Os Puritanos e a Certeza da Salvação




Rev. Augustus Nicodemos Lopes
Os puritanos davam muita ênfase na certeza plena da sua salvação. Sabiam que o propósito do homem é "glorificar a Deus e gozá-lo para sempre" mas entendiam que, enquanto não se alcançasse essa certeza plena de que você era um eleito, não poderia glorificar a Deus de forma total. Quando nós pensamos que uma das coisas que impulsionava a máquina puritana, ou todo o movimento puritano, e os levava àquela ousadia de enfrentar reis e rainhas, lembramo-nos que tudo era decorrente da convicção e da certeza advindas do fato de estarem plenamente seguros de que Deus estava ao lado deles. Portanto, esta questão da certeza da salvação, da certeza da eleição, é fundamental no movimento puritano. Eles achavam que esta era a maior bênção que alguém poderia ter ainda neste mundo. Por isso este tema é importante de ser conhecido.
O puritano Willliam Guthrie, no seu livro, "O Maior Benefício do Crente" (1658) diz: "Qual a principal ocupação do homem neste mundo?" Resposta: "Ter certeza de que participa de Cristo e viver de acordo com isto". Thomas Brooks, outro puritano famoso, no seu livro "Céu na Terra" de 1654, diz o seguinte: "Estar no estado de graça concede ao homem o céu no futuro; saber que está no estado de graça concede o céu agora e no futuro".
Esta era a base, portanto, das reformas externas que eles pretendiam fazer na Igreja e no Estado; a certeza que eles tinham de que eram povo eleito de Deus, lhes dava coragem para além das portas da Igreja e enfrentar o mundo aplicando a Palavra de Deus em todos os aspectos da vida.
Os puritanos ingleses, em especial, destacavam e enfatizavam o papel de uma vida transformada nesse processo de se obter a certeza de salvação. É interessante observarmos que neste ponto os puritanos foram mais além e, num certo sentido, até divergiram dos reformadores, especialmente Lutero. Martinho Lutero, por causa da sua ênfase contra o Romanismo, fez uma distinção radical entre fé e obras. Os que conhecem a posição luterana sabem disso. O conceito de Graça e o conceito de Lei, ficou dentro do Luteranismo ao ponto de que os estudiosos do Luteranismo alemão de hoje, como por exemplo Bultman, olharem para o Velho Testamento, que Lutero considerava como Lei, e não verem qualquer valor no Antigo Testamento por acharem que a dicotomia, a separação, entre Lei e Graça é total. E Lutero dava muita ênfase a esta distinção radical entre fé e obras. Calvino era mais equilibrado. Ele achava que as obras tinham um papel fundamental na vida cristã mas que, de forma alguma, colaboravam para salvação. Sem dúvida, nenhum deles dizia que o homem era salvo pelas obras, mas acreditavam que as obras tinham um papel preponderante na vida do crente.
Os Puritanos concordavam com Calvino que é por meio das obras realizadas através da graça, que os eleitos "fortalecem o seu chamado e, a exemplo das árvores, são julgados por seus frutos [...] não sonhamos com uma fé destituída de boas obras, nem de uma justificação que poderá subsistir sem elas".
Os puritanos queriam colocar as duas coisas juntas; não porque defendessem salvação pelas obras, como nós iremos ver adiante, mas é que os puritanos estavam lutando num contexto diferente dos reformadores. Os puritanos estavam enfrentando uma Igreja que tinha a sã doutrina; era uma Igreja que tinha vindo da Reforma mas que havia se tornado tolerante; estavam enfrentando uma geração de hipócritas, pessoas que possuíam a doutrina da Reforma e, porque tinham a doutrina certa, porque vieram da Reforma, achavam que isso bastava. Os puritanos diziam: "de forma nenhuma! ninguém pode ter certeza de salvação se não tiver provas concretas na sua vida; evidências da graça de Deus no seu coração!".

Nós podemos, então, quase que fazer a seguinte afirmação: enquanto que a preocupação maior da Reforma foi mostrar como uma pessoa podia ser salva, o Puritanismo se preocupava em mostrar como ela saberia que estava salva. Na época em que os puritanos viveram (século XVII), defendiam que a certeza de salvação era o resultado de um encontro pessoal, contínuo e vivo com o Deus da Aliança. Essa ênfase era uma fonte de irritação para muitos que chamavam os puritanos de presunçosos, legalistas e introspectivos, porque olhavam muito para o seu coração, para a sua vida, examinando-se, para verificar as evidências da obra da Graça de Deus, para que então pudessem afirmar que estavam salvos. 

