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Os Males do Calvinismo

 




Os Males do Calvinismo 

 

Frank B. Beck

 

 

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto[1]

 

Em anos recentes tem havido uma ênfase crescente sobre a teologia calvinista. A republicação dos comentários de João Calvino sobre as Escrituras e o livro de John Gill, The Body of Divinity; The Reign of Grace, de Abraham Booth; e os sermões de Charles Haddon Spurgeon; juntamente com livros recentes tais como: The Reformed Doctrine of Predestination, de Loraine Boettner; Calvinism, de Abraham Kuyper; The Sovereignty of God, de A. W. Pink; também o aumento da popularidade do Christian Reformed Hour com umas 200 estações de rádio reproduzindo sua programação e sua circulação mensal do Back to God Family Altar a 55.000 leitores e outras antigas publicações em contínua reimpressão: The Gospel Standard, Signs of The Times, Zion’s Witness, e Zion’s Lanmark é ampla evidência que o Calvinismo está longe de estar morto.

I. O que é Calvinismo?

O Calvinismo é um sistema de crença. É um sistema de verdade. É uma forma de ensinar a Bíblia, popularizada por João Calvino, o grande Reformador Protestante. Por conseguinte, é chamado “Calvinismo”. Calvino tomou-o de Agostinho, bem como da Escritura, e Agostinho tomou-o dos escritos de Paulo nas Escrituras e da igreja primitiva, e Paulo recebeu-o, “não de homem, mas de Deus” (Gálatas 1:11, 12).

O Calvinismo declara que o pecador está literalmente “morto em delitos e pecados” (Efésios 2:1) e, portanto, não pode fazer nada em favor da salvação de sua alma. Ele declara que o homem tem uma vontade e, portanto, não é uma máquina, mas sua vontade não é livre nas questões espirituais, para as quais está morto. Ele é mantido cativo pelo Diabo (2 Timóteo 2:26) e não busca a Deus (Romanos 3:11).

O Calvinismo crê que Cristo morreu somente pelos eleitos, ou Suas ovelhas, num sentido salvífico (João 10:15; 1 Pedro 2:24, 25). Crê que Cristo salva a quem Ele quer (João 5:21; Romanos 9:18); que a regeneração do Espírito Santo cria o verdadeiro arrependimento e o dom da fé no coração daqueles por quem Cristo morreu (2 Timóteo 2:25 e Hebreus 12:2).

O Calvinismo declara que os propósitos de Deus nunca podem ser frustrados (Isaías 46:10; Salmos 115:3).

Que crença chocante! Essa é a fé querida por aqueles chamados de “calvinistas”. É um erro chamar alguém que sustenta essas visões mencionadas de “hiper-calvinistas”. Eles não são hiper-calvinistas, mas calvinistas.

II. Quais são alguns dos “males” do Calvinismo?

Primeiro, o Calvinismo humilha o homem, e esse é deveras um grande mal! Aos olhos do homem carnal ou natural, o Calvinismo tira cada palha sobre a qual o homem se apoiaria. Como o profeta Miquéias, que era odiado pelo ímpio Rei Acabe, pois nunca profetizava o bem para ele, mas sempre o mal (2Cr. 18:7). O Calvinismo lhes diz que o “a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Romanos 8:7, 8); os homens são “maus” (Lucas 11:13), “por natureza filhos da ira” (Efésios 2:3).

Por causa da depravação total e inabilidade do homem, o Calvinismo declara que o homem não tem liberdade de vontade. Ele pode escolher apenas o pecado. Sua vontade é controlada por sua natureza, e sua natureza é corrupta. Esse é um grande mal! O homem não gosta de ser informado que não pode fazer o que quer. Ele não gosta de ouvir a Escritura: “Não há ninguém que busque a Deus” (Romanos 3:11); ou as palavras de Cristo: “E não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:40); “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia”; ou quando Ele disse a Jerusalém: “Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos… e tu não quiseste” (Mateus 23:37). O homem carnal gosta de pensar que há certa bondade em todos os homens, que todos os homens estão buscando a Deus, e que eles podem se arrepender e vir a Jesus Cristo a qualquer momento que assim decidirem.

Segundo, o Calvinismo exalta a Deus. Ele não somente rebaixa o homem, sua vontade, obras e dignidade ao pó, mas apresenta Deus como DEUS! Coloca Deus sobre o trono. Ele diz, Deus pode e de fato faz tudo o que quer; Deus é absolutamente livre e independente. O Calvinismo confessa: “Mas o nosso Deus está nos céus; fez tudo o que lhe agradou” (Salmos 115:3); o Filho do homem desperta, ou vivifica, “aqueles que quer” (João 5:21); o Espírito Santo dá dons espirituais e habilidades a vários membros do corpo de Cristo, “repartindo particularmente a cada um como quer” (1 Coríntios 12:11); e “como lhe agrada” (v. 18). Ele proclama com regozijo que Deus “faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11) e que “dele… são todas as coisas” (Romanos 11:36).

Terceiro, o Calvinismo honra a morte de Cristo. Ele diz que a morte do Senhor Jesus Cristo realmente salva! Que Cristo de fato morreu no lugar do crente! Crê plenamente nas Escrituras: “Cristo morreu por nossos pecados” (1 Coríntios 15:3) e “Cristo morreu por nós” (Romanos 5:8). Visto que Ele morreu em nosso lugar e pagou a penalidade por nossos pecados, nós fomos libertos; isso porque Deus não demandará que o pagamento seja feito duas vezes; primeiro das mãos sangrentas do meu Substituo, e então das minhas. Deus não cobrará a dívida duas vezes. Se Cristo morreu por todos os homens sem exceção, então todos os homens sem exceção serão salvos. Como pode alguém perder-se e ir para o inferno por seus pecados se Cristo morreu por ele, pagou pelos seus pecados e expurgou os mesmos (João 1:29)? Mas é evidente que nem todos os homens são salvos (Mateus 7:13), pois Cristo não poderia ter sofrido pelos pecados daqueles que morrem em seu pecado (João 8:24). Cristo “tira o pecado do mundo” (João 1:29), mas não o pecado dos incrédulos. Como poderia, visto que o pecado deles “permanece”? (João 9:41).

