eles parecem não estar prestando atenção, as crianças menores com freqüência nos surpreendem quando as ouvimos recitar exatamente o que nós pensávamos que eles tinham deixado passar (às vezes, para nosso deleite ou desgosto). A partir do momento em que uma criança nasce (ou talvez mesmo antes disso), os pais começam a ensinar seus filhos falando, cantando e praticando perante eles a vida cristã. O fato de elas não poderem articular ou imitar imediatamente tudo o que compartilhamos com elas não nos leva a parar de ensiná-las. Nós sabemos que logo elas vão pegar e imitar o que lhes foi ensinado. Mesmo que a criança não entenda tudo o que ela está fazendo, ela está aprendendo que essas são as coisas que o povo de Deus faz. No seu tempo ela entenderá por quê.

Não há nada mais importante para uma criança aprender do que o culto a Deus, privado e na congregação. Essa é uma das principais obrigações de todas as criaturas de Deus. Assim como ensinamos nossos filhos a andar e a falar, ao mesmo tempo nós deveríamos diligentemente ensiná-las as Escrituras e como elas devem adorar a Deus ao “sentarem em sua casa”, ao “andarem pelo caminho”, ao “deitar”, ao “levantar” (Dt 6:6-7). Nós temos um exemplo claro na Bíblia da importância desse treinamento desde cedo encontrado em 2 Timóteo 3:15, onde o apóstolo Paulo escreve a Timóteo, dizendo: “E que desde a infância sabes as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus.” A palavra grega para “infância” neste texto é a palavra usada para descrever um bebê de berço. Sem dúvida, o infante Timóteo ouviu a palavra de Deus da boca de sua mãe fiel Eunice e de sua avó Lóide desde que nasceu.

Ser adulto não é garantia de que se aprenderá ou compreenderá a verdade de Deus. Jesus é grato porque a verdade é revelada mesmo aos imaturos: “Naquela hora exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas cousas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado” (Lc 10:21). Enquanto possa ser um mistério para os adultos, contudo Deus é claramente capaz de se comunicar com e receber louvor até mesmo de bebês. De fato, nós lemos a profecia no Salmo 8:2 de que, na verdade, é assim que acontece; uma profecia que foi cumprida em Mateus 21:15-16: “Mas vendo os principais sacerdotes e os escribas as maravilhas que Jesus fazia, e os meninos clamando: Hosana ao Filho de Davi, indignaram-se, e perguntaram-lhe: Ouves o que estão dizendo? Respondeu-lhes Jesus: Sim; nunca lestes: Da boca de pequeninos e crianças de peito tiraste perfeito louvor?” Embora os cristãos não devam ser místicos, entretanto, também não devemos rejeitar o fato de que há mistérios nos caminhos de Deus, e que o Espírito, assim como o vento, “sopra onde quer” (Jo 3:8).

Crianças são Membros da Comunidade do Pacto
Nós precisamos entender de forma clara que todas as promessas de Deus com relação ao pacto pertencem a “ti e teus filhos”. Os filhos da aliança são membros da comunidade da aliança e tem direito a seus benefícios. Assim como a circuncisão era um benefício dos judeus [“Muita, sob todos os aspectos” (Rm3:2)], assim também, aqueles que receberam o sinal do pacto e selo do batismo têm todos os privilégios do pacto. Paulo especialmente aponta para o fato de que o principal privilégio deles é que a eles foram dados “os oráculos de Deus”. Em outras palavras, a Palavra de Deus é dada a todos os membros da comunidade do pacto, incluindo as crianças pequenas.

Quando Moisés reuniu a congregação do Senhor, pelo que Deus os estabeleceu como Seu povo da aliança, a congregação estava toda incluída: “Vós estais hoje todos perante o Senhor vosso Deus: os cabeças de vossas tribos, vossos anciãos e os vossos oficiais, todos os homens de Israel: os vossos meninos, as vossas mulheres, e o estrangeiro que está no meio do vosso arraial; desde o vosso rachador de lenha até ao vosso tirador de água; para que entres na aliança do Senhor teu Deus, e no seu juramento que hoje o Senhor teu Deus faz contigo; para que hoje te estabeleça por seu povo, e ele te seja por Deus, como te tem prometido, como jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó. Não é somente convosco que faço esta aliança, e este juramento, porém com aquele que hoje aqui está conosco perante o Senhor nosso Deus, e também com aquele que não está aqui hoje conosco” (Dt 29:10-15).

O pacto de Deus com seu povo obviamente inclui não apenas seus filhinhos, mas até mesmo aqueles ainda não são nascidos. Esse pacto continua na Nova Aliança, onde a promessa é ratificada no dia de Pentecoste: “Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos, e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor nosso Deus chamar” (At 2:39). As epístolas do Novo Testamento são com freqüência endereçadas aos membros constituintes da família da aliança, i.e., maridos, pais, mulheres, mães, filhos e servos (cf. Ef 5:6; Cl 3:18-25).

Os filhos eram centrais na obra da Antiga Aliança e, sendo que a Nova Aliança não é senão uma expansão da Antiga Aliança, eles continuam a ser centrais na obra redentora de Deus entre Seu povo. No coração da aliança de Deus com Abraão estava a condição que Deus estabeleceu a Abraão: “Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do Senhor, e pratiquem a justiça e o juízo; para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que tem falado a seu respeito” (Gn 18:19).