1. A relação entre a fé que salva e a certeza de salvação, no movimento puritano.

Quando os puritanos afirmam na Confissão de Fé que a certeza da salvação não faz parte da essência da fé salvadora, estão querendo dizer que uma pessoa pode estar salva e ainda não ter alcançado a certeza de salvação. E alguém pergunta: por que é que os puritanos, então, foram mais além do que os reformadores, neste ponto? Os puritanos ensinavam que a fé ativa, a fé que salva, não é uma atividade intelectual somente, mas ela se centraliza no coração do homem; e que uma fé que não move o coração, uma fé que não move a vontade, uma fé que não muda a conduta, não pode ser uma fé salvadora. Era nesse ponto, então, que os puritanos iam um pouco mais além dos reformadores. O famoso Thomas Goodwin, chamado de "o maior exegeta de todos os tempos, que do púlpito expôs os escritos de Paulo", diz as seguintes palavras no seu livro "Fé Justificadora" (volume oito das suas obras):
"aquele ato de fé que justifica o pecador é diferente da convicção absoluta de que ele tem a vida eterna, e portanto esta fé pode existir sem a convicção, já que a fé não contém necessariamente uma certeza inabalável inerente em si mesma; quando se afirma que somente os que têm plena e inabalável certeza de salvação são crentes verdadeiros, condena-se uma geração inteira de justos cuja fé, quer seja por causa da fraqueza ou por várias tentações, nunca chegou ainda a atingir um nível inabalável, mas que entretanto apega-se a Cristo de todo coração e caminha obedientemente em Seus mandamentos. O principal ato da fé não é certeza ou convicção plena, visto que a fé reside na vontade do homem e que é pelo consentimento deste que ele se une a Cristo. A fé não reside primariamente no intelecto. Certeza da salvação é o selo que vem confirmar o que a fé fez e portanto vem depois dela".
Então, isso é o que ensinavam os puritanos, especialmente os puritanos ingleses influenciados por Beza.
A Confissão de Fé da Igreja Presbiteriana ensina exatamente a mesma coisa. A Confissão de Fé é um reflexo da teologia puritana, e eu quero citar aqui o capítulo XVIII no parágrafo terceiro da Confissão de Fé: "Esta segurança infalível", de salvação, "não pertence de tal modo à essência da fé, que um verdadeiro crente, antes de possuí-la, não tenha de esperar muito e lutar com muitas dificuldades". Ou ainda o Catecismo Maior na pergunta 81. Pergunta: "Todos os verdadeiros crentes têm sempre a certeza [de salvação,] de que estão agora no estado de graça e de que serão salvos?" Resposta: "A certeza da graça e salvação, não sendo da essência da fé, os crentes verdadeiros podem esperar muito tempo antes de consegui-la". Os puritanos não negavam que se pode ter a certeza de salvação, claro que eles enfatizavam isso, mas eles estavam reagindo a uma situação, a uma igreja onde a graça era "barata", onde pelo simples fato de você ser inglês, e portanto membro da igreja da Inglaterra, era considerado salvo. Os puritanos diziam: "de forma nenhuma! Você têm que primeiro ver as evidências, examinar a sua vidas à luz da Palavra de Deus antes de que possa dizer: eu sou um dos eleitos, eu sou um dos salvos, eu tenho a fé verdadeira".
Outra evidência dessa doutrina puritana, está no Catecismo Maior na pergunta 172, onde se vê a pergunta sobre a Santa Ceia e se questiona se uma pessoa, que não tem plena certeza da sua salvação, pode participar deste sacramento. Os puritanos respondem dizendo que seria ideal que tivesse, mas desde que a certeza de salvação não é parte, não é essência, da fé salvadora, então aquela pessoa que ainda tem dúvida, mas que ama a Jesus e deseja andar nos seus caminhos, pode se aproximar da Ceia do Senhor para participar dela para ser fortalecido pelos meios de graça no Senhor Jesus. Era assim que eles viam a questão da participação na Ceia do Senhor.
Estamos enfatizando a descontinuidade entre a questão da fé salvadora e a certeza de salvação que os puritanos faziam, mas ao mesmo tempo eles enfatizavam uma certa continuidade. Aqui é necessário uma explicação. A distinção que eles faziam entre fé que salva e a certeza de que se está salvo não era qualitativa. Não é que as duas coisas fossem diferentes uma da outra, mas sim quantitativa. Em outras palavras: a fé salvadora, a fé inicial que a pessoa exerce em Jesus, é bastante para faze-lo estender sua mão e receber a oferta de Deus que é Jesus Cristo, e esta fé inicial tem em si mesma, confiança suficiente para dizer: "eu sou um pecador, mas Cristo morreu por mim" e estende a mão e recebe a Jesus. Então existe essa confiança inicial, porém esta fé inicial, esta fé salvadora, ela cresce e amadurece até produzir plena convicção, até produzir absoluta certeza. Eles diziam que esta certeza, ou esta convicção, conquista todas as dúvidas e prevalece contra todas as tentações. Então o alvo maior do puritano, na vida cristã, era crescer na graça ao ponto de atingir esta certeza plena na sua vida, de que era de Cristo e que Cristo era dele.
Não devemos pensar que eles estavam fazendo muita confusão numa coisa tão simples. A diferença é que eles encaravam a questão, de certeza de salvação, de um ponto de vista muito diferente que os evangélicos hoje estão acostumados a encarar, quando pensam o contrário do que ensina a Confissão de Fé de Westminster. Certeza de salvação não vem simplesmente de um ato onde você levanta a sua mão, ou faz uma decisão a favor de Cristo e a partir daí, na mesma hora, lhe é dada certeza de salvação. Os puritanos achariam isso um absurdo, porque você não pode dar certeza de salvação a uma pessoa enquanto aquela pessoa não demonstra na sua vida o resultado da fé, fé ativa. Isso porque eles criam que a fé não era algo do intelecto, mas era centralizada no coração, e se é no coração, deve mover o homem, a suas emoções, a sua vontade, modificar a sua conduta e produzir frutos dignos de arrependimento.
Thomas Brooks mostrou como os puritanos, faziam essa distinção entre fé salvadora e certeza plena, mas ao mesmo tempo dizia que uma cresce e produz a outra. No livro "Céu na Terra", Thomas Brooks diz o seguinte (numa página ele começa dizendo): "certeza da salvação não faz parte da essência do ser um cristão", mas logo alguns parágrafos abaixo ele diz: "entretanto a fé a seu tempo, por si mesma se erguerá e progredirá até a plena convicção". Então, se vê aqui, como os puritanos mantinham os dois lado: a fé inicial é suficiente para nos levar a Cristo, porém ela tem que crescer e progredir até desabrochar em segurança plena. Thomas Goodwin no seu livro, no capítulo sobre Fé Justificadora, diz o seguinte: "no coração do cristão está selado um sussurro secreto da misericórdia da parte de Deus. Eu não afirmo que isso se transforme imediatamente em plena convicção, mas que este sussurro secreto é suficiente para conduzir o coração a Cristo e jamais abandoná-Lo."
Voltemos outra vez à Confissão de Fé de Westminster, citando agora o capítulo XIV no parágrafo III. A Confissão de Fé diz o seguinte: a fé salvadora "é de diferentes graus: é fraca ou forte, pode ser muitas vezes e de muitos modos assaltada e enfraquecida, mas sempre alcança a vitória, desenvolvendo-se em muitos até à plena segurança em Cristo, que é tanto o Autor como o Consumador da fé." Ele é o autor, da fé inicial, e é o seu consumador. Ou seja, à medida que esta fé progride e atinge a sua plena consumação, desabrocha na confiança inabalável que os puritanos possuíam e que os capacitava a enfrentar os reis e os exércitos para levar o Reino de Deus avante.
Em resumo, podemos dizer o seguinte: os puritanos faziam esta distinção entre a plena certeza e a confiança inicial da fé, e insistiam que esta certeza inabalável é o alvo maior na vida cristã e que ela cresce a partir do ato inicial da fé; se desenrola a partir daquele momento inicial, e que cada crente pode atingir este alvo, e deve esforçar-se por isso, sabendo que é um pecado não se esforçar para progredir na graça até esta plena certeza.
Vamos mostrar algumas conseqüências na vida prática dos puritanos, que os fazia pensar assim. Os irmãos sabem que há uma conexão indissolúvel entre o que se acredita e o que se pratica. Já que os puritanos criam assim, a sua prática era organizada ou controlada por esta convicção.
Em primeiro lugar, eles não consideravam certeza de salvação como critério para se analisar alguém, para ver se a pessoa era crente ou não. Infelizmente isso é muito comum hoje em dia. Hoje, quando nós queremos evangelizar uma pessoa e não sabemos se ela é crente, a primeira pergunta é: você tem certeza de salvação? Os puritanos jamais fariam esta pergunta usando-a como critério, se uma pessoa era salva ou não. Porque para eles os testes relacionados, os testes da salvação não eram apenas uma confissão, embora isso fosse importante, mas era a vida e o propósito de se seguir a Jesus. Por isso essa pergunta para eles não fazia parte da sua abordagem evangelística em primeiro lugar.
Em segundo lugar, por outro lado, tão logo uma pessoa se convertia, ela era encorajada a prosseguir na vida cristã crescendo até obter a plena certeza, e os puritanos gostavam especialmente de dois textos (eles gostavam da Bíblia toda mas especialmente de dois textos nessa conexão): Primeiro era Hebreus 6.11: "Desejamos, porém, continue cada um de vós mostrando até ao fim a mesma diligência para a plena certeza da esperança...", e ainda II Pd.1.10: "Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum". E esta ênfase da Palavra de Deus em confirmar a nossa vocação e eleição em todo tempo, era também a ênfase deles; eles acreditavam nisso e todo novo convertido era encorajado a isso. Não era dada a certeza de salvação ao novo convertido, mas eles encorajavam a que o novo convertido progredisse, crescesse na sua confiança inicial em Jesus até alcançar esta plena certeza.
Em terceiro lugar, uma outra conseqüência, era que os puritanos advertiam os novos convertidos de que a fé salvadora é sempre acompanhada de santidade de vida; que ela inevitavelmente há de produzir mudanças, ou de produzir evidências, na vida das pessoas; que serão os sinais, as marcas da obra da Graça de Deus e que se a pessoa não as tem, não as porta, não traz consigo estes sinais, não tem como dizer que está salva. Então, a ênfase era em santidade de vida, antes de que você pudesse dizer que estava salvo. E também no seu aconselhamento, quando o pastor puritano encontrava alguém que estava em profunda depressão, e que estava incerto do seu relacionamento com Deus, ele não começava dizendo: "você então precisa se converter, se você não tem certeza de salvação você tem que se converter". Eles não começavam assim. Eles sabiam que a pessoa podia ser um crente verdadeiro cuja fé tinha sido abalada ou diminuída porque negligenciou os meios de graça, negligenciou o estudo da Palavra, negligenciou a oração, negligenciou o atendimento aos cultos, negligenciou ouvir a Palavra de Deus pregada. Estes são os meios chamados "Meios Ordinários", comuns, através dos quais o Espírito produz a convicção, e se a pessoa os abandona, como ela pode vir a ter certeza do seu relacionamento com Deus? Primeiramente, o pastor puritano, o conselheiro puritano, ele examinava como estava a vida devocional daquela pessoa; como estava o seu uso dos meios de graça. Ou então, uma outra coisa que ele podia pensar, é que a pessoa havia cometido algum pecado, que havia de forma especial ferido a sua consciência e entristecido o Espírito Santo. Portanto, a pessoa não podia mais desfrutar daquela alegria, daquele gozo que eram características de alguém que é salvo. Assim ele fazia uma análise, convidava a pessoa a se auto-examinar, a examinar a sua consciência, a sua conduta, procurando aquilo que poderia ser o obstáculo ao crescimento até à plena certeza. Além disso, eles sabiam também que o crente podia ser assaltado por Satanás de forma tão súbita e violenta que a sua fé podia ser abalada. Isso é possível. E então, eles também exploravam esta área.
Eles também acreditavam - isto está inclusive refletido na Confissão de Fé - que Deus para provar o crente em algumas ocasiões, retira a luz da Sua presença. Era o que os puritanos chamavam de "a noite da alma". Dessa forma a alma do crente entrava na "noite" e, sentindo-se quase que abandonado, perguntava: "meu Deus por que me desamparastes?". Mas não era nada, era Deus testando seu filho, querendo saber se ele o seguia apenas pelas bênçãos recebidas ou porque O amava. O puritano sabia que existia "a noite da alma", e também dava valor a isso quando estava aconselhando as pessoas. Sabia também que a pessoa podia ser uma nova convertida que ainda estava querendo compreender a Graça de Cristo, entender plenamente, enquanto a fé amadurecia e lutava contra as dificuldades. Também, o pastor puritano ao aconselhar uma pessoa que não tinha certeza de salvação, sabia também que a razão podia ser que ela não era salva e que precisava, então, deixar os seus pecados, a sua incredulidade, e se converter ao Senhor Jesus, ou então precisava de uma instrução mais clara a respeito do caminho da Graça.
Percebemos assim, como essa ênfase, essa separação que os puritanos faziam entre fé e certeza de salvação, leva-nos a um lugar de mais seriedade quando examinamos um candidato ao batismo, quando evangelizamos, ou quando queremos examinar os outros e dizer se ele é crente ou não. Às vezes isso é necessário. Mas o caminho dos puritanos era por aqui, eles entendiam que tinha de ser uma avaliação da vida do indivíduo, buscando os sinais da operação da Graça de Deus. E eu acredito que isso já é um corretivo para as tendências do evangelicalismo brasileiro, onde uma "graça barata" é oferecida: um Cristo que não faz exigências; uma fé que não muda o coração; uma certeza de salvação que é dada simplesmente porque uma pessoa fez uma decisão, levantou a mão, ou qualquer coisa deste gênero. Não estou negando que uma pessoa pode ser salva assim, pode. Mas o que estou dizendo é que a certeza de salvação não vem do fato de que você atendeu um apelo ou levantou uma mão. Mas, a certeza de salvação é decorrente da sua observação, de você perceber na sua vida os sinais da Graça Salvadora de Deus mudando a sua vida e o seu coração. Essa é a ênfase dos puritanos, na relação entre fé e certeza.
Somos obrigados a falar sobre outra questão muito importante. A relação entre a razão, o intelecto, e a obra do Espírito Santo. Os puritanos faziam isso quando tratavam dessa questão de certeza de salvação. Nós precisamos deixar muito claro aqui um ponto. E não me entendam mal, pois se me entenderem mal vão entender mal os puritanos. E eles agora não podem nem se defender a não ser através dos livros; então leia os seus livros. Os puritanos não diziam que a base da certeza de salvação era a análise que o crente fazia da sua vida. Não, de forma nenhuma. A base e a convicção da salvação, segundo os puritanos, era externa, era a obra de Cristo na cruz do Calvário, que era suficiente para salvar todo aquele que crê, como está revelado na Escritura. Era essa a base, não somente da salvação, mas da certeza.
Mas a questão é: como eu sei que estou salvo? Como eu sei que a minha fé é a fé que salva? Como é que eu sei que de fato participo de Cristo? Os puritanos atacaram essa questão que não era uma questão nova. Essa questão de como é que uma pessoa, um crente, pode conhecer a vontade de Deus era uma questão que vinha ocupando já a Igreja durante muitos séculos. Na época medieval Tomaz de Aquino fez uma dicotomia, uma separação muito grande, entre a capacidade da razão em compreender, analisar, em chegar a uma conclusão e a fé, que era um reino completamente diferente. Havia esta dicotomia. Daí então se fazia a pergunta: de que forma eu sei que estou salvo? É pela minha razão? Eu examinando, verificando as evidências da minha vida, ou fazendo uma comparação, fazendo um cálculo dizendo: "a Bíblia diz que eu sou salvo se eu for assim, eu sou assim, logo eu sou salvo". É um processo intelectual em que eu chego a conclusão de que estou salvo? Ou é um processo místico, um processo espiritual, quando o Espírito Santo vem, e de forma direta sem nem passar pela minha razão ele testifica no meu coração.
Esse é um conflito que a Igreja vinha debatendo durante muito tempo. Se você ler os puritanos, você vai ver que de vez em quando eles mudam de ênfase. Você vê que alguns puritanos colocam muita ênfase na questão do raciocínio, do intelecto. Eles estavam lutando contra os místicos, contra aqueles monges, contra aqueles falsos piedosos que falavam de um misticismo extraordinário mas que não tinha frutos. O puritano dizia: "Não, não. Você tem que analisar, você tem que ver a sua vida. Use a sua mente. Some um mais um e veja se bate dois, veja se você é crente".
Quando eles enfrentavam os intelectuais, os hipócritas, que achavam que estavam salvos só porque tinham a sã doutrina, então, a ênfase deles era no testemunho do Espírito Santo. Diziam: "Não, não, você tem que vê se tem o testemunho do Espírito Santo no seu coração, se o seu coração está aquecido, se está mudado, de fato transformado". Em outras palavras, na lógica puritana da doutrina da salvação não havia qualquer dicotomia, porque eles acreditavam que a plena certeza de salvação decorre de um exame sincero e humilde das evidências internas e externas da sua salvação juntamente com o testemunho interno do Espírito Santo. Ou seja, para eles não havia separação, já que o Espírito Santo opera na mente humana e através da mente humana. E assim nós encontramos esta síntese, esta combinação equilibrada dos puritanos sobre esta questão que havia se levantado na Idade Média.