Cristo suportou verdadeiramente os pecados daqueles por quem morreu em seu corpo sobre a cruz, que foram sarados por suas feridas (1 Pedro 2:24 e Isaías 53), e voltaram ao Pastor e Bispo de suas almas (v. 25). Eles foram “justificados” (tempo passado) por Cristo, pois este morreu por eles (Romanos 5:9). Ele redimiu-os (Efésios 1:7). Ele lavou-os de seus pecados em Seu sangue (Apocalipse 1:5). Eles foram “reconciliados” (tempo passado) com Deus por Cristo (Romanos 5:10); e seus pecados não são imputados ou cobrados deles (2 Coríntios 5:19). Tudo isso e mais Ele fez por aqueles por quem morreu. Visto que isso não é verdade de todos os homens individualmente, Cristo não morreu por todos os homens sem exceção, mas somente pelo “mundo” dos eleitos. Isso é o que a Palavra de Deus ensina. Cristo se deu a si mesmo em “preço de redenção por todos” (1 Timóteo 2:6), mas no sentido de dar Sua vida pelas ovelhas (João 10:15). Cristo é a propiciação pelos pecados do mundo todo (1 João 2:2), porém somente no sentido de que Ele realmente morreu, não pelos pecados dos judeus eleitos apenas, a quem João ministrava (ver Gálatas 2), mas também pelos pecados de todo o mundo gentil eleito. Ele se deu “em resgate de muitos” (Marcos 10:45). Aqueles por quem Cristo morreu são todos salvos. Ele salvou-os por Sua morte no lugar deles. Ele não morreu em vão.

Quarto, o Calvinismo reconhece o poder do Espírito Santo. O pecador está “morto” espiritualmente. Ele não pode fazer nada. Não pode ouvir o evangelho, desejar, arrepender-se ou crer. Esse é outro “mal” do Calvinismo. O homem gosta de pensar que tem alguma parte em sua salvação. Mas o Calvinismo dá toda a glória ao Espírito Santo na regeneração. Ele é soberano. É o Espírito Santo que “vivifica” ou dá vida (João 6:63). O Espírito Santo dá o novo nascimento a quem quer (João 3:3-8). Se já nascemos de novo, é porque o Espírito Santo desejou e fez isso. É pelo Espírito Santo que somos convencidos do pecado (João 16:7-11); que Cristo é revelado a nós (1 Coríntios 2:9-14); que confessamos que Jesus é Senhor (1Coríntios 12:3); e temos qualquer dom espiritual com o qual servir a Deus (1 Coríntios 12:11); ou qualquer desejo de fazê-lo (Romanos 5:5 e Gálatas 5:22, 23). O Calvinismo faz-nos dependentes somente do Espírito Santo.

Quinto, o Calvinismo magnifica a graça de Deus. Sim, os calvinistas vão ao extremo sobre a graça de Deus, se isso é possível. Pense! Embora o pecador esteja morto em pecado e ódio a Deus, e mereça a ira de Deus, e a despeito do fato que Deus não nos deve nada, visto ter criado o homem reto, que grande graça essa que Deus tenha elegido alguns de nós à vida eterna e fé salvífica (Atos 13:48)! Que Ele tenha enviado Seu Filho unigênito para levar os nossos pecados em Seu próprio corpo sobre a cruz (Isaías 53:6); no devido tempo envia Seu Espírito Santo para nos vivificar; e nos perdoa plena, livremente e para sempre de todas as nossas culpas e pecados (Efésios 1:7)! Que graça!

Sexto, o Calvinismo dá segurança eterna aos crentes. Esse é um mal enorme! É chamada de uma “doutrina perigosa” por muitos. Todavia, existem tantas passagens da Escritura ensinando a veracidade dessa doutrina, que eu quase não sei por onde começar. Uma pessoa não precisa passar do oitavo capítulo de Romanos. Esse capítulo começa com “nenhuma condenação” para aqueles que estão em Cristo (versículo 1); continua com nenhuma acusação contra aqueles em Cristo (versículos 31-34); e conclui com nenhuma separação para aqueles que estão em Cristo (versículos 35-39). No versículo 28, Deus chama os eleitos “segundo o Seu propósito”. Nos versículos seguintes é dito que Deus os conhece de antemão, predestina, chama, justifica e glorifica-os – todos eles, e SOMENTE eles. Leia Romanos 8:28-31 e observe as palavras “daqueles” e “aos que”! Quão inclusivo e exclusivo é isso. Cada um deles Deus glorificará com certeza. Veja também João 6:39 e João 10:26-30.

Sétimo, o Calvinismo dá o entusiasmo correto à pregação do evangelho. Se eu sei que Deus tem um povo que Ele chamará (2 Timóteo 2:10), e que há certo número de pessoas a quem Deus o Pai deu ao Filho, e que todos eles virão a Ele (João 6:37), e que as ovelhas, por quem Cristo dá a Sua vida, ouvirão Sua voz e O seguirão (João 10:26-27), e que a Palavra de Deus não voltará vazia, mas cumprirá o que lhe agrada e prosperará naquilo para o qual Ele a enviou (Isaías 55:11); isso deveria me fazer perguntar: “Bem, por que pregar então? Por que não enviar outros?”? Não! Há toda razão para a pregação. Seria tão tolo quanto perguntar: “Por que pescar então?”, visto que eu sei que o lago está cheio de peixe; ou, “Por que trabalhar então?”, visto ter certeza que conseguirei dinheiro suficiente para sustentar eu e a minha família. Tal fato não foi um obstáculo à pregação do apóstolo Paulo, quando ele considerou trabalhar em Corinto. O Senhor lhe apareceu numa visão e disse: “Não temas, mas fala, e não te cales… pois tenho muito povo nesta cidade” (Atos 18:10). Isso foi após o Redentor ressurreto dizer: “É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” (Mateus 28:18-20).

 

Fonte: The Evils of Calvinism, Frank B. Beck, Predestinarian Press

 

 

 

 

 



[1] E-mail para contato: felipe@monergismo.com. Traduzido em junho/2008.

fonte:monergismo.com 

TULIP- Pontos da doutrina da graca!

Rev. André do Carmo Silvério


É muito comum se ouvir falar sobre “Os Cinco Pontos do Calvinismo”. Eu mesmo, quando me tornei aluno da classe de catecúmenos, com a finalidade de ser membro da Igreja Presbiteriana do Brasil, lembro-me de ouvir por várias vezes falar sobre esse assunto. Contudo, meu raciocínio não era outro, senão, o de achar que o autor destes pontos era de fato o próprio reformador do século XVI: João Calvino. Mas somente no Seminário pude ter um contato mais próximo com obras literárias que falavam sobre o assunto, e, desta forma, creio ter sido esclarecido sobre o que realmente vem a ser “Os Cinco Pontos do Calvinismo”.