Crianças Pequenas Devem Ser Incluídas na Assembléia do Culto Público?
Esta é uma importante pergunta. Nós encontramos precedentes bíblicos tanto para resposta afirmativa como para negativa, ou talvez melhor dizendo: às vezes, sim; e às vezes, não. Com freqüência, quando a Bíblia se refere à assembléia do povo de Deus ou à congregação, as crianças menores estão incluídas. Por exemplo, em 2 Crônicas 20:13: “Todo o Judá estava em pé diante do Senhor, como também as suas crianças, as suas mulheres, e os seus filhos”; e em Josué 8:35: “Palavra nenhuma houve, de tudo o que Moisés ordenara, que Josué não lesse para toda a congregação de Israel, e para as mulheres, e os meninos, e os estrangeiros, que andavam no meio deles”. Da mesma forma, em Joel 2:15 nós lemos: “Tocai a trombeta em Sião, promulgai um santo jejum, proclamai uma assembléia solene. Congregai o povo, santificai a congregação, ajuntai os anciãos, reuni os filhinhos e os que mamam; saia o noivo de sua recâmara, e a noiva de seu aposento.” Logo após este chamado de trombeta nesta profecia (2:28-32), Pedro nos diz que Joel estava falando do derramamento do Espírito Santo no Dia de Pentecoste.

O próprio Jesus pensou que era apropriado que crianças fossem trazidas à sua presença: Marco 10:13-16: “Então lhe trouxeram algumas crianças para que as tocasse, mas os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, vendo isto, indignou-se e disse-lhes: Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma criança, de maneira nenhuma entrará nele. Então, tomando-as nos braços e impondo-lhes as mãos, as abençoava.” Novamente, a palavra grega usada aqui é “bebês”. Parece ser um erro proibir mesmo as crianças mais pequenas de participar do culto a Cristo.

Como regra, os filhos da aliança devem estar presentes com a congregação no culto. Eles fazem parte do corpo unido e por isso devem fazer parte do culto unido. Isso faz parte da essência de quem eles são como filhos do pacto, contudo, isso não é o mesmo que dizer que seja sempre necessário que esses pequeninos estejam presentes em todo tipo de reunião congregacional. Algumas reuniões podem não ser apropriadas para crianças muito pequenas. No Velho Testamento nós vemos que três vezes ao ano apenas os homens apareciam perante o Senhor, e em Neemias 8:2 nós lemos: “Esdras, o sacerdote, trouxe a lei perante a congregação, assim de homens como de mulheres, e de todos os que eram capazes de entender o que ouviam. Era o primeiro dia do sétimo mês.” Algumas reuniões podem ser especialmente engendradas para homens, ou pastores, ou alguma outra ocasião especial. Elas podem ser muito longas para crianças pequenas, como no caso de conferências com múltiplas sessões, ou (como no caso citado acima) o assunto simplesmente esteja além de sua compreensão. Contudo, essas reuniões são primariamente mais para instrução do que para culto.

Quando crianças são trazidas ao culto é essencial que os pais estejam conscientes do fato de que não basta que simplesmente elas estejam presente, mas também que elas devem ser treinadas no modo apropriado de cultuar. As crianças devem ser ensinadas a sentar e permanecer quietas em respeito a seus pais e aos outros, e elas devem também aprender que a razão disso é a honra e a adoração a Deus. Os pais, da mesma forma, têm uma obrigação para com os outros adoradores e para com o próprio Deus em não permitir que seus filhos se distraiam no culto. É responsabilidade dos pais ensinar, disciplinar e manter controle de seus filhos no culto. O objetivo é treinar as crianças a exercer autocontrole e aprender como adorar.

Os pais devem estabelecer de forma clara as regras de comportamento para suas crianças, assim como ajudá-las a entender a razão por que elas estão no culto. Durante o processo deste treino as crianças inevitavelmente cruzarão linhas e precisarão de mais ensino, reprovação, correção e instrução na justiça (2 Tm 3:16). Eu mencionei na introdução que as congregações “deveriam se regozijar ao ouvir o barulho de infantes em seu meio”. Um dos sons sobre o que elas deveriam se regozijar são os sons da disciplina: uma criança senso discretamente corrigida por seu pai ou mãe, ou até o som ocasional de choro ao serem elas levadas do santuário para uma forma mais intensa de repreensão.

Pais com crianças muito pequenas, ou aqueles com filhos no processo de serem treinadas, deveriam sentar próximo à porta e estar preparadas para discretamente sair do santuário, se seus filhos começarem a chorar, ou, do contrário, distrairão os outros. Um choramingo ou acalento ocasional é normal e geralmente não requer muito mais que pegar a criança e embalá-la ou dar-lhe palmadinhas nas costas. Contudo, se isso não for o suficiente para sossegar a criança, os pais devem, por cortesia e respeito pelos outros e pelo culto, retirar seu filho da assembléia até que ele tenha sido acalmado.

Crianças que estão começando a andar são um desafio diferente para os pais. A esta altura elas deveriam estar treinadas a entender o que a palavra “não” significa e deve-se esperar que permaneçam sentadas durante o culto tranqüilamente. Se fracassarem em fazer assim, então elas devem ser tratadas como em qualquer outra desobediência obstinada (i.e., pecado) e a disciplina apropriada deve ser aplicada. Todos nós entendemos que elas são “crianças pequenas”, mas lembre-se, nossa responsabilidade como pais é trazê-las à maturidade ensinando-as o que devemos e insistindo que elas obedeçam. Se uma criança está geniosa porque esteve doente, ou está nascendo dente, ou tem alguma outra razão legítima para não se sentir bem, então, talvez, não seja adequado que ela esteja presente com a congregação nesse dia. Entretanto, mesmo cansada ou doente as crianças não devem ser permitidas que pequem. Algumas sugestões práticas para pais de crianças que estão começando a andar são:

