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TULIP- Pontos da doutrina da graca!

Rev. André do Carmo Silvério


É muito comum se ouvir falar sobre “Os Cinco Pontos do Calvinismo”. Eu mesmo, quando me tornei aluno da classe de catecúmenos, com a finalidade de ser membro da Igreja Presbiteriana do Brasil, lembro-me de ouvir por várias vezes falar sobre esse assunto. Contudo, meu raciocínio não era outro, senão, o de achar que o autor destes pontos era de fato o próprio reformador do século XVI: João Calvino. Mas somente no Seminário pude ter um contato mais próximo com obras literárias que falavam sobre o assunto, e, desta forma, creio ter sido esclarecido sobre o que realmente vem a ser “Os Cinco Pontos do Calvinismo”.

Portanto, o objetivo deste pequeno artigo é esclarecer de forma simples quem de fato escreveu os chamados “Cinco Pontos do Calvinismo”, por qual razão e porque eles são “cinco pontos” ao invés de sete ou dez. Além disso, procuraremos destacar a sua relevância para a nossa teologia.


1. Autoria

Ao contrário do que muitos pensam, não foi João Calvino quem escreveu “Os Cinco Pontos do Calvinismo”. Talvez algumas pessoas ficarão impressionadas com esta afirmação. No entanto, a magna pergunta que se faz é: Se não foi Calvino, quem foi então? “Estes cinco pontos foram formulados pelo Sínodo de Dort, Sínodo este convocado pelos estados Gerais (da Holanda) e composto por um grupo de 84 Teólogos e 18 representantes seculares, entre esses estavam 27 delegados da Alemanha, Suíça, Inglaterra e outros países da Europa reunidos em 154 Sessões, desde 13 de novembro de 16 18 até maio de 1619” . [1] Portanto, peca por ignorância quem afirma ser João Calvino o autor destes cinco pontos, porque na verdade, a afirmação correta é que estes “pontos” foram fundamentados tão somente nas doutrinas ensinadas por ele. Aliás, este sistema doutrinário, se assim podemos chamá-lo, foi elaborado somente 54 anos após a morte do grande reformador (1509-1564).

 

2. Razão de sua Escrita

Os Cinco Pontos do Calvinismo foram formulados em resposta a um “documento que ficou conhecido na história como ‘Remonstrance' ou o mesmo que ‘Protesto'”, [2]apresentado ao Estado da Holanda pelos “discípulos do professor de um seminário holandês chamado Jacob Hermann, cujo sobrenome latino era Arminius (1560-1600). Mesmo estando inserido na tradição reformada, Arminius tinha sérias dúvidas quanto à graça soberana de Deus, visto que era simpático aos ensinos de Pelágio e Erasmo, no que se refere à livre vontade do homem”. [3] Este documento formulado pelos discípulos de Arminius tinha como objetivo mudar os símbolos oficiais de doutrinas das Igrejas da Holanda (Confissão Belga e Catecismo de Heidelberg ), substituindo pelos ensinos do seu mestre. Desta forma, a única razão pela qual Os Cinco Pontos do Calvinismo foram elaborados era a de responder ao documento apresentado pelos discípulos de Arminius.


3. Porque Cinco Pontos?

Este documento formulado pelos alunos de Jacob Arminius tinha como teor cinco principais pontos, conhecidos como “Os Cinco Pontos do Arminianismo”. E como já dissemos logo acima, em resposta a este Cinco Pontos do Arminianismo, o Sínodo de Dort elaborou também o que conhecemos como “Os Cinco Pontos do Calvinismo” ao invés de sete ou dez. Estes pontos do calvinismo são conhecidos mundialmente pela palavra TULIP, um acróstico popular que na língua inglesa significa:

T otal DepravityTotal Depravação
U nconditional ElectionEleição Incondicional
L imited AtonementExpiação Limitada
I rresistible GraceGraça Irresistível
P erseverance of SaintsPerseverança dos Santos

 

4. Os Cinco Pontos do Arminianismo Versus Os Cinco Pontos do Calvinismo [4]

 

Arminianismo

Calvinismo

 

1. Vontade Livre – O arminianismo diz que a vontade do homem é “livre” para escolher, ou a Palavra de Deus, ou a palavra de Satanás. A salvação, portanto, depende da obra de sua fé.