Portanto, o objetivo deste pequeno artigo é esclarecer de forma simples quem de fato escreveu os chamados “Cinco Pontos do Calvinismo”, por qual razão e porque eles são “cinco pontos” ao invés de sete ou dez. Além disso, procuraremos destacar a sua relevância para a nossa teologia.


1. Autoria

Ao contrário do que muitos pensam, não foi João Calvino quem escreveu “Os Cinco Pontos do Calvinismo”. Talvez algumas pessoas ficarão impressionadas com esta afirmação. No entanto, a magna pergunta que se faz é: Se não foi Calvino, quem foi então? “Estes cinco pontos foram formulados pelo Sínodo de Dort, Sínodo este convocado pelos estados Gerais (da Holanda) e composto por um grupo de 84 Teólogos e 18 representantes seculares, entre esses estavam 27 delegados da Alemanha, Suíça, Inglaterra e outros países da Europa reunidos em 154 Sessões, desde 13 de novembro de 16 18 até maio de 1619” . [1] Portanto, peca por ignorância quem afirma ser João Calvino o autor destes cinco pontos, porque na verdade, a afirmação correta é que estes “pontos” foram fundamentados tão somente nas doutrinas ensinadas por ele. Aliás, este sistema doutrinário, se assim podemos chamá-lo, foi elaborado somente 54 anos após a morte do grande reformador (1509-1564).

 

2. Razão de sua Escrita

Os Cinco Pontos do Calvinismo foram formulados em resposta a um “documento que ficou conhecido na história como ‘Remonstrance' ou o mesmo que ‘Protesto'”, [2]apresentado ao Estado da Holanda pelos “discípulos do professor de um seminário holandês chamado Jacob Hermann, cujo sobrenome latino era Arminius (1560-1600). Mesmo estando inserido na tradição reformada, Arminius tinha sérias dúvidas quanto à graça soberana de Deus, visto que era simpático aos ensinos de Pelágio e Erasmo, no que se refere à livre vontade do homem”. [3] Este documento formulado pelos discípulos de Arminius tinha como objetivo mudar os símbolos oficiais de doutrinas das Igrejas da Holanda (Confissão Belga e Catecismo de Heidelberg ), substituindo pelos ensinos do seu mestre. Desta forma, a única razão pela qual Os Cinco Pontos do Calvinismo foram elaborados era a de responder ao documento apresentado pelos discípulos de Arminius.


3. Porque Cinco Pontos?

Este documento formulado pelos alunos de Jacob Arminius tinha como teor cinco principais pontos, conhecidos como “Os Cinco Pontos do Arminianismo”. E como já dissemos logo acima, em resposta a este Cinco Pontos do Arminianismo, o Sínodo de Dort elaborou também o que conhecemos como “Os Cinco Pontos do Calvinismo” ao invés de sete ou dez. Estes pontos do calvinismo são conhecidos mundialmente pela palavra TULIP, um acróstico popular que na língua inglesa significa:

T otal DepravityTotal Depravação
U nconditional ElectionEleição Incondicional
L imited AtonementExpiação Limitada
I rresistible GraceGraça Irresistível
P erseverance of SaintsPerseverança dos Santos

 

4. Os Cinco Pontos do Arminianismo Versus Os Cinco Pontos do Calvinismo [4]

 

Arminianismo

Calvinismo

 

1. Vontade Livre – O arminianismo diz que a vontade do homem é “livre” para escolher, ou a Palavra de Deus, ou a palavra de Satanás. A salvação, portanto, depende da obra de sua fé.

 

1. Depravação Total – O calvinismo diz que o homem não regenerado é absolutamente escravo de Satanás, e, por isso, é totalmente incapaz de exercer sua própria vontade livremente (para salvar-se), dependendo, portanto, da obra de Deus, que deve vivificar o homem, antes que este possa crer em Cristo.

 

 

2. Eleição Condicional – O arminianismo diz que a “eleição é condicional, ou seja, acredita-se que Deus elegeu àqueles a quem “pré-conheceu”, sabendo que aceitariam a salvação, de modo que o pré-conhecimento [de Deus] estava baseado na condição estabelecida pelo homem.

 

2. Eleição Incondicional – O calvinismo sustenta que o pré-conhecimento de Deus está baseado no propósito ou no plano de Deus, de modo que a eleição não está baseada em alguma condição imaginária inventada pelo homem, mas resulta da livre vontade do Criador à parte de qualquer obra de fé do homem espiritualmente morto.

 

 

 

3. Expiação Universal – O arminianismo diz que Cristo morreu para salvar não um em particular, porém somente àqueles que exercem sua vontade livre e aceitam o oferecimento de vida eterna. Daí, a morte de Cristo foi um fracasso parcial, uma vez que os que têm volição negativa, isto é, os que não querem aceitar, irão para o inferno.

 

 

3. Expiação Limitada – O calvinismo diz que Cristo morreu para salvar pessoas determinadas, que lhe foram dadas pelo Pai desde toda a eternidade. Sua morte, portanto, foi cem por cento bem sucedida, porque todos aqueles pelos quais ele não morreu receberão a “justiça” de Deus, quando forem lançados no inferno.

 

4. A Graça pode ser Impedida – O arminianismo afirma que, ainda que o Espírito Santo procure levar todos os homens a Cristo (uma vez que Deus ama a toda a humanidade e deseja salvar a todos os homens), ainda assim, como a vontade de Deus está amarrada à vontade do homem, o Espírito [de Deus] pode ser resistido pelo homem, se o homem assim o quiser. Desde que só o homem pode determinar se quer ou não ser salvo, é evidente que Deus, pelo menos, “permite” ao homem obstruir sua santa vontade. Assim, Deus se mostra impotente em face da vontade do homem, de modo que a criatura pode ser como Deus, exatamente como Satanás prometeu a Eva, no jardim [do Éden].

 

4. Graça Irresistível – O calvinismo entende que a graça de Deus não pode ser obstruída, visto que sua graça é irresistível. Os calvinistas não querem significar com isso que Deus esmaga a vontade obstinada do homem como um gigantesco rolo compressor! A graça irresistível não está baseada na onipotência de Deus, ainda que poderia ser assim, se Deus o quisesse, mas está baseada mais no dom da vida, conhecido como regeneração. Desde que todos os espíritos mortos (= alienados de Deus) são levados a Satanás, o deus dos mortos, e todos os espíritos vivos (= regenerados) são guiados irresistivelmente para Deus (o Deus dos vivos), nosso Senhor, simplesmente, dá a seus escolhidos o Espírito de Vida. No momento que Deus age nos eleitos, a polaridade espiritual deles é mudada: Antes estavam mortos em delitos e pecados, e orientados para Satanás; agora são vivificados em Cristo, e orientados para Deus.