    Fique certo de que você deixou claro quais são as regras de comportamento com relação ao que você espera de seu filho durante o culto (ex: não falar, não fazer outros barulhos, mexendo-se, rasgando papel, dando voltas ao redor do assento, etc.).Ensine-o para o que é o culto, usando termos apropriados para a sua idade. Pratique durante o culto doméstico como eles devem se comportar no culto público: ensine-os a ficar quietos quando a Bíblia é lida, a ouvir o pregador, e a cantar salmos e hinos. Se você faz culto regularmente e com ordem em casa, você não deverá ter problema no culto público no Dia do Senhor.
    Pais sabem quais são as necessidades de seus filhos. Algumas crianças precisam queimar um pouco de energia (ex: correndo e brincando), enquanto outras é melhor que não se firam antes ou entre os cultos. Em ambas, os pais são responsáveis por ajudá-las a estarem preparadas para o culto e as crianças têm o dever de obedecer aos seus pais e a se conduzirem de maneira respeitosa.
    Leve-os à sala de descanso e para tomar água antes ou entre os cultos.
    Se seu filho quebrar as regras durante o culto, e uma correção menor não o fizer se conformar, então os pais deverão retirar-se com a criança, discipliná-la e trazê-la de volta. Levá-la simplesmente para fora do culto ou levá-la à sala de berço sem disciplina não funcionará. Eles simplesmente aprenderão que seu mau comportamento os habilita a manipular seus pais.
    Quando os pais ensinam a seus filhos de forma consistente que o que eles dizem é sério e os punirão de forma consistente se eles não obedecerem, suas crianças estarão mais inclinadas a atender à correção sussurrada durante o culto.
    Os pais devem ter em mente que o “culto de uma criança que está aprendendo a andar” vai parecer diferente do culto adulto. Elas podem segurar o hinário de cabeça para baixo, ou dizer amém na hora errada. Além do mais, isso variará de criança para criança e elas não aprenderão todas do mesmo jeito ou ao mesmo passo. O importante é que elas estão aprendendo como adorar.

E Sobre Berçários?
É óbvio que nas Escrituras há um silêncio sobre aquilo que passamos a chamar de berçário. O princípio bíblico que governa esta questão é o fato de que os pais são responsáveis por seus filhos. A igreja não tem nenhuma obrigação específica de providenciar serviços com crianças, embora certamente obras de misericórdia possam conclamar por ajuda voluntária em circunstâncias especiais. Todos vimos com simpatia os fardos de uma mãe de primeira-viagem ou uma mãe com muitos filhos. Às vezes, ela se sente sobrecarregada com suas responsabilidades e pode pensar: “Não vale a pena ir à igreja, se tenho que lidar com todas essas crianças.” Talvez as sugestões seguintes possam ser de alguma ajuda:

    Os pais deveriam providenciar algum tempo livre para as mães durante a semana, cuidando das crianças eles mesmos ou pelo menos assegurando que sua esposa tenha outra forma de assistência de seus constantes labores. Isto evitará que o domingo pareça ser o único tempo que ela tenha uma folga.
    Membros regulares da igreja devem trazer seus filhos ao culto imediatamente, a fim de começar a treiná-los em uma das coisas mais importantes que Deus nos chama a fazer: adorar.
    Membros amigos na igreja ou parentes podem ser chamados para auxiliar nessa tarefa de ajudar com as crianças durante o culto, especialmente quando há muitas crianças para cuidar.
    Os diáconos devem assegurar que os assentos próximos à porta do santuário permaneçam disponíveis para pais com crianças pequenas a fim de facilitar melhor uma saída necessária.
    Os diáconos, onde for possível, poderiam providenciar uma “sala do choro” para mães e seus filhos. Essa sala poderia ser equipada com som, vídeo ou um vidro com película espelhada de modo que as mães possam ainda receber alguma porção do culto, se elas precisarem estar ausentes temporariamente.
    Uma lista de voluntários para trabalhar no berçário deveria ser mantida em caso de necessidades especiais, especialmente para visitantes cujas crianças possam não ficar sob controle ou não estar preparadas para permanecer sentadas durante o culto.

Conclusão
Obviamente, crianças pequenas devem fazer parte do culto. Elas estão prontas para participar junto com a congregação tão logo os pais assumam a responsabilidade de ensinar, treinar e disciplinar seus filhos para o culto. Certamente, há exceções em que não será sábio ou apropriado que crianças pequenas estejam presentes numa reunião congregacional. Nesses casos, embora os pais continuem responsáveis pelo cuidado de seus filhos, um berçário voluntário poderá se provar um genuíno serviço cristão para se lidar com essas necessidades temporárias. Quando os pais levam a sério sua responsabilidade em treinar seus filhos para participar do culto do Senhor (respeitando as necessidades dos outros presentes), então seus pequeninos serão um deleite para todos: especialmente para o Senhor. Da mesma forma, a paciência, orações e auxílio dados a esses pais e crianças pelo resto da congregação facilitará a preparação dos filhos da aliança para o culto. Esse labor será muito válido quando outra geração de crianças for habilitada para servir e adorar fielmente ao nosso glorioso Deus.

Robert [Randy] Booth tem sido pastor da Igreja Presbiteriana do Pacto da Graça (PCA) em Texarkana, Arkansas, nos últimos 16 anos. Ele também serve como diretor da Covenant Media Foundation e é um membro do corpo docente da Veritas Classical Christian School, e é o autor do livro Filhos da Promessa.

Extraído do Ordained Servant vol. 8, nº 4 (Outubro 1999)

Catecismo Menor Martinho Lutero





Catecismo Menor de Martinho Lutero
por
Martinho Lutero
Este é um pequeno catecismo escrito por Martinho Lutero em 1529. A intenção de Lutero através deste catecismo era dar uma introdução às crenças cristãs. Lutero o escreveu logo no início da Reforma em resposta à ignorância que ele observou no povo alemão. Ele é apresentado numa forma de perguntas e respostas. As respostas são curtas e diretas.

Primeira Parte: Os Dez Mandamentos
Primeiro Mandamento: 

Eu sou o Senhor, seu Deus. Você não deve ter outros deuses além de mim.
Que significa isto?
Devemos temer e amar a Deus e confiar nele acima de tudo.

Segundo Mandamento:
Não abuse do nome do Senhor, seu Deus, porque o Senhor não considerará inocente quem abusar do seu nome.
Que significa isto?
Devemos temer e amar a Deus e, por isso, em seu nome não amaldiçoar, jurar, praticar a magia, mentir ou enganar; mas devemos pedir a sua ajuda em todas as necessidades, orar, louvar e agradecer.