Cito algum testemunho dos puritanos. John Owen, nas suas obras, no volume 2, dá uma descrição gráfica de como a razão opera juntamente com o Espírito Santo para estabelecer a certeza de salvação. Ele diz: "A alma, pelo poder de sua própria consciência, é trazida diante da Lei de Deus. Lá o homem apresenta o seu caso. Ele argumenta: ‘Eu sou filho de Deus’, e apresenta todas as evidências de sua filiação. Em meio à sua defesa, enquanto ele está diante de Deus argumenta: ‘Eu tenho essas evidências. Na minha vida vejo esses sinais’. Então, o Espírito Santo vem e, através de uma palavra ou de uma promessa, conquista o seu coração com a persuasão consoladora, derruba todas as objeções e confirma que a sua causa é certa". Assim nós vemos como eles criam nas duas coisas. Ou ainda William Guthrie, outro puritano, escreve: "Certeza é obtida através da seguinte argumentação: quem crê em Cristo jamais será condenado, eu creio em Cristo, logo jamais serei condenado", e mais "o Espírito Santo testifica sobre esta avaliação e a torna evidente à mente". Tem que ser as duas coisas. Richard Sibbes no volume um das suas obras diz: "Eu sei que creio porque o Espírito Santo impele a minha alma a isto, porém a forma mais comum de conhecermos o nosso estado diante de Deus é deduzindo a causa a partir dos efeitos". 
Estou enfatizando estas coisas para mostrar como o movimento puritano, as equilibrou e deixou como legado para Igreja esta doutrina que abrange os dois aspectos: a questão do intelecto e a questão do testemunho do Espírito no coração. Isso nos ajuda muito por causa da situação do evangelicalismo brasileiro. Quando por um lado nós temos a tendência ao formalismo: que leva uma pessoa a acreditar que está salva apenas porque é firme doutrinariamente. A essa o puritano diria: "E o seu coração meu irmão? E o testemunho interno do Espírito Santo?". Por outro lado nós temos o emocionalismo divorciado de uma mente informada. A esse o puritano dizia: "Não, não, você tem que estudar a Palavra, examiná-la, e examinar a sua vida. As duas coisas têm que bater antes de que você diga que você está salvo". Quero ainda mencionar a Confissão de Fé no capítulo XVIII verso dois. Aqui os puritanos dizem: "Esta certeza não é uma simples persuasão conjectural e provável, fundada numa esperança falha, mas uma segurança infalível da fé, fundada na divina verdade das promessas de salvação, na evidência interna daquelas graças nas quais essas promessas são feitas, e no testemunho do Espírito de adoção que testifica com os nossos espíritos que somos filhos de Deus". Então, o puritano acreditava que na operação conjunta destas coisas, o crente podia chegar à plena certeza de salvação.