 

 

5. O Homem pode Cair da Graça – O arminianismo conclui, muito logicamente, que o homem, sendo salvo por um ato de sua própria vontade livremente exercida, aceitando a Cristo por sua própria decisão, pode também perder-se depois de ter sido salvo, se resolver mudar de atitude para com Cristo, rejeitando-o! (Alguns arminianos acrescentariam que o homem pode perder, subseqüentemente, sua salvação, cometendo algum pecado, uma vez que a teologia arminiana é uma “teologia de obras” – pelo menos no sentido e na extensão em que o homem precisa exercer sua própria vontade para ser salvo). Esta possibilidade de perder-se, depois de ter sido salvo, é chamada de “queda (ou perda) da graça”, pelos seguidores de Arminius. Ainda, se depois de ter sido salva, a pessoa pode perder-se, ela pode tornar-se livremente a Cristo outra vez e, arrependendo-se de seus pecados, “pode ser salva de novo”. Tudo depende de sua continua volição positiva até à morte!

 

 

5. Perseverança dos Santos – O calvinismo sustenta muito simplesmente que a salvação, desde que é obra realizada inteiramente pelo Senhor – e que o homem nada tem a fazer antes, absolutamente, “para ser salvo” -, é óbvio que o “permanecer salvo” é, também, obra de Deus, à parte de qualquer bem ou mal que o eleito possa praticar. Os eleitos ‘perseverarão' pela simples razão de que Deus prometeu completar, em nós, a obra que ele começou. Por isso, os cinco pontos de TULIP incluem a Perseverança dos Santos .

 

5. Considerações Finais

Para inteirar o leitor do todo da história, Spencer nos diz que após o Sínodo de Dort se reunir em 154 Sessões num “completo exame das doutrinas de Arminius e comparar cuidadosamente seus ensinos com os ensinos das Escrituras Sagradas, chegaram à conclusão que os ensinos de Arminius eram heréticos”. [5] “E não somente isto, mas o Concílio impôs censura eclesiástica aos ‘remonstrantes' depondo-os dos seus cargos, e a autoridade civil (governo) os baniu do país por cerca de seis anos”. [6]

Diante disso, creio que a diferença crucial entre o Arminianismo e o Calvinismo se resume na palavra Soberania. Enquanto os calvinistas entendem que Deus opera a salvação na vida do ser-humano conforme a sua livre e soberana vontade, os arminianos salientam que o homem é capaz de por si só querer ou não ser salvo. Se partirmos da premissa que o homem está completamente morto diante de Deus como nos ensina Efésios 2:1, entenderemos porque a salvação depende tão somente da graça e da misericórdia do SENHOR, pois “não depende de quem quer ou quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9:16). Portanto, creio que os objetivos deste artigo foram de fato alcançados, demonstrando assim a verdadeira história dos “Cinco Pontos do Calvinismo”. Que assim, queira o Senhor nosso Deus nos abençoar e nos dar sempre a graça de sermos verdadeiros propagadores da história reformada.


NOTAS:

[1] - Tradução livre e adaptada do livro The Five Points of Calvinism, www.unifil.br/teologia/arquivos/ cincopontoscalvinoesboco.pdf

[2] - The Five Points of Calvinism, p. 1, ob.cit.

[3] - Duane E. Spencer, TULIP, Os Cinco Pontos do Calvinismo à Luz das Escrit uras, p. 111-112, Parakletos, 2ª Edição – São Paulo – 2000.

[4] - Esta síntese foi retirada do livro TULIP , p. 15-19.

[5] - TULIP , p. 112.

[6] - The Five Points of Calvinism, p. 6.

 

Rev. André do Carmo Silvério

Pastor da Igreja Presbiteriana do Jardim Girassol – Guarulhos,
Professor de Teologia Sistemática no Instituto Bíblico Presbiteriano Rev. Boanerges Ribeiro e Secretário de Mocidade da Confederação Norte Paulistano

 

Comentário Reformado - A missão do Filho

Efésios 1:7-10 — Comentário Reformado

A missão do filho

Efésios 1:7–10

E ele nos fez conhecer o mistério de sua vontade, de acordo com seu bom prazer, que ele propôs em Cristo, a ser efetivado quando os tempos atingirem sua realização - reunir todas as coisas no céu e na terra sob uma cabeça. mesmo Cristo. (Efésios 1:9–10)

“Você está dentro, você está fora.” Durante uma recente entrevista à National Public Radio, um autor descreveu sua experiência em um metrô de Nova York. Um homem razoavelmente vestido, mas aparentemente perturbado, atravessou a multidão, apontando para os indivíduos e dirigindo-se a eles com estas palavras de escolha: “Você entrou, saiu”. Não havia rima aparente ou razão para a escolha. Um escolhido para estar “em” pode estar mal ou bem vestido, preto ou branco, homem ou mulher. Às vezes, duas ou três seguidas estariam “dentro” e, de repente, outra pessoa estaria “fora”. “Você está dentro, está dentro, está dentro... você está fora.” O homem enlouquecido que fez escolhas sem motivo algum se aproximou do autor, cujo coração involuntariamente começou a bater e sua respiração acelerou em antecipação à escolha vindoura. Foi bobo. Além do perigo potencial do homem enlouquecido, não havia nada a ganhar ou a perder ao ser escolhido. Não havia competição a ser vencida, nenhuma qualificação a ser cumprida. Quem se importava se você fosse um perdedor neste jogo? O homem chegou ainda mais perto, apontando um dedo para jovens ou idosos, sem distinção: “Você entrou, você saiu.” Finalmente, ele procurou o autor, apontou o dedo para o peito e disse: “Você entrou”. O autor disse mais tarde que não podia deixar de sentir uma espécie de euforia. Ele estava entre os escolhidos. Escolhido para quê? Ele não sabia. Ele sabia que não fazia sentido se orgulhar de ter sido escolhido, mas não pôde deixar de sentir que havia algum privilégio conquistado, alguma aprovação obtida ou alguma recompensa merecida agora que ele estava entre os escolhidos. Ele se sentiu especial por ter sido escolhido, mas ao mesmo tempo se sentiu tolo por apreciar uma distinção que não tinha benefícios aparentes.