Terceiro Mandamento:
Santifique o dia de descanso.
Que significa isto?
Devemos temer e amar a Deus e, por isso, não desprezar a pregação e a sua palavra; mas devemos ter respeito por ela, ouvi-la e estudá-la com gosto.
Quarto Mandamento:
Honre o seu pai e a sua mãe.
Que significa isto?
Devemos temer e amar a Deus e, por isso, não desprezar nem irritar nossos pais e as pessoas que têm autoridade sobre nós; mas devemos honrá-los, servir e obedecer-lhes, amar e querê-los bem.
Quinto Mandamento:
Não mate.
Que significa isto?
Devemos temer e amar a Deus e, por isso, não agredir nem ferir o nosso próximo; mas devemos ajudá-lo para que tenha tudo de que precisa para viver.
Sexto Mandamento:
Não cometa adultério.
Que significa isto?
Devemos temer e amar a Deus e, por isso, levar uma vida sexual responsável e disciplinada, amar e respeitar a esposa ou o marido.

Sétimo Mandamento:
Não roube.
Que significa isto?
Devemos temer e amar a Deus e, por isso, não tirar o dinheiro ou os bens do próximo nem nos apoderar deles por meio de mercadorias falsificadas ou negócios desonestos; mas devemos ajudá-lo a conservar e melhorar seu meio de vida.
Oitavo Mandamento: 

Não fale mentiras a respeito do próximo.
Que significa isto?
Devemos temer e amar a Deus e, por isso, não enganar o nosso próximo com falsidade, traí-lo, caluniá-lo ou fazer acusação falsa contra ele; mas devemos desculpá-lo, falar bem dele e interpretar tudo da melhor maneira.
Nono Mandamento:
Não deseje possuir a casa do seu próximo.
Que significa isto?
Devemos temer e amar a Deus e, por isso, não tentar conseguir com esperteza a herança ou a casa do nosso próximo nem nos apoderar delas como se tivéssemos direito a isso; mas devemos ajudar e cooperar para que possa conservá-las.

Décimo Mandamento:

Não cobice a esposa ou o marido do seu próximo, nem as pessoas que trabalham com eles nem coisa alguma que lhes pertença.
Que significa isto?
Devemos temer e amar a Deus e, por isso, não seduzir, desviar ou afastar a esposa ou o marido do próximo, nem as pessoas que trabalham com eles; mas devemos aconselhá-los para que fiquem e cumpram o seu dever.
Que diz Deus de todos estes mandamentos?
Ele diz: "Eu, o Eterno, sou o seu Deus e não tolero outros deuses. Eu castigo aqueles que me odeiam, até os netos e bisnetos. Porém, sou bondoso com aqueles que me amam e obedecem aos meus mandamentos e abençôo os seus descendentes por milhares de gerações."
Deus ameaça castigar todas as pessoas que não cumprem estes mandamentos; por isso, devemos temer a sua ira e não deixar de cumpri-los; mas ele promete graça e todo o bem às pessoas que os praticam. Por isso, devemos amá-lo, confiar nele e guardar os seus mandamentos de boa vontade.

Segunda Parte: O Credo Apostólico

Primeiro Artigo: da criação - Creio em Deus Pai, todo-poderoso, Criador do céu e da terra.
Que significa isto?
Creio que Deus me criou junto com todas as criaturas, e me deu corpo e alma, olhos, ouvidos e todos os membros, inteligência e todos os sentidos, e ainda os conserva; além disto, me dá roupa, calçado, comida e bebida, casa e lar, família, terra, trabalho e todos os bens. Concede cada dia tudo de que preciso para o corpo e a vida; protege-me de todos os perigos e guarda-me de todo o mal. E faz tudo isso unicamente por ser meu Deus e Pai bondoso e misericordioso, sem que eu mereça ou seja digno. Por tudo isso devo dar-lhe graças e louvor, servi-lo e obedecer-lhe. Isto é certamente verdade.

Segundo Artigo: da salvação - E em Jesus Cristo, seu Filho unigênito, nosso Senhor, o qual foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob o poder do Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu ao inferno, no terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu ao céu, e está sentado à direita de Deus Pai, todo-poderoso, de o­nde virá para julgar os vivos e os mortos.
Que significa isto? 
Creio que Jesus Cristo, verdadeiro Deus, gerado do Pai desde a eternidade, e também verdadeiro ser humano, nascido da virgem Maria, é meu Senhor. Ele perdoou a mim, pessoa perdida e condenada, e me libertou de todos os pecados, da morte e do poder do diabo. Fez isto não com dinheiro, mas com seu santo e precioso sangue e sua inocente paixão e morte. Fez isto para que eu lhe pertença, seja obediente a ele em seu reino e lhe sirva em eterna justiça, inocência e felicidade, assim como ele ressuscitou da morte, vive e governa eternamente. Isto é certamente verdade.

Terceiro Artigo: da Santificação - Creio no Espírito Santo, na santa Igreja cristã, a comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição do corpo e na vida eterna. Amém.
Que significa isto? 
Creio que, por minha própria inteligência ou capacidade, não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem chegar a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo Evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim também chama, reúne, ilumina e santifica toda a Igreja na terra, e em Jesus Cristo a conserva na verdadeira e única fé. Nesta Igreja ele perdoa, cada dia e plenamente, todos os pecados a mim e a todas as pessoas que crêem. E, no último dia, ressuscitará a mim e a todos os mortos e dará a vida eterna a mim e a todas as pessoas que crêem em Cristo. Isto é certamente verdade.



Terceira Parte: O Pai Nosso

Introdução - Pai nosso que estás nos céus.

Que significa isto? 
Deus quer atrair-nos com estas palavras para crermos que ele é nosso Pai de verdade e nós somos seus filhos e filhas de verdade. Portanto, podemos pedir a ele sem medo e com toda a confiança, como filhos queridos ao seu querido pai.