Quero rapidamente tocar num assunto aqui que tem sido motivo de polêmica entre os irmãos que têm começado a conhecer o movimento dos puritanos, a ler sua literatura. O fato é esse: embora os puritanos enfatizassem os dois lados, ou seja, a dedução racional das evidências para se chegar à certeza de salvação; e por outro lado o testemunho direto do Espírito Santo, eles tinham uma predileção pelo testemunho direto do Espírito Santo na alma. Isso eles valorizavam acima de tudo. Era bom ter os dois, mas o testemunho direto no coração do crente junto com a graça, junto com as evidências da graça, era o que eles valorizavam mais. Essa ênfase estava, num certo sentido, perdida, mas quem começou a chamar a atenção para este aspecto do movimento puritano foi Dr. Martyn Lloyd-Jones, e eu recomendo aos irmãos especialmente o seu comentário em Romanos 8:16 (Editora PES) e Efésios 1:12-14. Quem não tem adquira, porque ali você vai encontrar uma exposição clara desta ênfase dos puritanos sobre o testemunho direto do Espírito no coração. Ou ainda aquele livro "Avivamento" em alguns capítulos.
Quero ler aqui o testemunho de alguns comentaristas puritanos em Romanos 8:16 e Efésios 1:3. Romanos 8:16: "O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus." William Guthrie comentando este texto diz o seguinte: "Existe uma comunicação do Espírito de Deus que algumas vezes é concedida a alguns do seu povo, que vai além do testemunho acerca da filiação divina em Romanos 8:14". Em Romanos 8:14, lemos assim: "Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus." então, pode-se dizer, que é esse primeiro passo. Se você é guiado pelo Espírito, e tem as evidências desse andar no Espírito, então você chega à conclusão de que é salvo. E Paulo vai mais além. No verso dezesseis, segundo William Guthrie, Paulo está agora falando de um outro nível de certeza, quando Paulo diz que o Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Então ele continua: "É uma manifestação gloriosa de Deus à alma, derramando seu amor no coração, é algo que se percebe melhor sentindo do que descrevendo. Não é uma voz audível, mas é um raio de glória enchendo a alma da presença de Deus; do Deus que é luz, vida, amor, e liberdade. Ó quão gloriosa é esta manifestação do Espírito! A fé se eleva a uma convicção plena tal, que você se vê diante do próprio Deus! Esta graça não é dada a todos os crentes; muitos passam seus dias em tristeza e temor". Eles acreditavam, então, na soberania de Deus em conceder esse testemunho direto, esse testemunho íntimo à alma do crente que era além da certeza normal que se obtém através dos meios de graça, e eles davam muito valor a isso.
Ou ainda Richard Sibbes, no livro "Uma Fonte Selada", ele diz o seguinte:
"Acontece freqüentemente que nossas almas, apesar de santificadas, não conseguem resistir às súbitas tentações, sutis e fortes. Deus, então, nos adiciona do seu Espírito. A sensação de culpa sempre vence o testemunho dedutivo de que fomos salvos e santificados".
Preste bem atenção. Sibbes está dizendo que esta certeza de salvação que vem da nossa dedução, do exame, do fato de que eu sou santo, que eu deixei disso ou deixei aquilo outro, que eu tenho vontade de ler a Bíblia, que eu tenho vontade de orar; essa análise que você faz da sua vida e a conclusão a que você chega, não é suficiente para resistir a determinadas tentações; "portanto o testemunho direto do Espírito se faz necessário para testificar do amor do Pai por nós. Através desse testemunho o coração é animado e confortado com gozo indizível". Ou seja, nós chegamos à conclusão da nossa salvação através dos meios dedutivos, examinando, olhando. Mas isso às vezes é insuficiente para as tentações, para os ataques do diabo, mas existe então, esta certeza que nos é comunicada pelo Espírito diretamente ao nosso coração, como diz Romanos 8:16. É essa certeza, então, que dissipa toda dúvida, que nos liberta, que nos enche de gozo. É isso que nos diz o puritano Richard Sibbes.
Veja ainda o que diz Thomas Goodwin, expondo Efésios 1:13:
"Existe uma luz que vem e conquista a alma humana e lhe assegura que ela é de Deus e que Deus é dela, e que Deus o ama eternamente. É uma luz além da fé comum; é a coisa que chega mais próxima ao gozo do céu; aqui na terra é o máximo que podemos ter; é a fé elevada à sua máxima potência acima do nível comum; é o amor soberano de Deus vindo de encontro da alma do eleito".
Vou narrar apenas duas experiências dos puritanos nesse sentido. Uma é muito conhecida, é de John Flavel, um puritano que escreveu vários livros e foi descrita por Isaac Watts. Ele diz que esse puritano, John Flavel, estava de viagem a cavalo, quando de repente Deus começou a tratá-lo de uma forma bem íntima. Isaac Watts descreve assim, resumidamente, a experiência:
"Os pensamentos de Flavel começaram a elevar-se cada vez mais altos, como as águas na visão de Ezequiel até se tornarem como uma inundação. Tal era a disposição da sua mente, tal gosto das alegrias celestiais, e tal a certeza plena da sua participação no céu que ele perdeu totalmente a sensação que estava neste mundo, bem como ficou sem qualquer outra preocupação. Durante horas a fio ficou sem saber onde estava, como alguém que acorda de um sono profundo. A alegria do Senhor inundou seu coração de tal forma que durante muitos anos ele chamou aquele dia: ‘Um dia do céu sobre a terra’, e que aprendeu mais sobre o céu naquele dia de que com todos os seus livros".
Era isso que o puritano buscava, essa plena convicção, essa certeza absoluta que era mais do que uma dedução normal e racional, daquilo que nós estamos vendo em nossa vida.
Há também o exemplo (há muitos outros mas eu selecionei apenas estes), de um puritano chamado João Howe, que também é narrado por Isaac Watts. Quando ele morreu encontraram escrito numa página da sua Bíblia: "O que eu senti pela misericórdia do meu Deus, no dia 22 de outubro de 1704, ultrapassa meu poder de descrição. Naquele dia experimentei um agradabilíssimo derreter do meu coração com lágrimas jorrando dos olhos e alegria por Deus ter derramado o Seu amor no coração dos homens, especialmente porque meu próprio coração havia sido tocado desta forma". A experiência tinha sido tão extraordinária, e única, que ele escreveu na página da sua Bíblia, registrando-a para a posteridade até os dias de hoje. E assim vemos este desejo dos puritanos de ter uma certeza, mas que fosse dada pelo testemunho do Espírito no seu coração.
Deixe-me fazer aqui algumas observações necessárias. Os puritanos não encaravam esta forma de se obter plena certeza, que eu acabo de mencionar, como sendo normativa. Isso não acontece todo dia. Eles não encorajavam as pessoas a buscarem experiências místicas. De forma nenhuma. Era algo desejável, porém era algo que era dado, era algo que era da soberania de Deus, e portanto eles procuravam deixar na mão de Deus. Eles não desprezavam o processo dedutivo normal, desde que assistido pelo Espírito. Era o normal, e todos deviam buscar a certeza de salvação pela fé na obra de Cristo e pelo exame de suas vidas, pela evidência que foram tocados pela graça. E eles exerciam muita cautela quando se tratava de experiências místicas. Em geral eles rejeitam revelações extraordinárias e sobrenaturais. Eu não tenho tempo de entrar na análise deste ponto. E inclusive está na própria Confissão de Fé de Westminster. Para que o crente tenha certeza de salvação ele não precisa de uma revelação extraordinária. A Confissão de Fé enfatiza isso. Quando ela vinha, o puritano exigia que ela tinha de ser compatível com as outras evidências. Ou seja, um hipócrita não podia sentir esse tipo de coisa. Mas se acontecia na vida de um santo, na vida de um homem que andava com Deus, um homem que tinhas as evidências da graça, era genuína.
Portanto nós acreditamos que aqui há um equilíbrio que pode ser muito útil também à Igreja brasileira, quando vivemos numa época em que há um misticismo, há uma ênfase tão grande em buscar experiências com Deus. Os puritanos acreditavam que Deus pode dar experiências (não revelacionais), e eles eram gratos e felizes a Deus quando Deus dava, mas eles encaravam como sendo algo da soberania de Deus, que não era algo que era da vida diária e que o crente na sua vida normal é guiado pela Palavra, pelo exame da sua vida em análise com a Palavra de Deus e que quando essa experiência vinha ela tinha que ser atestada por uma vida santa, de acordo com a Palavra de Deus, senão era misticismo, era coisa do maligno ou coisa então da psicologia humana. Percebem como essa ênfase é importante para os nossos dias?
Finalmente, apresento a relação entre a obediência e certeza de salvação. Eu já falei que os puritanos destacavam a importância de uma vida transformada para que uma pessoa viesse a assegurar-se da salvação. Era uma ênfase que eles davam na obediência que o crente tem de exercer praticando as boas obras. Essa ênfase sempre foi mal interpretada. Por exemplo o crítico moderno dos puritanos, Perry Muller, ele diz o seguinte (os puritanos têm muitos críticos até o dia de hoje): "Se é Deus quem salva por que é que os puritanos ficam nos perturbando com essa exigência de obediência?" Se os puritanos insistiam que a salvação era pela graça, como os Reformadores, por que é que eles ficavam citando "que tem que obedecer", "tem que fazer boa obra"? Por quê? E esse crítico não podia entender. Ora, não é somente esse crítico, mas muitos outros têm acusado os puritanos de serem "prisioneiros de um sistema teológico legalista". Que embora fossem herdeiros da Reforma mesmo assim eram legalistas, e isso tem assustado muita gente que pensa que puritanismo sempre descamba no legalismo. Ou então de que os puritanos eram introspectivos, e que punham muita ênfase apenas no auto-exame. A imagem que fazem dos puritanos de que eram pessoas sérias, contritas, abatidas, mortificadas, ascetas, com nariz grande, pode ser vista nos seus retratos no livro "Os Puritanos - Origens e Sucessores " (PES).
Mas eles eram mal entendidos (e ainda são) por causa da ênfase que davam na necessidade de obediência e de santificação. Então, qual o lugar da obediência na teologia puritana, especialmente com relação à certeza de salvação?
Vamos voltar outra vez, então, e fazer uma comparação com os Reformadores. Enquanto que os reformadores, especialmente Lutero, associavam a certeza de salvação com a justificação, ou seja, a certeza de salvação está ligada diretamente à justificação, ao passo que os puritanos, influenciados por Beza, diziam que a certeza de salvação estava ligada à santificação. Não, não está ligada à justificação não. Ser salvo pela graça é uma coisa, outra coisa é ter certeza de salvação. Ela está ligada à santificação. Então se nós não entendermos esse ponto, não vamos entender a ênfase dos puritanos na necessidade de obediência, na necessidade de santidade de vida. A crítica que se faz aos puritanos a essa altura é esta: já que a certeza de salvação está ligada à santificação, quando é que o crente vai ter certeza de salvação? Ele nunca poderá chegar à plena certeza já que a santificação é um processo, alguém pode dizer. Mas a resposta do puritano era esta: Não estamos dizendo que você tem que ser plenamente santificado, para você ter certeza de salvação. Estamos dizendo é que a partir do momento em que você tem os sinais externos mínimos e básicos da operação da graça de Deus, você passa a ter certeza de salvação. A resposta é essa. É aqui, então, o lugar da obediência à Palavra de Deus dentro da teologia puritana. Nós podemos dizer que é um círculo, e esse círculo está expresso na Confissão de Fé. No capítulo XVI, parágrafo 2: "boas obras, feitas em obediência aos mandamentos de Deus, são o fruto e as evidências de uma fé viva e verdadeira;...". Então os puritanos sabiam que a fé produz obras vivas e verdadeiras. Continua: "por elas", por estas obras, "os crentes manifestam a sua gratidão e robustecem a sua confiança (fé)...". Então diziam: A fé produz obras e as obras robustecem a fé, é um círculo. Uma coisa leva à outra. Uma e outra, como diziam os puritanos, as bênçãos de Cristo se fortalecem mutuamente no coração do crente. Funcionava desta maneira.
Em resumo o ensino da Confissão de Fé é este: a plena certeza é privilégio daqueles que desejam obedecer a Cristo. Para ter certeza plena de salvação, precisamos saber que essa certeza é um privilégio daqueles que querem andar no caminho de Jesus. As boas obras, feitas como resultado dessa obediência, vêm fortalecer a plena segurança da salvação. Por outro lado, a obediência que se traduz em obra, já é fruto da convicção e da segurança de salvação que a pessoa possui.
A essa altura é importante fazer um comentário sobre essa questão do auto-exame, do exame íntimo que está relacionado perfeitamente com esta questão. Estudos recentes sobre o puritanismo têm entendido que essa relação entre reflexão, exame interno, e obras, pode ser traduzida como sendo uma espiral viva, como uma espiral crescente. Primeiro o puritano se examina, reflete à luz da Escritura sobre sua vida. Ele procura evidências na sua vida da operação da graça de Deus; coisas como quebrantamento, desejo de fazer a vontade de Deus, temor a Deus, desejo de buscar Sua Glória, boas obras, amor ao próximo, zelo pelo nome de Deus, ódio ao pecado. Então eles examinavam procurando essas coisas que eram a evidência da operação da graça de Deus no seu coração.
Eu quero mencionar o puritano Thomas Brooks no livro "Céu na Terra": "segurança da salvação é um ato reflexo da fé", ou seja, é a fé em reflexão, é a fé se examinando, "é um discernimento experimental de que se está em estado de graça. Esta certeza provém de observar em si próprio as evidências especiais, peculiares e distintas da graça de Cristo". Esse era o ensino. A fé tem essa capacidade de refletir, tem essa capacidade de se examinar. Essa era a primeira parte da espiral. Depois de se examinar à luz da Escritura e debaixo do poder do Espírito Santo, que era alguma coisa que os puritanos enfatizam tremendamente, o passo seguinte era a ação. E nós sabemos como eles iam para a ação. Mas iam para a ação porque tinham feito um auto-exame. Eles sabiam que eram povo de Deus, tinham aquela certeza, demonstrada pelas evidências e pela Palavra. E a mecânica era essa: ação à reflexão, ação à reflexão, ação... e assim numa espiral crescente que acompanhava o puritano a sua vida toda, a fé e a certeza de salvação se fortaleciam, à medida em que ele crescia na graça e no conhecimento do Senhor Jesus Cristo. Era assim que funcionava. Era algo dinâmico. Quero aplicar tudo isso para a Igreja de hoje.
Quero dizer duas coisas antes.
1) Primeiro, é minha convicção de que os puritanos ingleses nesse aspecto capturaram profundamente o ensino Bíblico. Eu gosto dos puritanos, não porque eles são do final do século XVI, ou do século XVII, e sim porque eles acertaram, porque eles, dentro da História da Igreja, fazem parte daquelas gerações, daqueles modelos históricos de cristianismo que melhor refletem a Escritura Sagrada em muitos aspectos. Eu sei que eles cometeram erros. Sei perfeitamente disso. Posso até dizer para os irmãos em que eu não concordo com eles, mas acredito que, na grande maioria, na sua grande parte, aqueles homens de Deus nos expuseram a Palavra de Deus de forma clara e concreta, e este é um dos pontos em que eles estão certos. É uma exegese certa da Escritura, no meu entender.
2) Por outro lado à medida em que entendemos esta questão, precisamos ser cautelosos porque o e o que aconteceu foi que eles colocaram ênfase nos dois lados (reflexão e ação). Quando esta ênfase nos dois lados era apresentada, notamos o quanto os puritanos eram equilibrados. As duas coisas andavam juntas. Quando, na fase final do puritanismo, o lado da graça foi abandonado, caíram no legalismo, perderam o equilíbrio dessa espiral, deixaram o lado da ação e o lado da confiança em Deus e se tornaram reflexivos demais. O puritanismo virou símbolo apenas de auto-exame e de reflexão; aquela pessoa introspectiva que é, infelizmente, a figura que ficou até o dia de hoje. Mas não foi isso que caracterizou o movimento, isso foi um desvio do puritanismo. Nem é puritanismo! Então à medida que queremos aprender com eles, lembremo-nos que temos que manter em equilíbrio estas coisas. Em que isso pode servir à igreja brasileira?
Primeiro, a doutrina puritana sobre a certeza de salvação pode nos ajudar a corrigir a influência da Igreja Católica que diz que a certeza de salvação é impossível nesta vida. Os puritanos diziam: "De forma nenhuma! A obra completa de Cristo, e a obra do Espírito em nós, torna esta certeza possível. É pecado não buscar esta certeza depois do que Cristo fez na cruz do Calvário, depois que o seu Espírito foi derramado no dia de Pentecostes". Isso nos ajuda a combater esta tendência.
Em segundo lugar, nos ajuda também, como já mencionado, a corrigir a influência do evangelho barato, que oferece uma certeza de salvação com base em decisões feitas em resposta a apelos (por decisão), sem que haja sinais que podem ser observados de arrependimento, de mudança, de fé verdadeira. Os puritanos diriam: "Certeza de salvação depende da santificação. É necessário crescer na graça, no auto-exame, na percepção da graça de Deus no coração". E isso, eu acredito, é muito importante e prático, especialmente na hora em que vamos examinar os candidatos à Profissão de Fé.
Em terceiro lugar, essa doutrina puritana pode nos ajudar contra a influência do legalismo proveniente, infelizmente, de alguns círculos pentecostais que torna a certeza de salvação inatingível, porque é baseada no rigorismo do cumprimento da Lei. Ou então baseada em evidências legalistas. O puritano diria: "A certeza de salvação não se baseia na auto-avaliação, como sendo algo pessoal do crente, mas na percepção da graça de Deus agindo em seu coração. Não tem nada de legalismo".
E por fim, em quarto lugar, acredito que é uma influência, um corretivo saudável para o misticismo que existe hoje inundando as igrejas (inclusive presbiterianas) que esquecem que a prioridade do homem é o seu relacionamento pessoal com Deus. O puritano diria: "O fim principal do homem é glorificar a Deus, e isso através da obediência que parte de um coração seguro da sua salvação".
Como estamos nós? Quais são as evidências, quais são as bases que você tem na sua vida para crer que faz parte dos eleitos de Deus? Qual a evidência que você apresenta diante de si mesmo e diante de Deus para reivindicar, se podemos usar esta palavra, de forma limitada, ou pelo menos para se apresentar como um candidato à salvação eterna que Cristo nos oferece? Eu lhe asseguro, pela Palavra de Deus, e com isso nós nos juntamos aos puritanos, que se nós não tivermos na nossa vida as evidências da obra da graça de Deus, de uma fé salvadora sediada no coração, que move o coração, que move a vontade, nós não temos como dizer que estamos salvos.
Digo também uma palavra de conforto aqui, ao crente verdadeiro, e que luta para ter esta certeza. Quero encorajá-lo a prosseguir. Porque é vontade de Deus que você encontre plena certeza. Continue crescendo nessa espiral, analise a sua vida, faça uma reflexão do seu coração, da sua alma, da sua conduta à luz da Palavra de Deus. Corrija o que tem que ser corrigido. Abandone o que tem de ser abandonado. Obedeça a Deus, continue nesse caminho. Volte e examine o seu coração outra vez e nesse processo você chegará à plena certeza de salvação.
Que Deus nos ajude, e que possamos, com esse corretivo que vem da Palavra de Deus, mediada pelo modelo puritano, ser abençoados, crescer e ter um cristianismo equilibrado no Brasil nos dias de hoje.