O mundo deve olhar para os cristãos bíblicos com algum grau de perplexidade, se não desdém, a ponto de parecermos tão orgulhosos de sermos escolhidos. Afinal, se houver alguma verdade em nossa mensagem de que o amor de Deus é imerecido, não merecido e incondicional, então ser escolhido não tem nada a ver com a qualificação para ele. A mensagem bíblica da escolha de Deus nunca deve inspirar orgulho; supõe-se estimular a gratidão e a humildade. E, no entanto, é tão fácil ficar preso no orgulho teológico sobre a correção de nossa mensagem que podemos ser tentados a agir como se merecêssemos nossa predestinação, porque a entendemos tão bem. Se realmente entendêssemos no nível do coração (e também no nível intelectual) o que a predestinação oferece, nossos peitos não estourariam de orgulho eclesiástico; ao contrário, todo o nosso ser se curvaria diante de Deus em profunda humildade e serviço agradecido.

No capítulo anterior, exploramos por que o apóstolo Paulo nos apresentaria esse ensino difícil sobre a escolha imerecida de Deus pelos seus eleitos. A resposta foi para que aqueles que não têm base para esperança em si mesmos ou em sua situação confiem na provisão de Deus Pai e não na sua. Mas você deve se lembrar que esse foi apenas o primeiro motivo de louvor de Paulo. Nesta longa frase grega que está por trás dos versículos 2–14 de nossas Bíblias em português, há três sucessivas ondas de louvor. Nos versículos 3, 6 e 14, Paulo usa palavras paralelas sobre o louvor de Deus para apoiar a obra do Pai, Filho e Espírito Santo na escolha de nós. Passamos agora à segunda faixa, onde o trabalho e os benefícios do Filho são descritos. O objetivo aqui não é principalmente explicar por que a predestinação existe, mas mostrar seus benefícios. Saber que nossa salvação da eternidade para a eternidade pode ser apenas uma abstração para o debate teológico, se não houver alguns benefícios que afetem nossa vida diária. Quais são os benefícios que decorrem da predestinação e que resposta eles devem produzir em nós?

OS BENEFÍCIOS DA RECLAMAÇÃO (1:7–8)
Paulo usa dois termos-chave para falar da obra do amado Filho de Deus (v. 6) quando estamos unidos a ele (ou “nele”) (Efésios 1: 7): redenção e remissão (traduzido como “perdão” na NVI). Ambos contribuem para o conceito bíblico de recuperação, pelo qual algo que deu errado é corrigido novamente.

Redenção - e sua causa (1:7a)
O processo de recuperação que Paulo descreve primeiro é a “redenção” (Efésios 1:7a). O resgate envolve o pagamento de um resgate para recuperar algo que foi retirado ou mantido em cativeiro. O pecado (tanto nosso pecado pessoal quanto a natureza pecaminosa que herdamos de Adão) tira a justiça que Deus pretendia caracterizar nossas vidas e nos mantém reféns dos propósitos de Satanás. Além da provisão de Cristo, existiríamos perpetuamente em uma prisão de culpa e vergonha. Não podemos escapar de nossas ações. Eles também estão contaminados pelo nosso pecado. Temos que ser resgatados deste estado pecaminoso por algo fora de nós mesmos. O preço do nosso resgate do cativeiro do pecado é o sacrifício do Filho de Deus. [25] Pelo dom de sua vida, somos libertados de nosso cativeiro para o pecado. Aqui, como em outros lugares (por exemplo, Col. 1:20), essa redenção está claramente ligada ao sangue derramado de Cristo na cruz. Paulo também enfatiza a natureza redentora do “sangue” de Jesus em Romanos 3:25; 5:9; e honramos esse sacrifício redentor no sacramento da Ceia do Senhor (1 Cor. 10:16; 11:25, 27).

Conhecemos as verdades tão bem que pode ser difícil para elas ainda nos afetarem como o apóstolo pretende. Nós, que fomos feitos à imagem de Deus, santos e privilegiados, através da queda de nossos primeiros pais, nos tornamos escravos do pecado e sujeitos a suas penas para sempre. No entanto, Deus nos amou tanto que enviou seu próprio Filho para morrer em nosso favor. Somos comprados por um preço, não com coisas perecíveis, como prata e ouro, mas com o precioso sangue do Senhor Jesus (1 Pedro 1:18–19). Com seu sangue, o Cordeiro morto antes da fundação do mundo comprou pessoas para Deus de todas as tribos e línguas, povos e nações (Ap 5: 9; 13: 8; e ver Ef 2:13).

Ao longo de uma estrada perto de St. Louis, uma fileira de pereiras florescendo alinha-se na fronteira de uma prisão estadual. Na primavera, tudo o que os motoristas de estrada veem é a aparência de beleza, mas por trás das flores há arame farpado e prisão. Devemos entender que esta é a perspectiva da Bíblia sobre a condição da humanidade. Todos os dias podemos dar a impressão de que está tudo bem, até bonito, mas, por trás da aparência, existe uma prisão para a nossa natureza pecaminosa, da qual a libertação não vem, exceto pelo preço do sangue de Cristo.

Remissão - e sua extensão (1:7b – 8)
Há um efeito adicional desse sangue derramado: perdão - ou, mais especificamente, a remissão de pecados. Ao remeter algo, você cancela uma dívida ou remove uma penalidade. Por causa da morte de Cristo por nós, não temos penalidade para pagar por nossos pecados. Nesta passagem, o termo geral “pecados” na verdade traduz uma palavra que poderia ser traduzida mais literalmente “transgressões”. Nós transgredimos quando atravessamos fronteiras que Deus estabeleceu para que obedeçamos ou desviássemos o caminho que ele projetou para nossa justiça. [26 ] Como o sangue de Cristo também lida com nossas ofensas, sabemos que o sangue dele nos redime não apenas da pecaminosidade original de nossa natureza humana, mas também da culpa de nossas transgressões individuais e diárias. Toda dimensão do meu pecado - todas as minhas ofensas individuais - estava coberta pelo sangue do meu Salvador.

Cristo quer que eu saiba quão vasta é a misericórdia que cobre assuntos pequenos e grandes. Tradutores úteis observam com razão que esse perdão está “de acordo com”, não provém das riquezas da graça de Deus (Efésios 1:7c). Aquele que possui as riquezas do universo não alcança a bolsa de um centavo para fornecer um pouco da graça para cobrir meu pecado. Não, sua graça está de acordo com suas vastas riquezas. A abundância de sua bondade celestial está chovendo em mim, me imergindo, lavando-me, levando meu pecado até o leste, a oeste, de modo que agora, continuamente e para sempre, porque estou unido a Cristo, estou vestido com a justiça do próprio Filho de Deus.