Primeiro Pedido - Santificado seja o teu nome.
Que significa isto? 
O nome de Deus é santo por si mesmo. Mas pedimos nesta oração que ele seja santificado também entre nós.

Como acontece isto? 
Quando a palavra de Deus é ensinada de forma clara e pura, e nós, como filhos e filhas de Deus, também vivemos uma vida santa de acordo com ela. Ajuda-nos para que isto aconteça, querido Pai no céu. A pessoa, porém, que ensina e vive de modo diferente do que ensina a palavra de Deus, desonra o nome de Deus entre nós. Guarda-nos disso, Pai celeste.

Segundo Pedido - Venha o teu reino.
Que significa isto? 
O reino de Deus vem por si mesmo, sem a nossa oração. Mas pedimos nesta oração que ele venha também a nós.

Como acontece isto? 
Quando o Pai celeste nos dá o seu Espírito Santo para crermos, por sua graça, em sua santa palavra e vivermos em comunhão com Deus neste mundo e na eternidade.

Terceiro Pedido - Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.
Que significa isto? 
A boa e misericordiosa vontade de Deus é feita sem a nossa oração. Mas pedimos nesta oração que ela seja feita também entre nós.

Como acontece isto? 
Quando Deus desfaz e impede todo mau plano e vontade que não querem nos deixar santificar o nome de Deus e não querem que seu reino venha. Vontades assim são a do diabo, do mundo e de nós mesmos. E, por outro lado, isto acontece quando Deus nos fortalece e mantém firmemente na sua palavra e na fé, até o fim. Esta é a sua vontade boa e misericordiosa.

Quarto Pedido - O pão nosso de cada dia nos dá hoje.
Que significa isto? 
Deus dá o pão de cada dia, também sem o nosso pedido, a todas as pessoas, inclusive às pessoas más. Mas pedimos nesta oração que ele nos faça reconhecer isso e receber com gratidão o pão nosso de cada dia.

O que significa pão de cada dia? 
Tudo que se refere ao sustento e às necessidades da vida, como por exemplo: comida, bebida, roupa, calçado, casa, lar, meio de vida, dinheiro e bens, marido e esposa íntegros, filhos íntegros, empregados íntegros, patrões íntegros e fiéis, bom governo, bom tempo, paz, saúde, disciplina, honra, amigos leais, bons vizinhos e coisas semelhantes.

Quinto Pedido - E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores.
Que significa isto? 
Pedimos nesta oração que o Pai no céu não leve em conta os nossos pecados nem por causa deles recuse os nossos pedidos. Pois não somos dignos das coisas que pedimos nem as merecemos. Pedimos que Deus nos conceda tudo por graça, já que diariamente pecamos muito e nada merecemos a não ser castigo. Da mesma forma queremos nós perdoar de coração e de boa vontade e fazer o bem aos que pecam contra nós.

Sexto Pedido - E não nos deixes cair em tentação.
Que significa isto? 
Deus não tenta ninguém. Mas pedimos nesta oração que ele nos proteja e guarde, para que não sejamos enganados pelo diabo, pelo mundo e por nós mesmos nem sejamos levados a crenças falsas, desespero e outra grande vergonha ou vício. E pedimos que, mesmo sendo tentados, vençamos no final e mantenhamos a vitória.

Sétimo Pedido - Mas livra-nos do mal.
Que significa isto? 
Pedimos nesta oração, em resumo, que o Pai no céu nos livre de todos os males que afetam o corpo e a alma, os bens e a honra. E pedimos que, na hora de nossa morte, ele nos dê um fim bem-aventurado e nos leve por graça deste mundo para junto de si no céu.

Conclusão - Pois, teu é o reino, o poder e a glória, para sempre. Amém.
Que significa amém? 
Devemos ter certeza de que estes pedidos agradam ao Pai no céu e de que ele os atende. Pois ele mesmo nos mandou orar assim e prometeu atender-nos. Amém, amém, isto significa: sim, assim seja!



Quarta Parte: O Sacramento do Santo Batismo

Primeiro
a) O que é o batismo? 

O batismo não é só água, mas é a água contida no mandamento de Deus e ligada à palavra de Deus.

b) Qual é esta palavra de Deus? 

É a que nosso Senhor Jesus Cristo diz no último capítulo de Mateus: "Portanto, vão a todos os povos do mundo e façam que sejam meus seguidores, batizando esses seguidores em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo."

Segundo
a) Que dá ou para que serve o batismo?

Realiza o perdão dos pecados, livra da morte e do diabo, e dá a salvação eterna a todas as pessoas que crêem no que dizem as palavras e promessas de Deus.

b) Quais são estas palavras e promessas de Deus?

São as palavras que nosso Senhor Jesus Cristo diz no último capítulo de Marcos: "Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado."

Terceiro
a) Como pode a água fazer coisas tão grandes? 

Não é a água que faz isso, mas é a palavra de Deus unida à água e a fé que confia nesta palavra. Pois sem a palavra de Deus a água é só água e não é batismo. Mas unida à palavra de Deus ela é batismo, isto é, água de vida, cheia de graça, um banho de novo nascimento no Espírito Santo, como diz Paulo na Carta a Tito, no terceiro capítulo: "Ele nos salvou não porque fizemos alguma coisa boa, mas por causa da sua própria misericórdia. E, por meio do Espírito Santo, ele nos purificou e nos fez nascer de novo e nos deu uma nova vida. Deus foi generoso e derramou o seu Espírito Santo sobre nós, por meio de Jesus Cristo, o nosso Salvador. E fez isso para que, pela sua graça, fiquemos livres de qualquer culpa e recebamos a vida eterna que esperamos. Esse ensino é certo."

Quarto
a) Que significa este batizar com água?

Significa que, por arrependimento diário, a velha pessoa em nós deve ser afogada e morrer com todos os pecados e maus desejos. E, por sua vez, deve sair e ressurgir nova pessoa, que viva em justiça e pureza diante de Deus para sempre.

b) Onde está escrito isto?