Um pouco de exegese Romanos: O Evangelho De Deus





PAULO, APÓSTOLO AOS GENTIOS: O nome Paulo,significa pequeno, apesar de ter sido um grande homem de Deus.Foi o maior escritor do NT, Nascido em Tarso," da tribo de Benjamim,... quanto à lei,fariseu, quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível. Mas, o que para ele, era lucro, isto considerou perda por causa de Cristo." Fp.3.5-7. Após esta breve introdução, gostaria de considerar algumas lições  paulinas, a partir de certos dados biográficos.e destaques de sua epístola aos Romanos: 1.1a  "Paulo, servo de Jesus Cristo..." doulos, servo, escravo, Paulo não tinha direitos, não era um empregado regido pela CLT,sua vontade estava totalmente sujeita à de Jesus, "..aquele que, sendo rico, se fez pobre,por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos." II Co.8.9 Paulo teve o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois Ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, ekenose ( indicativo, modo certo indubitável,aoristo, ação pontilear, singular, não processual, ativo, ele mesmo praticou o ato ), assumindo a forma de servo ( doulou ) forma de escravo, Fp.2:5-7, submisso ao Pai, aí encontramos a inspiração, paradigma, referencial do servo Paulo: Jesus.Este deve ser também nosso sentimento.Rm.1.1 b "Paulo,...chamado para ser apóstolo..." apostolos " etmologicamente formado de APO , de ,partindo de, preposição caso ablativo indicando origem, STELLO, mandar, enviar, ou seja, alguém enviado a partir de uma base, esta é o próprio Senhor Jesus, Sua autoridade, Mt.28.18-20, Jo.20.21 "...Assim como o Pai me enviou apestalke,indicativo, factual, perfectiva, conclusa no passado com efeitos presentes, o envio é atemporal, mas realiza-se no kairós divino, EU tambem vos ENVIO. pempo , modo da certeza, tempo da continuidade, ou seja, o envio não é circunstancial, mas perene, permanente, contínuo, ininterrupto, duradouro, até a volta de Cristo, ou nossa ida prá Ele. A presença do pronome indica ênfase EU vos envio, Cristo enviou ´Paulo e a nós também, Mc.16:15. " Por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo, viemos a receber graça e APOSTOLADO por amor do Seu nome, para obediência por fé, entre todos os gentios." Rm.1.5 O objetivo da separação para o evangelho de Deus, que é o próprio Filho de Deus, prometido conforme as Escrituras proféticas, encarnado, na descendência davídica, ressurreto dos mortos, não só filho de Davi, filho do homem,mas também designado Filho de Deus com poder  pela ressurreição.Objetivo desta separação para o evangelho de Deus, Rm.1.1c,16, é a obediência por fé entre todos os gentios, Rm.1.5 hypakoen, obediência, formado de: hypo, sob, em baixo de, akouo, ouço, quer dizer, ouvir com atitude submissa. é uma sub missão, a missão pertence a Deus, a missão é dEle,não é de todos os gentios, mas entre todos os gentios, no meio de todas as etnias, haverá obediência por fé.É o evangelho da certeza que de todas as tribos, povos e raças, estaremos diante do trono em adoração, Ap.5:7-10., os cristãos de Roma haviam sido chamados para serem de Jesus, Rm.1:6, chamados para serem santos, Rm.1:7, para isso Paulo havia sido também chamado para testemunhar o Evangelho da Graça de Deus, At.20:24, não o da prosperidade, do fisiologismo, do toma lá dá cá, mas as boas novas da imerecida e grandiosa salvação de Deus em Cristo Jesus para conosco. Paulo vai expor este evangelho de poder salvador, recebido pela fé, justificando o pecador, Rm.1.16,17. Esta é a tese de sua epístola, aos romanos: O Evangelho de Deus. Estas são as boas novas que precisamos anunciar, proclamar, como fez o apóstolo, assim também a Igreja Apostólica. O evangelho da graça alcançará os eleitos pela evangelização, no coração revalacional da eleição, Rm.9,10 e 11, encontramos no cap.10 Deus é rico para com todos os que O invocam,v12 b; todo aquele que invocar será salvo, v.13;  invocar , crer, ouvir e pregar são elos do plano de Deus, por isso fomos enviados, v.15 Pés formosos, não apenas língua erudita, Is.50.4.Paulo ilustra como ninguém dentre os servos de Jesus esta harmonia entre erudição e evangelização, culto, letrado, bem formado, fervoroso, intrépido irriquieto. dele se disse: que as muitas letras  faziam delirar, At.26.24, e também que transtornava o mundo,, e que seu espírito se revoltava diante da idolatria, At.17:16 Paulo assim se expressou I Co.9.16 b "...porque ai de mim se não pregar o evangelho!" Rm.15:19 b  "tenho divulgadoo evangelho de Cristo." v 20 "esforçando-me, deste modo, por pregar o evangelho...Este é o grande desafio exemplificado e exposto pelo servo e apóstolo "   sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, A FIM DE GANHAR O MAIOR NÚMERO POSSÍVEL." I Co.9.19.Que o Senhor da seara nos dê esta graça!jc de JC.