 

1. Depravação Total – O calvinismo diz que o homem não regenerado é absolutamente escravo de Satanás, e, por isso, é totalmente incapaz de exercer sua própria vontade livremente (para salvar-se), dependendo, portanto, da obra de Deus, que deve vivificar o homem, antes que este possa crer em Cristo.

 

 

2. Eleição Condicional – O arminianismo diz que a “eleição é condicional, ou seja, acredita-se que Deus elegeu àqueles a quem “pré-conheceu”, sabendo que aceitariam a salvação, de modo que o pré-conhecimento [de Deus] estava baseado na condição estabelecida pelo homem.

 

2. Eleição Incondicional – O calvinismo sustenta que o pré-conhecimento de Deus está baseado no propósito ou no plano de Deus, de modo que a eleição não está baseada em alguma condição imaginária inventada pelo homem, mas resulta da livre vontade do Criador à parte de qualquer obra de fé do homem espiritualmente morto.

 

 

 

3. Expiação Universal – O arminianismo diz que Cristo morreu para salvar não um em particular, porém somente àqueles que exercem sua vontade livre e aceitam o oferecimento de vida eterna. Daí, a morte de Cristo foi um fracasso parcial, uma vez que os que têm volição negativa, isto é, os que não querem aceitar, irão para o inferno.

 

 

3. Expiação Limitada – O calvinismo diz que Cristo morreu para salvar pessoas determinadas, que lhe foram dadas pelo Pai desde toda a eternidade. Sua morte, portanto, foi cem por cento bem sucedida, porque todos aqueles pelos quais ele não morreu receberão a “justiça” de Deus, quando forem lançados no inferno.

 

4. A Graça pode ser Impedida – O arminianismo afirma que, ainda que o Espírito Santo procure levar todos os homens a Cristo (uma vez que Deus ama a toda a humanidade e deseja salvar a todos os homens), ainda assim, como a vontade de Deus está amarrada à vontade do homem, o Espírito [de Deus] pode ser resistido pelo homem, se o homem assim o quiser. Desde que só o homem pode determinar se quer ou não ser salvo, é evidente que Deus, pelo menos, “permite” ao homem obstruir sua santa vontade. Assim, Deus se mostra impotente em face da vontade do homem, de modo que a criatura pode ser como Deus, exatamente como Satanás prometeu a Eva, no jardim [do Éden].

 

4. Graça Irresistível – O calvinismo entende que a graça de Deus não pode ser obstruída, visto que sua graça é irresistível. Os calvinistas não querem significar com isso que Deus esmaga a vontade obstinada do homem como um gigantesco rolo compressor! A graça irresistível não está baseada na onipotência de Deus, ainda que poderia ser assim, se Deus o quisesse, mas está baseada mais no dom da vida, conhecido como regeneração. Desde que todos os espíritos mortos (= alienados de Deus) são levados a Satanás, o deus dos mortos, e todos os espíritos vivos (= regenerados) são guiados irresistivelmente para Deus (o Deus dos vivos), nosso Senhor, simplesmente, dá a seus escolhidos o Espírito de Vida. No momento que Deus age nos eleitos, a polaridade espiritual deles é mudada: Antes estavam mortos em delitos e pecados, e orientados para Satanás; agora são vivificados em Cristo, e orientados para Deus.

 

 

5. O Homem pode Cair da Graça – O arminianismo conclui, muito logicamente, que o homem, sendo salvo por um ato de sua própria vontade livremente exercida, aceitando a Cristo por sua própria decisão, pode também perder-se depois de ter sido salvo, se resolver mudar de atitude para com Cristo, rejeitando-o! (Alguns arminianos acrescentariam que o homem pode perder, subseqüentemente, sua salvação, cometendo algum pecado, uma vez que a teologia arminiana é uma “teologia de obras” – pelo menos no sentido e na extensão em que o homem precisa exercer sua própria vontade para ser salvo). Esta possibilidade de perder-se, depois de ter sido salvo, é chamada de “queda (ou perda) da graça”, pelos seguidores de Arminius. Ainda, se depois de ter sido salva, a pessoa pode perder-se, ela pode tornar-se livremente a Cristo outra vez e, arrependendo-se de seus pecados, “pode ser salva de novo”. Tudo depende de sua continua volição positiva até à morte!