Paulo diz na Carta aos Romanos, no sexto capítulo: "Assim, quando fomos batizados, fomos enterrados com ele por termos morrido junto com ele. E isso para que, como Cristo foi ressuscitado pelo poder glorioso do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova."


Quinta Parte: O Ministério da Absolvição e a Confissão

1) O que é o ministério da absolvição dos pecados? 

É o poder especial que Cristo deu à sua Igreja na terra, para perdoar os pecados às pessoas que se arrependem e não os perdoar a quem não se arrepende.

2) Onde está escrito isto?

Nosso Senhor Jesus Cristo diz a Pedro, no Evangelho de Mateus, capítulo dezesseis: "Eu lhe darei as chaves do Reino do céu; o que você proibir na terra será proibido no céu, e o que permitir na terra será permitido no céu." Do mesmo modo diz o Senhor aos discípulos, no Evangelho de João, capítulo vinte: "Recebam o Espírito Santo. Se vocês perdoarem os pecados de alguém, esses pecados são perdoados; mas, se não perdoarem, eles não serão perdoados."

3) Que é a confissão?
A confissão tem duas partes: Primeiro, confessamos os nossos pecados; segundo, aceitamos a absolvição que a pessoa que ouve a nossa confissão nos anuncia. Podemos aceitá-la como vinda de Deus mesmo, não duvidando de modo algum, mas crendo firmemente que por ela os pecados estão perdoados perante Deus no céu.
4) Que pecados devemos confessar?
Diante de Deus devemos confessar que somos culpados de todos os pecados, também dos pecados dos quais não nos damos conta, como fazemos no Pai-Nosso. Mas, diante da pessoa que ouve a nossa confissão, devemos somente confessar os pecados dos quais nos damos conta e que pesam na consciência.
5) Que pecados são estes?
Examine a sua vida à luz dos dez mandamentos: se você é pai, mãe, filho, filha, patrão, patroa, empregado, empregada, se você foi desobediente, infiel, negligente, raivoso, desrespeitoso, briguento, mentiroso, se você fez mal a alguém com palavras ou ações, se roubou, descuidou ou deixou de fazer o que devia.
6) Como confessamos os nossos pecados à pessoa que ouve a nossa confissão?
Podemos fazê-lo dizendo: "Peço que ouça a minha confissão e me anuncie o perdão em nome de Deus." Depois confessamos que somos culpados de todos os pecados diante de Deus. À pessoa que ouve a nossa confissão dizemos o pecado que mais nos pesa na consciência. Podemos concluir dizendo: "Arrependo-me de tudo isto. Peço misericórdia. Quero mudar de vida."
7) Como se dá a absolvição?
A pessoa que ouve a confissão diz: "Deus tenha misericórdia de você e fortaleça a sua fé! Amém. Você crê que a minha absolvição é a absolvição de Deus?"

Respondemos: "Sim, eu creio."

A pessoa que ouve a confissão fala: "Como você crê, assim será. Por ordem de nosso Senhor Jesus Cristo lhe perdôo os seus pecados, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém. Vá em paz!"

8) Breve forma de confessar os pecados:
Deus todo-poderoso, Pai misericordioso. Eu, pessoa pobre, miserável e pecadora, confesso-te todos os meus pecados e injustiças que cometi em pensamentos, palavras e ações. Com eles, em algum momento, causei a tua ira, merecendo o teu castigo nesta vida e na eternidade. Todos estes pecados pesam na minha consciência e me arrependo deles profundamente. Peço-te, por causa da tua misericórdia infinita e da inocente e amarga paixão e morte de teu Filho Jesus Cristo: tem misericórdia de mim, pobre pessoa pecadora. Perdoa-me todos os meus pecados. Concede-me a força do teu Espírito Santo para melhorar a minha vida. Amém!


Sexta Parte: O Sacramento do Altar ou Ceia do Senhor

Primeiro
a) Que é a ceia do Senhor? 

É o verdadeiro corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo para ser comido e bebido por nós, cristãos, sob o pão e o vinho. Este sacramento foi instituído pelo próprio Cristo.

b) Onde está escrito isto? 

Assim escrevem os santos evangelistas Mateus e Lucas, e o apóstolo Paulo: "Nosso Senhor Jesus Cristo, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e o deu aos seus discípulos, dizendo: Tomem, comam; isto é o meu corpo que é dado por vocês; façam isto em memória de mim. A seguir, depois de cear, tomou também o cálice e, tendo dado graças, o deu aos seus discípulos dizendo: Bebam dele todos; porque este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vocês para remissão dos pecados; façam isto, todas as vezes que o beberem, em memória de mim."

Segundo
a) Para que serve este comer e beber? 

Isto nos mostram as palavras: "Dado e derramado em favor de vocês, para remissão dos pecados." Por estas palavras nos são dados, no sacramento, perdão dos pecados, vida e salvação. Pois o­nde há perdão dos pecados, também há vida e salvação.

Terceiro
a) Como pode o simples comer e beber fazer coisas tão grandes?

Não é o comer e o beber que fazem tudo isto, mas sim as palavras: "Dado e derramado em favor de vocês para remissão dos pecados." Estas palavras são, junto com o comer e o beber, o mais importante na ceia do Senhor. E quem crê nestas palavras tem o que elas dizem: perdão dos pecados.

Quarto
a) Quem recebe dignamente este sacramento? 

Jejuar e preparar-se exteriormente é, sem dúvida, uma boa disciplina. Mas verdadeiramente digna e bem preparada é a pessoa que crê nestas palavras: "Dado e derramado em favor de vocês para remissão dos pecados." A pessoa, porém, que não crê nestas palavras ou delas duvida é indigna e não está preparada. Pois as palavras "em favor de vocês" exigem que a pessoa creia de fato. 