Porque Não Podemos Ser Evangélicos





Porque Não Podemos Ser Evangélicos
Andrew Sandlin

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto


 

A Reforma Protestante redescobriu o evangelho da livre graça de Deus, que tinha sido obscurecido na igreja medieval por um moralismo que ignorava a profunda depravação do homem, por um sacerdotalismo que se colocava entre os homens e Deus, e por um eclesiasticismo que apagava a distinção Criador-criatura, tornado-se a própria igreja a nova Encarnação. No cerne da Reforma estava uma ênfase renovada sobre o evangelho bíblico-paulinoagostiniano: salvação somente pela graça de Deus, sobre a base da obra expiatória de Cristo, recebida pela fé somente. Os Reformadores e suas igrejas tinham orgulho de serem conhecidos como "evangélicos", visto que viam a si mesmos como pregando o puro evangelho, a mensagem do evangelho. Esse é o evangelicalismo bíblico.
    Mas o que se passa hoje por evangelicalismo está, em muitos pontos, bem longe do evangelicalismo da Reforma, assim como está em geral longe do ensino bíblico em outros pontos. Quando amigos perguntam se sou evangélico, rapidamente digo "Não". Porque freqüentemente eles identificam "evangélico" com "crer na Bíblia" e "pregar o evangelho", tento explicar que é precisamente devido ao fato do evangelicalismo não crer corretamente na Bíblia ou pregar o evangelho fielmente, que não me considero um evangélico e não posso ser um membro de uma igreja evangélica (isso é grandemente verdade do fundamentalismo moderno, que é simplesmente uma versão mais restritiva e provincial do evangelicalismo). O que talvez seja os seus três principais distintivos permanece em total contraste com a crença e prática bíblica e reformada do Cristianismo.
Um Evangelho Subjetivo, e não Objetivo
Embora os evangélicos modernos professem uma crença firme na Bíblia, no centro de sua religião não está a sua visão da Bíblia, mas sua visão do evangelho. O evangelicalismo orgulha-se sobre a centralidade do
evangelho e da salvação. É justamente aqui, contudo, que o evangelicalismo está mais poluído. Na verdade, ironicamente o suficiente, a visão evangélica do evangelho está mais perto daquela da Roma medieval do que do evangelho bíblico da Reforma. O Concílio de Trento, a resposta católica romana à Reforma, sustentou que a salvação é um empreendimento cooperativo entre Deus e o homem. Deus coloca o processo em movimento (no batismo), mas
o homem ajuda ao longo do processo. De acordo com Roma, o livre-arbítrio do homem desempenha uma grande parte em sua salvação. Os Reformadores reconheceram corretamente que isso destruiu o evangelho da graça de Deus. Abriu o caminho para o homem afirmar sua própria contribuição, bondade e justiça. Para os evangélicos, isso é quase uniformemente sua própria "decisão". Nesse ponto, eles são um com Roma. Os evangélicos são defensores da "regeneração por decisão". O evangelicalismo é essencialmente uma deturpação do novo nascimento, a institucionalização da experiência de conversão. A coisa importante sobre a salvação é a experiência do homem, seus sentimentos sobre ser salvo. Uma dose pesada desse experiencialismo foi introduzida na igreja no Wesleyianismo do
século dezoito, e tem sido uma marca do evangelicalismo desde então. A experiência de Wesley foi a de ficar "estranhamente aquecido" quando ouviu o evangelho, e essa experiência tornou-se uma peça central de sua teologia. (Para ser justo, a soteriologia de Lutero também era de certa forma autobiográfica, mas ela guiou-o em direção de uma salvação somente pela
obra de Deus. Para Calvino, em contraste, nossa salvação reside na obra objetiva da
expiação de Cristo. Os homens não são salvos pelo que experimentam; eles são salvos pelo que Cristo realizou. Em Sua grande obra redentora sobre a cruz e em Sua ressurreição, Cristo assegurou a salvação do Seu povo, cumprindo as exigências da lei ao substituir judicialmente os pecados dos pecadores. Quando o evangelho é pregado, ele atrai eficaz e irresistivelmente aqueles a quem Deus escolheu. Eles são conquistados por Cristo, o seu Redentor. Eles são trazidos sob seus joelhos em humilde submissão, e não podem fazer nada senão exercer fé na obra redentora de Jesus Cristo. Essa experiência, embora essencial, é um resultado da expiação objetiva de Cristo e da aplicação do evangelho pelo Espírito Santo. Para os evangélicos isso é muito sofisticado e também "intelectual". fato realmente central é que Deus perdoou os seus pecados, aceitou-os em Sua família, tornou-os felizes, e preparou-os um lar no céu. Para evangélicos, o evangelho centra-se na vontade e prazer do homem; para os Reformados, o evangelho centra-se na vontade e prazer de Deus. Porque ser um evangélico significa abraçar a sua forma de evangelho centrado no homem, não podemos ser evangélicos.
Uma Religião do Novo Testamento, e Não Bíblica
A ala Reformada da Reforma expressava a unidade do pacto de Deus no Antigo e Novo Testamento. Os evangélicos enfatizam a falta de unidade entre esses pactos, pois para os evangélicos o objetivo da Fé é reproduzir "o Cristianismo do Novo Testamento". Os evangélicos crêem em ¼ da Bíblia; os cristãos Reformados crêem numa Bíblia inteira. Evangélicos rotineiramente desprezam a autoridade do Antigo Testamento. A lei do Antigo Testamento, eles afirmam, é parte do "velho" pacto, e foi destinado somente para o antigo
Israel; hoje ouvimos apenas as palavras de Jesus, João, Paulo e assim por diante. Os evangélicos estão entre os mais ruidosos em insistir sobre "crer na Bíblia de capa a capa", mas não crêem que ¾ do que aparece entre as capas tenha qualquer relevância para hoje. Eles falam hipocritamente sobre "estrita inerrância bíblica", mas isso em geral é simplesmente "conversa piedosa", pois eles negam que as provisões do novo pacto estavam em operação no Antigo Testamento (Gl. 4:22-31). Eles não vêem muito do evangelho, se é que algo, no Antigo Testamento. E porque o evangelicalismo centra-se no evangelho, isso significa que o Antigo Testamento é largamente irrelevante. Funcionalmente, portanto, o termo "crente na Bíblia" não se aplica a maioria dos evangélicos. Um Evangelho Limitado, não a Fé Plena Isso leva diretamente à característica final do evangelicalismo, a qual os cristãos que crêem na Bíblia devem repudiar expressamente. Para os evangélicos, é o evangelho (limitada e erroneamente definido, é claro) que deveria impressionar nossas vidas. Para os Reformados, é a soberania de Deus e Seu governo régio absoluto na Terra que é impressionante. O evangelho evangélico não é meramente deturpado; é limitado. O evangelho evangélico é um fim em si mesmo. "Manter almas longe do inferno" é todo o significado da vida sobre a Terra. Para os Reformados, o significado da vida sobre a Terra é a submissão absoluta a Cristo, o nosso Redentor real, e o trabalho diligente para estender o Seu reinado na Terra. Evangelismo é um meio essencial para esse fim, mas não o próprio fim. Afirmar que o evangelismo é um fim em si mesmo é expor uma teologia deturpada e centrada no homem. O fim é a glória de Deus e, com referência ao Seu plano para a Terra, a expansão gradual, porém inexorável do Seu reino (Mt. 6:33; 13:31-34).
    Os evangélicos estão intensamente interessados no tipo de evangelismo deles. Porque esse evangelismo não é apenas deturpado, mas também limitado, ele não se relaciona com muitos aspectos da vida. Porque o evangelismo é o centro de sua religião e por não se relacionar com muitos aspectos da vida, a própria religião não se relaciona com muitos aspectos da vida. Porque sua religião não se relaciona com muitos aspectos da vida, eles tendem a pensar como os humanistas mundanos naquelas áreas sem relação com sua religião limitada. Esse é o porquê, em primeiro lugar, o método apologético evangélico compromete o evangelho, como Cornelius Van Til tão poderosamente demonstrou.
Os evangélicos estão dispostos a comprometer tudo, até Deus mesmo, por causa de seu ídolo precioso, o seu evangelho deturpado e limitado. Esse é o motivo da maioria deles não ver nada de errado em enviar seus filhos para escolas do governo, adotar uma psicologia secular, ensinar uma ciência evolucionária, eleger políticos ateus e endossar traduções errôneas da Bíblia. Essas áreas estão além do alcance de seu evangelho limitado. Tudo além do escopo de seu evangelho limitado é algo legal para uma perspectiva "neutra" (isto é, violadora do pacto).
Por essas razões, onde quer que o evangelicalismo moderno tenha florescido, ele tem bombardeado a ortodoxia bíblica histórica; eviscerado uma fé forte e teologicamente ancorada; e castrado uma religião robusta, vigorosa e abrangente. Seu sucesso tem sido o fracasso do Cristianismo bíblico. Conseqüentemente, ser um evangélico no sentido moderno é diluir e eventualmente destruir a Fé.