 

 

5. Perseverança dos Santos – O calvinismo sustenta muito simplesmente que a salvação, desde que é obra realizada inteiramente pelo Senhor – e que o homem nada tem a fazer antes, absolutamente, “para ser salvo” -, é óbvio que o “permanecer salvo” é, também, obra de Deus, à parte de qualquer bem ou mal que o eleito possa praticar. Os eleitos ‘perseverarão' pela simples razão de que Deus prometeu completar, em nós, a obra que ele começou. Por isso, os cinco pontos de TULIP incluem a Perseverança dos Santos .

 

5. Considerações Finais

Para inteirar o leitor do todo da história, Spencer nos diz que após o Sínodo de Dort se reunir em 154 Sessões num “completo exame das doutrinas de Arminius e comparar cuidadosamente seus ensinos com os ensinos das Escrituras Sagradas, chegaram à conclusão que os ensinos de Arminius eram heréticos”. [5] “E não somente isto, mas o Concílio impôs censura eclesiástica aos ‘remonstrantes' depondo-os dos seus cargos, e a autoridade civil (governo) os baniu do país por cerca de seis anos”. [6]

Diante disso, creio que a diferença crucial entre o Arminianismo e o Calvinismo se resume na palavra Soberania. Enquanto os calvinistas entendem que Deus opera a salvação na vida do ser-humano conforme a sua livre e soberana vontade, os arminianos salientam que o homem é capaz de por si só querer ou não ser salvo. Se partirmos da premissa que o homem está completamente morto diante de Deus como nos ensina Efésios 2:1, entenderemos porque a salvação depende tão somente da graça e da misericórdia do SENHOR, pois “não depende de quem quer ou quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9:16). Portanto, creio que os objetivos deste artigo foram de fato alcançados, demonstrando assim a verdadeira história dos “Cinco Pontos do Calvinismo”. Que assim, queira o Senhor nosso Deus nos abençoar e nos dar sempre a graça de sermos verdadeiros propagadores da história reformada.


NOTAS:

[1] - Tradução livre e adaptada do livro The Five Points of Calvinism, www.unifil.br/teologia/arquivos/ cincopontoscalvinoesboco.pdf

[2] - The Five Points of Calvinism, p. 1, ob.cit.

[3] - Duane E. Spencer, TULIP, Os Cinco Pontos do Calvinismo à Luz das Escrit uras, p. 111-112, Parakletos, 2ª Edição – São Paulo – 2000.

[4] - Esta síntese foi retirada do livro TULIP , p. 15-19.

[5] - TULIP , p. 112.

[6] - The Five Points of Calvinism, p. 6.

 

Rev. André do Carmo Silvério

Pastor da Igreja Presbiteriana do Jardim Girassol – Guarulhos,
Professor de Teologia Sistemática no Instituto Bíblico Presbiteriano Rev. Boanerges Ribeiro e Secretário de Mocidade da Confederação Norte Paulistano

 

Somos uma igreja confessional e reformada





O que significa ser confessional? Os reformados afirmaram a sua ortodoxia adotando credos, catecismos e confissões para resumir e declarar organizadamente o que criam. Esta é uma prática antiga na Igreja Cristã, originando-se nas orações dos crentes da antiga aliança e nos ritos de batismo do século I.[1] Paulo instrui Timóteo que “mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste com fé e com o amor que está em Cristo Jesus. Guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós” (2 Tm 1:12-13). Por isso, os cristãos são chamados a guardar “o bom depósito”, isto é, a preservar fielmente o sistema doutrinário, sem alterar a sua essência. A finalidade da prática confessional era identificar a unidade pela verdade, denunciar o erro e excluir os hereges.