Essa redenção e remissão são “abundantes em nós com toda a sabedoria e entendimento” (v. 8). [27] Os comentaristas discutem essa frase. Deus nos esbanja “sabedoria e entendimento” (isto é, a sabedoria e o entendimento são nossos), ou ele nos esbanja com graça através de sua sabedoria e entendimento? [28] Eu acho que é o último. Embora a sabedoria e o entendimento (ou discernimento) a respeito de si mesmo e de seus caminhos sejam certamente benefícios que Deus nos concede quando ele nos redime, nesse caso em particular ele parece estar medindo a generosidade de sua graça, dizendo que o concede, apesar de compreender nos. Pense nisso. Em sua sabedoria, ele sabe mais sobre a natureza e o horror de minhas ofensas do que eu - e é sábio o suficiente para saber o que será necessário para compensar meus erros. Ele entende que minhas ofensas exigirão que o sangue de seu próprio Filho cancela minha dívida, e ainda assim ele me redime e remete meu pecado, para que eu tenha a própria justiça de Cristo.

Essa ideia é exemplificada em nossos amigos que adotaram uma criança com síndrome alcoólica fetal. Eles são sábios o suficiente para saber que os antecedentes dessa criança resultarão em muitos problemas. Escravizada em sua natureza de nascimento, essa criança os tributará - eles pagarão com sangue pelo bem futuro da criança. Mas, apesar desse insight, eles se oferecem a alguém a quem não devem obrigações ou dívidas. Eles simplesmente se entregam para recuperar essa criança do horror de sua origem e dos delitos de seu presente e futuro, puramente para o bem dessa criança. Como nosso Salvador se entrega para nos recuperar, também reflete sua graça no cuidado de sua filha. Isto é verdadeiramente rico.

Certa vez, senti uma medida da riqueza pródiga da recuperação do sangue de Cristo em um telefonema de um líder em nossa igreja. Embora ele fosse responsável pela supervisão espiritual de outras pessoas, ele se tornou escravizado pelo pecado sexual. As mentiras de encobrimento o prendiam ainda mais numa rede de enganos que acabou sendo descoberta e levou à sua disciplina e à saída da igreja. Ele saiu com muita raiva, mas o Espírito estava trabalhando em seu coração. Anos depois, ele pediu para entrar em um processo de restauração. Permitimos com condições muito estritas relacionadas à confissão do pecado, aconselhamento e medidas de prestação de contas. Ele concordou com todas as condições. Ele até perguntou: “Dr. Chapell, há mais alguma coisa que eu deva fazer, ou qualquer outra pessoa que eu deva contar, ou qualquer coisa que você queira de mim? “Quão diferente era esse tom e atitude daqueles que haviam escondido o pecado e resistido à disciplina. Ele fez tudo o que pedimos e ainda queria saber o que mais ele poderia fazer para satisfazer sua dívida. Ele estava tão mudado. Eu disse isso a ele. “Bill”, eu disse, “você está tão diferente. Por quê?” Sua resposta refletiu seu conhecimento da luxuosa misericórdia de Deus. Ele disse: “Agora eu sei que não preciso esconder nenhum dos meus pecados. Seu sangue pagou minha dívida e cancelou o erro dos meus pecados. Agora, uma frase de uma canção cristã se tornou o lema da minha vida: ‘Jesus pagou tudo’. Eu posso viver livre de culpa e vergonha porque Jesus pagou tudo o que eu devia.”

Meu amigo agora quer fazer mais do que qualquer um na terra exige. Ele é motivado pelo amor que o recuperou através da redenção de Cristo e da remissão de pecados. O Senhor deu tanta graça a esse homem que ele sabe o que aconteceu ou acontecerá nesta vida; ele permanece amado por Deus pela provisão de Cristo.

OS BENEFÍCIOS DA REVELAÇÃO (1:9)
Como sabemos que Deus forneceu os benefícios da redenção e remissão? Ele os revelou para nós. Os benefícios de nossa recuperação não teriam efeito motivacional em nosso coração se não os soubéssemos. Assim, em sua sabedoria, Deus também nos concede revelação abençoada de sua graça.

O Mistério da Revelação (1:9a)
O apóstolo diz que Deus “nos tornou conhecido o mistério de sua vontade” (Ef. 1: 9a). No Novo Testamento, um mistério não se caracteriza tanto pela complexidade ou intriga, como pelo tempo. Um mistério é uma verdade uma vez oculta que agora é revelada (Rom. 11:25; Col. 1:26). Não podia ser visto antes, mas agora pode. Na literatura judaica, um mistério é o plano secreto de Deus que se tornará aparente no final dos tempos. Quando Paulo diz que o mistério foi “divulgado”, ele sinaliza para essas pessoas e para nós que o que os profetas e pessoas da antiguidade haviam antecipado há muito tempo foi revelado. Já estamos nos últimos dias da história bíblica. Estamos em um momento de privilégio especial para saber o que os outros só poderiam antecipar.

O conteúdo de Apocalipse (1:9a)
O que Deus revelou agora é “a vontade dele”.[29] Este é o conteúdo da revelação. Sabemos que Deus resgata seu povo através da redenção e remissão de pecados comprados com o sangue do amado. Isso foi apenas prenunciado no passado, mas agora o caminho para Deus nos foi revelado. Há mais do que foi revelado sobre o mistério, como veremos, mas mesmo esse grau de revelação mostra quão grandes são nossos privilégios.

Sempre foi o plano de Deus libertar seu povo pela graça e poder de seu Filho. Mas agora podemos ver. Esse é um grande privilégio. Um amigo meu recentemente fez uma cirurgia que renovou sua visão. Ele é jogador de golfe e diz: “É maravilhoso. Eu posso até ver as covinhas na bola que eu não podia ver antes.” As covinhas sempre estiveram lá, mas estavam escondidas por sua falta de visão. Ser capaz de ver algo tão insignificante quanto as covinhas das bolas de golfe o faz se sentir inteiro novamente. Quão melhores e mais gloriosos devemos nos sentir quando vemos que Deus fez uma provisão para vermos o mistério de todas as épocas anteriores a Cristo, apesar das falhas e fissuras do pecado em nossas vidas.

A Condição do Apocalipse (1:9b)
Quais são as qualificações ou condições para receber esta revelação? Não há nenhum. A Bíblia diz que Deus revelou esse mistério ao seu povo “de acordo com o seu bom prazer” (Ef 1:9b; cf. 1:5), e esse bom prazer foi proposto em Cristo. Estas são palavras surpreendentes. Deus revelou a salvação ao seu povo através do sangue de seu Filho, porque isso lhe traz prazer. Ele se deleita em mostrar misericórdia (Mic. 7:18). E não há trabalho ou mérito que seja a condição dele fazer isso. Ele se deleita em mostrar misericórdia àqueles que não merecem. Por quê? O que em nós nos torna dignos aos seus olhos para receber essa revelação? Nada.