 
Fonte: Faith for All of Life, Julho 2000

Uma Poesia de Cordel Para Pedro Bial (vale a pena ler)



Autor: Antonio Barreto,
Cordelista natural de Santa Bárbara-BA, residente em Salvador.


Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, zé-ninguém
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme armadilha.


Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os heróis protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
professor, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos belos na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos emburrecer
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal.

FIM

Um Pouco de Exegese IITm 3.16-18 (Parte final)

 Rev. Jose clovis Falcao

Um segundo aspecto da Palavra no texto básico, II Tm.3.16-18. b) Utilidade: A Inspiração não é um fim em si, ela é ÚTIL em quatro dimensões1. ENSINO, didaskalian; 2.REPREENSÃO, elegkhon; 3.CORREÇÃO, epanorthosin; 4.EDUCAÇÃO, paideian, na justiça Em quatro oportunidades encontramos a preposição PROS ( para ), indica propósitos intermediários da Palavra. Alguns destaques do contexto anterior com relação ao ensino: esta é sua última carta, pastoral inclusive, a seu filho na fé, ministro Timóteo. Paulo afirma que foi designado pregador, apóstolo e MESTRE didaskalos 1.11;  orienta sua rede ministerial, 2.2, para INSTRUIR, didaksai; na defesa da fé  recomenda que o servo de Deus deve ser APTO para INSTRUIR, 2.24,didaktikon; e finalmente que Timóteo tem seguido de perto seu ENSINO, didaskalia, 3.10. Daí Paulo ministra sobre as Sagradas Escrituras. No contexto posterior, 4.2 recomenda que a exortação deve ser com toda longanimidade e DOUTRINA, didakhe; e que haverá tempo em que não suportarão a sã DOUTRINA, didaskalias, 4.3. O ensino da Palavra é fundamental. A Bíblia tb. é útil para a repreensão, refutação do erro e rejeição do pecado A terceira utilidade é correção ou seja, tornar reto, é o único uso do termo no NT, segundo a Chave Linguística, a Palavra restaura, Sal.19.7; Finalmente, EDUCA na justiça, treina, disciplina. O terceiro e último aspecto da Bíblia no texto fundamental, II Tm.3.16-18, é a finalidade. " a fim de que o homem de Deus seja perfeito ( artios ),[ adequado, capaz,qualificado, suficiente, hábil para preencher todos os requisitos ] e perfeitamente habilitado para toda boa obra." eksertismenos, particípio perfeito passivo, indica ação anterior à ação principal e seus efeitos durante ação do verbo principal, ou seja, a capacitação para toda boa obra ocorre potencialmente antes da perfeição de carater,mas efetiva-se durante esta qualificação. Carater precede carisma e ambos são fruto de vida alicerçada na Palavra da Verdade, manejemos bem, II Tm.2.15
 
 jc de JC

Os Filhos de Deus e a Cultura Popular


Os Filhos de Deus e a Cultura Popular
por
Mauro Meister



Quando Deus determinou criar a raça humana, ele estabeleceu alguns propósitos e parâmetros para um bom relacionamento entre criador e criatura. Esses propósitos e parâmetros são descritos pela Bíblia e por nossa teologia na forma de uma aliança. Deus fez uma aliança com a criatura e estabeleceu pelo menos três diferentes mandatos para a humanidade: o mandato espiritual (seu relacionamento com o Criador), o mandato social (seu relacionamento em família) e o mandato cultural (seu relacionamento com a sociedade). Não estarei surpreendendo ninguém se disser que quebramos os três! O homem negou seu Criador, desobedecendo suas ordens, quebrou os seus elos familiares com mentiras, acusações e esquivando-se de suas responsabilidades (Adão e Eva - marido e esposa - Caim e Abel -irmãos) e desenvolveu o mandato cultural da pior forma possível (poligamia, assassinato, brutalidade, etc.). Por curiosidade, verifique Gênesis 4:17-23. Coisas boas aconteceram, mas as ruins... prevaleceram.
Este artigo vai tratar do problema da quebra do terceiro mandato – o cultural. Como os cristãos podem e devem relacionar-se com o que tem acontecido no nosso mundo? Quais devem ser os nossos limites e a nossa influência na cultura em que vivemos? O que de fato tem acontecido com os cristãos na modernidade?
É fundamental que, antes de mais nada, o cristão conheça a sua cidadania: “Eles continuam no mundo... Eles não são do mundo...” (João 17:11,16). Nós somos cidadãos dos céus, mas as nossas passagens para lá ainda não chegaram, e enquanto estamos aqui temos muito o que fazer, sem no entanto esquecermos que somos de lá. O problema é que além de sermos muitos parecidos com o pessoal do lado de cá, muitas vezes nos deixamos influenciar com os erros do mundo, desobedecendo o mandato cultural.
Observando o que acontece nos Estados Unidos, de onde as missões que nos trouxeram o evangelho saíram, pode-se observar como as coisas estão se deteriorando rapidamente, e mais rápido ainda, chegando aqui. Ao contrário do nosso Brasil, os Estados Unidos nasceram de ideais religiosos, recebendo forte influência da Palavra de Deus. Hoje é proibido falar em Deus nas escolas públicas (professores que por ventura o façam correm o risco de ser demitidos); o mesmo povo que luta por salvar as baleias (o que se deve fazer), luta pela legalização do aborto e igualdade para os homossexuais (algo semelhante acontecendo no Brasil em 1997/98?). Onde chegamos!? Ora, estes são apenas exemplos dos extremos. Muitas coisas bem pequeninas tem influenciado comunidades inteiras de cristãos (estou falando de verdadeiros cristãos e não dos que apenas se chamam assim), e essas pequenas influências vão se tornando imensos tropeços. Por favor não me entenda mal. Não estou defendendo nenhum isolacionismo cristão (a história já comprovou que os monastérios não funcionam). Isto é errado. Mas penso que os cristãos precisam conhecer melhor o terreno em que estão pisando.
Como esta influência nos assalta? Já que nos livramos dos perigos de imperadores malucos como Nero e de ameaças terríveis como o Coliseu (a propósito, não há evidências claras de que cristãos tenham morrido no Coliseu), como livrar-nos da má influência cultural? (por favor, não é livrar-se da cultura, mas do que é podre nela). Em primeiro lugar, entendendo-a (devo estas idéias ao Dr. Kenneth Meyer em seu livro All God's Children and Blue Suede Shoes [“Todos os Filhos de Deus e Sapatos Azuis de Veludo” esta última parte referindo-se a uma música muito popular cantada por Elvis Presley] e ao Dr. David Wells, preletor no Francis Schaeffer Institute, Covenant Theological Seminary, Saint Louis, EUA, em setembro de 1992).
O grande problema que temos ao enfrentar a chamada “cultura popular” é que na verdade somos moldados por ela, não só naquilo que pensamos e sentimos, mas na forma como pensamos e sentimos. Como isso aconteceu?
Primeiro, filosoficamente. O fato é que os “grandes filósofos” conseguiram destruir toda a base para que o homem continue crendo em verdades absolutas. Tudo é relativo tudo é meia-verdade (não meia-mentira). Nos meios sociais a idéia de "contar uma mentirinha de vez em quando" é muito comum, afinal, foi por uma boa causa, não é mesmo? A cultura moderna apresenta um boa oportunidade para muitos aproveitarem e serem 'meio-cristãos' (precisamos urgentemente de uma teologia da meia-salvação, se é que já não inventaram). Portanto, nosso primeiro grande problema diante da cultura popular é a relativização da verdade.
Em segundo lugar, a cultura popular especializou-se em oferecer-nos gratificação instantânea (depois da Polaroid, o que falta inventar - lembranças eternas reveladas instantaneamente - nem acabamos de viver o momento e já o trocamos pela foto). Nós, cristãos modernos, estamos mergulhados na nossa cultura sem perceber o que de mal ela pode nos fazer. Faça um auto-teste de QCP (Quociente de Cultura Popular).
Se você for comprar uma TV, você prefere com controle ou sem controle? Se for fazer compras, qual a loja lhe chama mais a atenção, a loja com entrega imediata ou sem entrega imediata? Se for a um restaurante, prefere um com bufê ou aquele demorado a la carte? O telefone, sem fio ou com fio? (eu sempre preferi os primeiros). Faça as contas de quantos aparelhos de TV, rádios, gravadores, vídeo cassetes, CDs, PCs, Fax, telefones e demais controles remotos você tem em casa. Por aí dá prá se tirar uma idéia. O ter estas coisas todas não é o mal, deixar que elas moldem seus desejos é muito ruim. Se eu posso ter isto imediatamente, por que deixar para amanhã? (a mesma idéia da cultura inflacionária). Ora, tudo isto que a cultura Pop nos oferece matou outros valores que certamente demandam mais tempo. Por exemplo, por que perder tempo lendo um livro se eu posso ver o filme? E o pior, por que fazer algo que demanda da minha mente se eu tenho quem pensa por mim?
Aqui está, creio eu, o grande perigo para todos os cristãos com alto QCP. A cultura popular não só se especializou em gratificação imediata como também em moldar a mente daquele a quem gratifica. Ela lhe diz o que é bom e você perde o direito de pensar e analisar o que é realmente bom e agrada a Deus.
A cultura da gratificação instantânea invadiu a igreja! Esta foi a última arma do inimigo para destruir os filhos de Deus, e tem funcionado bem. Já há algum tempo temos as igrejas instantâneas, os crentes instantâneos, as curas instantâneas, líderes instantâneos, tudo instantâneo. Nada pode esperar, e tudo tem que ser como eu quero. As conseqüências são óbvias: não só a igreja tem que ser como eu a quero, com todo o tipo de gratificação instantânea que a cultura popular oferece, mas o Deus desta igreja tem que ser também moldado à imagem e semelhança da minha cultura. Não é de se admirar que o nosso povo ande tão confuso.
Não sei se este artigo vai ajudá-lo a entender um pouco de si mesmo e das coisas que lhe cercam. Porém recomendo: não espere entender tudo instantaneamente... Prá terminar, posso dizer que as respostas a estes problemas todos não aparecem instantaneamente, mas somente quando observamos as palavras de Paulo em Romanos 12:2 - “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”.
fonte:monergismo.com