Qual é a necessidade de sermos confessionais? David W. Hall observa que a prática da subscrição confessional pelos reformadores possuía os seguintes motivos doutrinários: unidade, clareza, defesa de falsas acusações, defesa e preservação de identidade, bem como uma variedade de declarações públicas.[2] Esta preocupação está de acordo com o claro ensino da Escritura Sagrada. Judas declara que “quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). Ele não se referiu somente ao aspecto subjetivo da fé, ou seja, a confiança e consentimento, mas, em especial ao conteúdo doutrinário da fé. Assim, o seu argumento é que os seus leitores deveriam defender a doutrina que receberam contra indivíduos que haviam se introduzido na Igreja, e disseminavam a libertinagem e negavam a sã doutrina (Jd 4).

Somos uma denominação reformada de herança puritana. Por isso, subscrevemos os Padrões de Westminster como fiel exposição do ensino da Escritura Sagrada. O endosso destes documentos doutrinários deve ser integral, isto é, em todas as suas declarações doutrinárias. Isto significa que aceitamos todas as afirmações e nos empenhamos em viver por elas. Mas, infelizmente há quem sendo presbiteriano não seja coerente. Há alguns motivos para isso: 1) aqueles que desconhecem porque não foram instruídos; 2) aqueles que conhecem superficialmente e que, ignorando as declarações precisas e suas implicações, acabam descumprindo a sua palavra; e, 3) aqueles que declaram verbalmente aceitar, mas intencionalmente rejeitam no coração. Estes últimos divorciam a convicção da confissão, e isto resulta em desonestidade confessional. Entendemos que a reserva mental sempre é pecado! É minha intenção com este texto, como membro desta igreja, que você seja informado, doutrinado, e honestamente se comprometa com a nossa identidade confessional reformada.

A nossa tradição usa confissões e catecismos para apresentar o nosso sistema doutrinário.[3] Isto ocorre num contexto em que somos chamados a confessar a nossa fé aos de fora da igreja. Estes documentos resumem sistematicamente o ensino da Escritura Sagrada acerca de vários temas. Eles também são úteis para o exercício da verdadeira piedade, bem como para uma resumida apresentação do que cremos em nossa fé reformada.
A IPB exige de seus oficiais e membros a plena subscrição dos Padrões de Westminster que são:
1. A Confissão de Fé de Westminster
2. O Catecismo Maior de Westminster
3. O Breve Catecismo de Westminster

Entretanto, aceitamos e usamos para estudo da fé reformada:[4]
1. A Confissão Belga (1561)
2. O Catecismo de Heidelberg (1563)
3. A Segunda Confissão Helvética (1566)
4. Os Cânones de Dort (1618-1619)

E, também recebemos os antigos credos como parte da nossa declaração de fé:
1. O Credo Apostólico
2. O Credo Niceno
3. O Credo de Calcedônia