A Confissão de Fé de Westminster diz que Deus é “sem corpo, partes ou paixões” (2.1). As pessoas tropeçam na palavra “paixões” porque dizem: “Deus não odeia o pecado? Deus não ama o seu povo? Como podemos dizer que ele não tem paixões? Nossa dificuldade é substituir a palavra “emoções” por “paixões”. O uso do termo pela Confissão refere-se a controle externo. Deus não é controlado por forças externas. Ele nem sequer é controlado pela minha bondade ao decidir se me mostra ou não misericórdia. Essa é uma característica surpreendente da graça. Se decidíssemos quem receberia um presente especial de nós, como determinaríamos quem o receberia? Avaliaríamos a beleza das pessoas, ou quão boas elas são, ou o que fizeram por nós, ou o que podem fazer por nós? Deus diz que, apesar de saber que o pecado nos torna impuro diante dele, e que, para purificar-nos, ele teria que sacrificar seu Filho, e para equipá-lo, ele teria que prover seu Espírito, no entanto, lhe dá prazer revelar a você o mistério de Jesus. Quando não havia bondade ou habilidade em nós, Deus nos amou e nos permitiu conhecer o seu amor. Este também é um mistério precioso que até uma criança pode conhecer.

Algum tempo atrás, minha filha encontrou um verme de barraca rastejando em nosso quintal. Os vermes das tendas destroem árvores; são marrons e não muito atraentes como as lagartas. Ainda assim, ela conseguiu um pote de coleção para guardá-lo. Colocou folhas e gravetos para ficar confortável e chorou quando não a deixamos levar para a igreja naquela noite. Não havia nada de especial naquele verme, mas isso lhe dava prazer em cuidar dele. Se você não gosta de ser comparado a um verme, não está totalmente preparado para entender a verdade dessa passagem. Como o escritor do hino nos lembra, agradou a Deus ferir a cabeça sagrada de Cristo “por um verme como eu”. [30] O mistério das eras nos foi revelado, sem que houvesse algo de bom em merecê-lo. Nosso privilégio é tudo da sua misericórdia.

A rica verdade da misericórdia incondicional de Deus deve nos humilhar. Estranhamente, o efeito oposto também pode ocorrer. Uma vez que conhecemos a verdade, é tão fácil cair no orgulho doutrinário, inchar-nos com a auto-importância porque sabemos o que os outros não. Podemos agir como se a razão pela qual Deus tenha revelado seu Filho para nós é que fomos mais qualificados pelo nosso entendimento superior. Mas se realmente entendêssemos o que Deus fez, perceberíamos que tudo o que entendemos é apenas um dom dele, e o fato de termos algum conhecimento dele nada tem a ver conosco. A maioria de nós precisa aprender várias vezes a se aproximar, assim como aqueles que conhecem o mistério, com absoluta humildade: só sei porque ele me avisou. Eu não sou melhor que você e, no entanto, conheço a graça dele - então há esperança de que você também a conheça, mesmo que sinta que não se qualifica. Também não me classifiquei.

OS BENEFÍCIOS DA REGRA DE DEUS (1:10)

A humildade que experimentamos à luz do mistério de Cristo produz frutos adicionais para sua glória. Por nossa humildade, obtemos mais informações sobre quem realmente é responsável por todas as coisas. Assim, Paulo fala não apenas da recuperação e revelação de Deus, mas também de seu governo como uma maneira de obter nosso louvor por sua graça.

Ele unirá todas as coisas (1:10a)

O apóstolo diz que é a vontade de Deus, no momento do cumprimento de todas as coisas, reunir o céu e a terra. [31] Estaremos com os anjos e, porque estamos unidos a Cristo nosso Rei, compartilharemos sua glória com eles. Este é um pensamento incrível. Os habitantes do céu e da terra e o domínio do céu e da terra serão um. O que oramos na Oração do Senhor será feito. A vontade de Deus estará tão presente aqui quanto ali; santos e anjos existirão juntos em glória (ver Apo. 11:15). Já haverá uma reunião de entes queridos com ele e aqueles de nós que permanecerem, e seremos co-habitantes de seres cuja glória mal podemos imaginar.

Ele dirigirá todas as coisas (1:10b)

Este reino unido existirá em submissão ao nosso Senhor. Tudo o que Deus reúne será “debaixo de uma cabeça, sim, Cristo” (Efésios 1:10b). Como mencionei anteriormente, ao entrar nas ruínas da antiga Éfeso hoje, você verá os restos de uma estátua representando o imperador romano Trajano com o pé no globo do mundo. Na verdade, tudo o que resta é o pé. Seu governo há muito tempo terminou e nunca foi completo, exceto em seus sonhos. Mas a realidade das Escrituras é que um dia todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, e ele governará sobre todos (Filipenses 2:10–11). Não haverá canto do mundo ou característica do céu onde seu governo não se estenda.

Por que Deus nos revela esse mistério final da culminação de todas as coisas? Porque somos centrais no plano. O plano de revelar o mistério para nós foi lançado antes da fundação do mundo (Ef 1:4, 10); o cumprimento do plano está no ponto culminante do mundo; e a revelação de ambos chegou até nós agora. Estamos no centro da ampulheta do propósito revelado de Deus. Por quê? Porque fazemos parte do plano!


Os propósitos de Deus são o nosso propósito. A recuperação e revelação de Deus ao seu povo não tem propósito. Como os versículos posteriores revelarão, nossa vida em Cristo é para louvor de sua glória, porque estamos unidos a ele, a quem todos glorificarão. Nosso destino é parte integrante de tudo o que acontecerá, e devemos viver de acordo com esse propósito agora. O que isto significa é que agora é nossa missão viver os propósitos de Deus, buscando unir todas as coisas e submeter tudo ao senhorio de Cristo.