Uma Visão Sobre Divórcio



Vivenciar o divórcio pode ser uma das experiências mais estressantes e dilacerantes da vida das pessoas. Vivênciá-lo dentro da igreja, no entanto, pode ser ainda pior.
Isso porque muitos cristãos sinceros, infelizmente ainda não obtiveram o conhecimento bíblico correto sobre o assunto e, por causa disso, são reticentes na sua relação com irmãos divorciados.

Esse post tem como objetivo lançar alguma luz sobre a questão. Primeiramente, é preciso que nos lembremos de que "... a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo" (Jo. 1.17).

A primeira pergunta que devemos nos fazer, portanto, é se os que vivem tragédias matrimoniais como o divórcio, por exemplo, também são dignos dessa "graça" e dessa "verdade" trazidas por Jesus. Creio que uma consciência cristã experiente tem a resposta certa para ela.

Um outro ponto importante é dizer que a Bíblia fala apenas de um divórcio, no texto de Jeremias 3:8, que diz o seguinte: "E vi que, por causa de tudo isto, por ter cometido adultério a rebelde Israel, a despedi, e lhe dei a sua carta de divórcio, que a aleivosa Judá, sua irmã, não temeu; mas se foi e também ela mesma se prostituiu".

Nesse texto, Deus está advertindo a Judá de que está procurando problemas. Ele, então, instruiu a Jeremias para que alertasse a Judá de que ela havia sido testemunha da infidelidade de sua irmã Israel, e que Ele a havia mandado embora e lhe dado carta de divórcio. Assim mesmo, Judá não se arrependeu (Jr. 3.6-8).

POR QUE A FALTA DE COMPREENSÃO SOBRE O DIVÓRCIO?

Quando Jesus foi questionado pelos fariseus, no evangelho segundo Marcos, "se é lícito ao marido repudiar sua mulher" ele respondeu, fazendo outra pergunta: "Que vos ordenou Moisés?"

A resposta deles foi: "Moisés permitiu lavrar carta de divórcio e repudiar" (Mc. 10.2-4).
 

Essa resposta dada pelos fariseus se refere à lei à qual o historiador Josefo, que viveu um pouco depois da época de Jesus, chama de "a lei dos judeus", e se encontra em Deuteronômio 24.1-4.

Esta é a lei de que trata Deuteronômio: "Se um homem tomar uma mulher e se casar com ela, e se ela não for agradável a seus olhos, por ter ele achado coisa indecente nela, e se ele lhe lavrar um termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir de casa; e se ela, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem..." (Dt. 24.1-2).

Isso estava vigente na época de Jesus, mas a situação em que os homens judeus viviam era bem diferente, pois eles, na realidade, não a praticavam, e tomavam outras esposas, sem se incomodar em pensar em divórcio.

Ora se não se divorciava, o que fazia, então, um homem daquela época com a primeira esposa, quando tomava outra? 

Simplesmente, punha-a de lado, não lhe dando documento algum. Assim, caso se arrependesse, tinha a esposa anterior sempre à sua disposição! Isso era uma crueldade para com as mulheres, contra a qual Jesus se insurgiu.

A palavra hebraica, usada no Antigo Testamento, para descrever esse "pôr de lado" ao qual nos referimos é shalach, diferente da palavra que significa divórcio (como utilizada em Jeremias 3.8) que é keriythuwth que, literalmente significa excisão ou corte do vínculo matrimonial.

Ora, shalach normalmente é traduzido por "repudiar". Então, as mulheres que eram "colocadas de lado" por seus maridos, sem carta de divórcio como mandava a lei, eram "repudiadas" e era contra essa espécie de repúdio que Jesus se opôs.

Quando, em Lucas 16.18 ele diz: "Quem repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério; e quem casa com a mulher repudiada pelo marido também comete adultério", ele está se revoltando contra uma prática cruel e injusta, porém não está se referindo ao divórcio.

Na verdade, no Novo Testamento, a palavra grega utilizada para "repúdio" vem do verbo apoluo, e é equivalente à palavra hebraica shalach ("deixar" ou "repudiar"). Já a palavra hebraica utilizada para "divórcio" é keriythuwthcujo equivalente no grego (língua na qual foi escrito o Novo Testamento) é apostasion.

Resumindo, para ficar mais claro: shalach, no hebraico, corresponde a apoluo, no grego e significa "repúdio", em português. Keriythuwth, no hebraico, corresponde à palavra grega apostasion e significa "divórcio", de fato, em português. A não compreensão dessa diferença é que provoca tanta confusão e tanta incompreensão em nossos dias!
QUE PALAVRAS JESUS SE UTILIZOU PARA TRATAR DO ASSUNTO?

As passagens bíblicas nas quais Jesus tratou deste assunto incluem Lucas 16.17-18; Mateus 19.9, Marcos 10.10-12 e Mateus 5.32. Nessas passagens, Jesus utilizou onze vezes a palavra apoluo, em uma de suas formas e, em todas essas ocasiões, o que ele proibiu foi o apoluo, ou seja, o repúdio. Ele jamais proibiu apostasion, a carta de divórcio exigida pela lei judaica!

Isto posto, devemos traduzir a palavra grega apoluo por divórcio? A tradução Revista e Corrigida de Almeida, que é a mais antiga em língua portuguesa sempre usou "deixar" e "repudiar". Do mesmo modo, emprega essas mesmas palavras a Revista e Atualizada. 

E Por Que As Pessoas Passaram a Ler Diferente?
Essa é uma pergunta sobre a qual vale a pena discorrer um pouco, pois, no meio evangélico, principalmente, começou-se a ler: "aquele que divorciar sua mulher" nas passagens em que Jesus, com muita clareza, disse: "aquele que repudiar ou abandonar sua mulher"!

Ao que tudo indica, esse equívoco começou em 1611, quando a rei Tiago encomendou a versão mais antiga e, hoje em dia, mais popular da língua inglesa (a chamada King James Version). Nessa edição ocorreu um problema: em uma das onze vezes que Jesus usou o termo, os tradutores escreveram "divorciada", ao invés de "abandonada" ou "repudiada".

Isso aconteceu em Mateus 5.32, onde eles colocaram: "E aquele que se casar com a divorciada comete adultério", embora a palavra grega não seja apostasion, mas uma forma de apoluo - situação que não inclui carta de divórcio para a mulher, pois ela, tecnicamente permaneceria casada.

A versão Standard Americana corrigiu o erro em 1901, mas nunca chegou a ser tão popular como a King James Version. Na verdade, tudo o que foi impresso depois (incluindo os léxicos gregos e americanos) foi influenciado por essa ocorrência. De onde resulta o fato incontestável de que a tradição nos ensinou a ter em mente "divórcio", mesmo quando lemos "repúdio". 

CONCLUSÃO
Tudo o que tivemos a oportunidade de examinar, através deste post, não pode e nem teve a pretensão de defender a prática do divórcio. Biblicamente falando, todos sabemos que o matrimônio foi planejado para durar a vida toda.

Portanto o divórcio é um privilégio, no sentido de servir como um corretivo apenas para situações intoleráveis. 

Mesmo assim, não deixa de ser uma tragédia: sentimento de culpa, perda da auto-estima, um agudo senso de ter falhado, solidão, rejeição, críticas dos familiares e dos irmãos em Cristo, problemas na educação dos filhos e uma série de outras graves conseqüências são os resultados concretos que afligem os divorciados.

No entanto, a graça de Cristo é abundante para eles também. Jesus sempre se identificou com os que sofrem e com os que, reconhecendo o seu pecado, confessam-no e o deixam. A igreja foi planejada para ser uma comunidade terapêutica, que cura as feridas; não que as fazem doer mais.

Portanto, nosso desejo sincero é que deixemos de ser juízes, pois não foi para isso que Cristo nos chamou. E que tenhamos mais amor, mais compreensão e mais empatia por esses nossos queridos irmãos divorciados. Por eles também Jesus derramou seu precioso sangue purificador!
Tony Ayres


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