Fonte: Textosdareforma.net



Usos e costumes Parte II





Por Joelson Gomes

IV- E AQUELE TEXTO?
Existem alguns textos que são muito usados por algumas pessoas para condenar o uso de jóias pelos cristãos, a pergunta é: o que estes textos querem dizer? Vamos analisá-los.
4.a- Is. 3: 16-26- As vezes alguns mais desavisados também usam estes versículos para manter suas proibições. É um uso mal feito, pois aqui se estivesse proibindo as jóias para as mulheres, estaria proibindo também:
· Véus (19);
· Cintos (20);
· Anéis (21);
· Roupas caras, capas, bolsas (22);
· Espelhos, roupas de linho, xales (23);
· Perfumes, penteados, roupas caras (24).
Mas, logo se vê que as pessoas que usam esta passagem para proibir as jóias, não proíbem as outras coisas. Usam de dois pesos e duas medidas. O que este texto que dizer então?
4.b- É o seguinte: o profeta Isaias está dando uma sentença contra as mulheres de Jerusalém (16), dizendo que Deus iria tirar tudo o que cita delas, não porque aquilo fosse pecado, mas porque elas estavam cometendo outro pecado, o pecado da arrogância, do orgulho (16). A retirada de todos estes objetos delas seria uma forma de castigo, tudo seria parte do julgamento de Deus sobre Jerusalém da qual fala todo este capítulo 3. Temos aqui um fato circunstancial, referente a situação das mulheres de Jerusalém, um fato descritivo (descreve um acontecimento), e não prescritivo (não prescreve, nem ordena uma doutrina). Contrate esta passagem com Ez. 16: 1-14, onde Deus feliz com Jerusalém lhe dá jóias de todos os tipos e roupas finas como bênção. Tirar os ornamentos para o povo de Israel era sinal de tristeza (Ex. 33:1-6); receber ornamentos era sinal de bênçãos (Is. 61: 10; Ap. 21:1-2).
4.c- 1Tm. 2: 9-10; 1Pd. 3:1-4- Estas duas passagens também têm sido usadas por alguns para proibir os adornos femininos, mas não é isso o que está escrito nelas.
1- No primeiro texto (1Tm. 2: 9-10) o apóstolo Paulo não está proibindo o uso de jóias, nem os penteados para as mulheres, ele está fazendo um contraste entre dois tipos de beleza, a interior e a exterior. Ele diz que a verdadeira beleza não deve está por fora, nas jóias e ornamentos que as mulheres usavam, mas por dentro, na espiritualidade, na santidade. A mulher não deveria pensar em se enfeitar e se esquecer da parte espiritual, deve fazer uma, mas faça principalmente a outra. Ele reflete sobre as prioridades do cristão, como em 1Tm. 4:8: “Porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir”. É claro que Paulo não desaconselha o exercício físico, mas mostra que a pessoa deve se exercitar na santidade antes de tudo. Toda leitura de um texto assim deve ser feita com cuidado, levando em seu contexto, se não for assim iríamos achar que o apóstolo estaria proibindo o casamento em 1Co. 7:27: “Estás ligado à mulher? não busques separar-te. Estás livre de mulher? não busques mulher”. Mas, não é isso que ele faz.
2- Na segunda passagem (1Pd. 3: 1-4), se Pedro estivesse lançando uma proibição contra o uso de jóias pelas mulheres, porque ele usa como exemplo de santidade as mulheres do AT (5-6)? Pois como já vimos, elas usavam muitas jóias. Ora, se Pedro tivesse aqui sendo contra o uso de jóias pelas mulheres, não usaria como exemplo quem as usava. Como entender o texto então? O que temos aqui são expressões idiomáticas como as seguintes:
· Assim não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa, e como regente em toda a terra do Egito(Gn. 45:8). Veja no verso 4 que foram os irmãos de José mesmo que o venderam.
· Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocausto. Ossacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus(Sl. 51:16-17). Mas veja o verso 19, e também Ex. 29; Lv.22: 17- 33, onde o próprio Deus é quem estabelece os sacrifícios.
· Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou (Jo. 6:27). Estaria Jesus proibindo o trabalho? É claro que não.
Quando os autores bíblicos escrevem assim, eles estão querendo colocar ênfase em certos detalhes que não podem ser esquecidos em certas práticas, mas não estão negando nada. Por exemplo:
· Em Gn. 45:8, José não estava dizendo que os seus irmãos eram inocentes se sua ida ao Egito como escravo, mas sim afirmando que ANTES dos irmãos dele fazerem o plano, Deus já havia feito.
· Em Sl. 51: 16-17, Davi não está dizendo que Deus não aceitava sacrifícios, pois o AT está cheio de ordenanças a este respeito (Lv. 1-7), mas está dizendo que ANTES de sacrifícios Deus queria o coração contrito.
· Em Jo. 6: 27, João não está dizendo que pessoas não deve trabalhar pela comida material,ANTES que se preocupe com a comida espiritual em primeiro lugar.
 Portanto, nas duas passagens analisadas não há proibição do uso de ornamentos pelas mulheres, mas que ANTES elas saibam que a sua beleza deve está no interior, na vida espiritual dedicada, e não apenas no exterior, no que elas usam.