Ao servirmos no reino de Cristo, devemos ser reconciliadores ativos. Devemos estar superando nossas diferenças para que a unidade fornecida pelo evangelho esteja presente em nossos relacionamentos. No nível pessoal e familiar, isso significa que devemos confessar nossos pecados uns aos outros, perdoar uns aos outros e tentar encontrar maneiras de nos reconciliar com aqueles com quem temos diferenças - a animosidade sustentada nunca é nossa opção. No nível institucional e da igreja, é por isso que estamos comprometidos com a reconciliação racial, recém-comprometidos em descobrir a riqueza da diversidade cultural em outras nações e contextos e buscando superar barreiras socioeconômicas, diferenças políticas e educacionais, preconceitos regionais e orgulho teológico. Queremos ser o que Deus propôs em Cristo. Em todos os níveis, isso significa que procuramos encontrar maneiras de superar diferenças, ignorar falhas e enfrentar fraquezas que limitam nosso amor. Pois entendemos que, se não podemos amar os desagradáveis ​​ou desejar a reconciliação com aqueles que pecaram contra nós, não temos credibilidade ao falar o evangelho ao mundo.


Não é apenas nosso objetivo unir todas as coisas, mas submeter todas as coisas ao senhorio de Cristo. É nosso propósito estar envolvido na redenção de toda a vida para a glória de Cristo. Recusamo-nos a compartimentar o secular longe das reivindicações de Cristo. Como Abraham Kuyper disse: “Não existe uma polegada quadrada deste mundo sobre a qual Jesus não fique de pé e diga: ‘Este é meu, meu’.” Portanto, acreditamos que a influência do Salvador é corretamente expressa em toda a cultura das artes, negócios, governo, educação, ciência e toda a sociedade; e aqueles que estão unidos a ele devem ser sal e luz para ele em todo lugar.


Visto que ele é o Senhor de todos - ele é o governante não apenas da cultura, mas também das culturas - os cristãos devem se comprometer a ver que todas as nações e povos conhecem seu senhorio. Devemos lembrar ao povo de Deus sua obrigação de unir todos os povos em Cristo através da proclamação de seu reino de misericórdia.


Isso não será fácil. Unir tudo e enviar tudo às vezes pode parecer prioridades concorrentes. Mesmo na igreja, mal-entendidos podem nos dividir e nos distrair. Tal mal-entendido levou ao meu pecado alguns anos atrás. Alguns eventos difíceis me levaram a ir à equipe da igreja e dizer: “Precisamos estar cientes de que algumas pessoas expressaram erroneamente algumas preocupações sobre nossas ações, mas também precisamos garantir que respondamos com amor. Não podemos esperar avançar a causa do nosso rei da graça se não refletirmos o coração dele.” Esse não foi o meu pecado. Então, encontrei-me com meus colegas pastores e disse: “Precisamos estar cientes dessas preocupações que estão sendo manifestadas, mas também precisamos responder com amor. Não podemos esperar avançar a causa do nosso rei da graça se não refletirmos o coração dele.” Esse ainda não foi o meu pecado. Mas depois fui à junta da igreja e disse: “Precisamos estar cientes de que algumas pessoas fizeram acusações errôneas sobre nossas ações, e esses são os passos que acho que devemos tomar para nos protegermos”. Esse foi o meu pecado. Você notou algo faltando aí? Esqueci de dizer à junta da igreja que Deus mandou nosso amor.


Como se viu, o conselho foi o único encontro de líderes em que debatemos e dividimos sobre o que fazer em seguida. Eu não acho que realmente percebi o que aconteceu até mais tarde, quando pensei e percebi o meu erro. Ficamos atolados ao tentar avançar no reino de Deus quando esqueci de insistir em buscar a unidade em Cristo e expressar amor aos outros por sua glória.


Confessei meu erro à junta. Lembrei a esses líderes e a mim mesmo que não tenho o direito de procurar avançar no reino sem o compromisso de procurar unir o povo de Deus. O amor não está isento da necessidade ocasional de confronto e conciliação, mas nunca podemos avançar nos propósitos de Deus sem o motivo amoroso de que Deus tornaria a si mesmo e seus caminhos mais evidentes entre seu povo e neste mundo.


Que verdade devemos tirar desses versículos? Agora devemos ter uma profunda consciência da redenção, remissão e revelação que são nossas unicamente pela graça de Deus. Além disso, devemos ser tão dominados pela misericórdia de Deus para conosco que teremos prazer em ser proclamadores de Sua graça. E porque é a sua graça que proclamamos, não devemos reconhecer barreiras de orgulho cultural ou animosidade pessoal, mas sim assumir a responsabilidade pessoal de expressar o amor e a unidade de Cristo. Dessa maneira, seu reino avançará para outros através de nós, porque seu governo já terá começado em nosso coração.




Notas
[26] Para afhimi com o significado de cancelar/perdoar uma dívida e sua extensão ao perdão divino, ver W. Bauer, WF Arndt, FW Gingrich e FW Danker, Em Léxico grego-inglês do Novo Testamento (Chicago: University of Chicago Press , 2000), sv Aqui Paulo fala de “transgressões” remetidas, enquanto a passagem paralela em Colossenses 1:14 fala de “pecados” remetidos - testemunhando a conexão conceitual dos termos “pecados” e “transgressões”.

[27] Essas duas palavras gregas para “sabedoria” e “entendimento” são encontradas juntas em vários lugares na Septuaginta (4 Mac. 1:18; Pro. 1:2; 3:13, 19; 7:4; 8:1; 10:23; 16:16; Sab. 7: 7; Eclesiástico. 1: 4; 19:22; Jer. 10:12), embora sejam realmente colocados apenas em Dan. 2:23. Aqui em Efésios, a distinção entre os termos gregos é tão pequena que torna provável uma hendiadys (isto é, ambos os termos se combinam para formar um único conceito coerente).


[28] Esta questão é complicada pelo fato de que, no contexto, Deus possui sabedoria (Ef 3:10; cf. Rom 11:33; Col 2: 3) e a dá à igreja (Ef 1:17; cf. especialmente Col. 1: 9; e também Col. 1:28; 3:16; 4: 5).


[29] Ver o genitivo (mistério de sua vontade) como objetivo ou genitivo de conteúdo - ambos teriam basicamente o mesmo significado aqui (indicando que o mistério revelado é a vontade de Deus).


[30] Isaac Watts, “Ai, e Meu Salvador Sangrou”, 1707. Para aqueles que questionam essa “teologia dos vermes”, entenda que Deus não quer que seu povo redimido se sinta como vermes, mas reconheça a devastação de uma existência sem sua misericórdia e cuidado (ver Jó 25: 6 e Isa. 41:14).


[31] A tradução deste versículo em grego, “para a administração da plenitude dos tempos”, enfatiza a soberania temporal de Deus, que estabeleceu um tempo para que todo tempo seja cumprido sob sua administração da criação. E a próxima frase mostra a soberania de Deus através do domínio messiânico sobre todos os lugares e pessoas (terrestres ou celestes), uma vez que todas essas coisas serão “resumidas” em Cristo.

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