V- QUAL O CRITÉRIO DO CRISTÃO AO SE VESTIR E SE ADORNAR?
Depois de tudo o que foi dito fica a pergunta então devemos fazer tudo o que os homens e mulheres da Bíblia faziam; usar tudo o que usavam? Para responder a mesma temos que prestar atenção ao seguinte:
5.a- A Bíblia foi escrita em um determinado contexto e cultura onde havia muitos costumes diferentes dos nossos, assim nem tudo o que está na Bíblia é para fazer. Observe:
1- Gn. 16- Sara a esposa de Abraão, por ser estéril, dá empregada para que seu marido se deite com ela e gere um filho;
2- Ex. 21: 7- O pai podia vender a filha;
3- Ex. 21: 16,17 Lv. 20:9- Amaldiçoar ou ferir os pais era passível de pena de morte;
4- Lv. 23- Era obrigado celebrar as festas da Páscoa, Primícias, e o Dia da Expiação;
5- Dt. 21: 15-17- Homens podiam ter mais de uma esposa;
6- Dt. 21: 18- 23- Filhos desobedientes deveriam ser mortos;
7- Dt. 22:13-21- Mulher que casasse e ficasse provado que não era mais virgem deveria ser apedrejada até a morte;
8- Dt. 25:5-10- Se um homem casado morria sem ter deixado filhos, o seu irmão casava com sua esposa, era a lei do Levirato;
9- Dt. 26: 12-15- Quem dava o dízimo deveria fazer uma oração prescrita para todos.
Estes eram costumes do povo e da Lei de Israel, mas não são nossos. Ali eram aceitáveis, mas não são aceitáveis hoje, pois como já vimos costumes mudam de povo para povo e de época para épocaAssim, devemos ao ler a Bíblia saber diferenciar o que é um costume local, que dentro daquela sociedade era permitido e aceitável, e o que não é aceitável em nossa sociedade.
5.b- Observe este fato interessante:
· 1Co. 11:4-16- Em Corinto, era proibido as mulheres cortarem o cabelo, e os homens de terem os cabelos crescidos. Mas, em Israel era normal os homens terem longos cabelos (Jz. 13: 1-5; 2Sm.14:26);
· 1Co.11: 5- Aqui em Corinto as mulheres podiam profetizar e orar nos cultos, e profetizar também era ensinar (1Co. 14:31), mas em Éfeso onde Timóteo estava elas não podiam fazer nada disso (1Tm. 2:11-12). Acontecia assim porque estas duas cidades tinham costumes diferentes.
5.c- Todo cristão deve saber que deve respeitar a cultura na qual está inserido, se ela não fere a doutrina bíblica (1Co.10:32). Assim, no caso de usos e costumes devemos saber se tal costume no país em que vivemos é aceito ou não. Como a sociedade olha quem pratica tal coisa? Olha como cristão? Sendo práticos: homens de brincos no Brasil são vistos como cristãos pela sociedade? Mulheres com brincos pendurados no nariz são vistas como cristãs? Agora todos nós sabemos que a sociedade não vê nada de errado em uma mulher cristã se adornar com seu brinco na orelha, ou seu colar ao pescoço. A mesma coisa não existe discriminação em um homem usar um colar discreto.
5.d- Existem algumas coisa que devem ser observadas pelo cristão quando for se vestir e se adornar com seus enfeites. Não se deve usar tudo que a moda oferece, quando se for usar algo se deve fazer algumas perguntas:
· Isto que estou usando serve para a glória de Deus (1Co. 10:31)?
· Isto que estou usando me faz ser causa de escândalo para crentes ou descrentes (Rm. 14: 13-16,21; 1 Co.10:32)? Muitas coisas podem não ser pecado, mas para evitar o escândalo não devemos fazer (1Co. 10: 23-31);
· Isto que estou usando mostra que sou santo (1Pd. 1: 14-15)?
· Isto que estou usando Jesus usaria (1Jo. 2:6)?
· Isto que estou usando mostra que meu corpo é templo do Espírito Santo (1Co. 6:18-20)?
O cristão deve adotar a modéstia em todo o seu procedimento, se não adota o comedimento saiba que peca. O bom senso deve ser praticado pelos crentes no que usam como trajes ou adornos, sob pena de fazer do templo de Deus que é o seu corpo, um templo profano. Ao usar uma roupa ou adorno pense sempre no outro, e se aquilo está escandalizando o nome de cristão ou não. Que tipo de templo você é?
CONCLUSÃO:
a) As Escrituras estão fartas de textos que provam que os adornos eram usados pelo povo de Deus, não eram proibidos. Alguns tentam usar a Bíblia erradamente para tentar proibi-los, alegando que tudo isso é vaidade. É bom notar que na bíblia a palavra vaidade nunca esteve ligada ao uso de adornos pelas pessoas.
b) Os cristãos estão livres para se adornarem, mas observando o principio da modéstia. Devem saber que são diferentes, que devem ser santos. Se o que usam os transforma em motivo de escândalo ou de descrédito para com sua vida espiritual, estão em erro. Glorificar a Deus com seu corpo este é o critério básico para o comportamento cristão. Faça isso.

APÊNDICE:
a. Dt. 22: 5- Igrejas têm usado esta passagem para condenar o uso de calças compridas por mulheres. A explicação que dão é que calças são roupas de homem, e, portanto, são proibidas aqui para as mulheres. O que estas pessoas não dizem é que na época em que este texto foi escrito as roupas eram semelhantes para homens e mulheres. Os judeus todos usavam vestidos e túnicas, homens e mulheres, a distinção dos sexos não estava no tipo de roupa, pois todos usavam vestidos, mas nos tamanhos e cores.
b. A palavra hebraica no texto que é traduzida por roupa é o hebraico “simlâh”, a mesma palavra que é traduzida por “capa’ em Gn. 9: 23. Esta palavra significa: capa, manto, envoltório, vestuário, de homem ou de mulher; especialmente uma grande roupa exterior.[1]Assim , o texto não se refere a calças, mas a estilos de capas, vestimentas que se distinguiam por tamanho, cores, detalhes, e não por tipo. Portanto, não se proíbe aqui o uso de calças por mulheres, pois se ela usa uma calça de modelo feminino não há problema, assim como na Bíblia os homens usavam vestido, mas de modelo masculino. O texto proíbe o travestismo, homem como mulher e mulher como homem.
c. Mt. 10: 16- Este texto não fala nada sobre usos e costumes. Fala dos problemas que os apóstolos enviados por Jesus iam passar e Jesus está mostrando como eles deveriam enfrentar estes problemas. É só ler todo o capitulo 10 de Mateus. Portanto quem usa este texto para tentar falar de usos e costumes na igreja está falsificando as Escrituras.

fonte:  http://gracaplena.blogspot.com.br/2009/12/o-que-biblia-fala-sobre-usos-e-costumes.html


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