Como usamos os catecismos e confissões? Segue algumas sugestões:
1. A nossa denominação os usa para afirmar a sua identidade confessional reformada. Quando alguém nos pergunta no que cremos, eles representam a nossa herança doutrinária. Eles são úteis para a leitura contínua e consulta do corpo doutrinário de nossas convicções.
2. O presbitério os usa em debates teológicos e na avaliação de oficiais e tribunais eclesiásticos. Quando há controvérsias envolvendo assuntos litúrgicos, doutrinários e da prática da vida cristã, parte da fundamentação para corrigir e estabelecer as nossas decisões conciliares dependerão destes documentos.
3. As nossas instituições teológicas devem usá-los para aferir a fidelidade confessional de seus docentes. A contratação e continuidade de um professor, que inevitavelmente será um formador de opinião, deve ocorrer mediante exame da JURET e JET. O ambiente acadêmico favorece o estudo e análise de diferentes vertentes teológicas, entretanto, a formação teológica de nossos futuros pastores, deve ser realizada com compromisso confessional pelos nossos seminários. A maioria dos alunos são candidatos ao sagrado ministério, e devem ser avaliados pelos seus compromissos de crença.
4. Nos cursos de treinamento de oficiais e liderança os nossos documentos precisam ser estudados prescritivamente. Eles exercerão o governo na igreja local e nas diferentes esferas conciliares de nossa denominação. Antes de sua ordenação ou designação, serão examinados pelo conselho, e professarão conhecimento, entendimento e compromisso aos nossos padrões de fé. [ PARA TREINAMENTO E SELEÇÃO DE OFICIAIS - ACESSE AQUI ] & [ PARA EXAME DE CANDIDATOS AO OFICIALIATO DA IGREJA - ACESSE AQUI ].
5. O Conselho os têm como padrão em questões doutrinárias e recebimento de membros. A unidade da igreja se dá no compromisso coletivo com a verdade. Os presbíteros supervisionam da honesta obediência dos votos que os membros realizaram em seu exame e pública profissão fé.
6. Os pregadores os citam nos seus sermões para ilustrar ou como parte da argumentação. O sermão sempre é doutrinário em sua essência, por isso, o culto público é excelente lugar para proclamação, instrução, correção e conforto dos seus participantes.
7. Estudá-los nas reuniões de estudo doutrinário durante a semana. O pastor poderá realizar estudo expositivo sequenciado usando os Padrões de Westminster. Há comentários da Confissão de Fé e dos Catecismos que enriquecem o entendimento e a sua aplicabilidade em questões práticas da vida cristã.
8. Os discipuladores devem usa-los constantemente para o preparo dos estudos. Seja no discipulado para iniciantes ou avançado, o aprendiz carece se familiarizar com fé cristã em sua expressão documental. Esteja seguro de que não é a mera opinião de um membro, mas o legado doutrinário que esposa fielmente a sistematização da Escritura Sagrada.
9. Os professores da Escola Dominical podem recorrer a eles para eximir alguma dúvida ou controvérsia em aula. Havendo divergência nalgum assunto, os professores deverão fechar o assunto, quando possível, através da nossa confessionalidade.
10. Os pequenos grupos que se reúnem nas casas podem usá-los como roteiro de estudo. O estudo do Breve Catecismo de Westminster é um proveitoso recurso para o estudo em grupos que se reúnem nos lares. Nestas reuniões de caráter mais informal sempre recebem visitantes, quer sejam convertidos, ou não, e os comentários dos participantes, não podem criar no desenvolvimento do estudo uma abertura para a aceitação da pluralidade de opiniões como igualmente válidas. O pequeno grupo não é uma igrejinha dentro da igreja, onde o livre pensamento é adotado independentemente do corpo doutrinário oficial.
11. As famílias podem acrescentar a sua leitura no culto doméstico. A leitura da Escritura, a oração e cânticos, somados ao estudo dos Padrões de Westminster enriquecerão o exercício espiritual que nutrem o crescimento. O culto doméstico propicia a comunhão, instrução e a adoração no lar, se forem usados os nossos diretórios doutrinários certamente forjará famílias com saudáveis convicções. Assim, formar famílias fortes resultará numa igreja vigorosa.
12. A leitura das declarações e textos bíblicos neles contidos são proveitosos para a devocional diária. O uso de livretos para fins devocionais apesar de úteis, podem ser acompanhados pela leitura de uma ou duas perguntas dos catecismos, ou parágrafos da Confissão de Fé. São pensamentos com denso conteúdo bíblico que alimentam e nos preparam para viver diariamente na presença de Deus.

É possível ser membro da Igreja Presbiteriana de Brasil e não ser confessional? Os Conselhos ao examinar o candidato à profissão de fé, ou membros em processo de transferência, deveriam ser criteriosos quanto a nossa identidade confessional. Caso o candidato se negue a subscrever o nosso sistema de doutrina, ele não deveria ser recebido como membro da igreja local. Por isso, antes do exame, recomenda-se que os candidatos a membros deverão ser discipulados, participar da Classe de Catecúmenos e ler os Padrões de Westminster. A pressa de recebê-lo como membro da igreja local é prejudicial, porque é necessário ajudá-lo a entender o que cremos, para que seja verdadeiro quando fizer sinceramente a sua pública profissão de fé diante da igreja, em culto solene, e acima de tudo do verdadeiro Deus que exige o nosso sim, significando sim. Sobre o zelo no exame de candidatos a membro [ ACESSE AQUI ]

Recomendo a leitura sobre a prática da subscrição confessional, conforme adotada pela Igreja Presbiteriana do Brasil:
1. Carl R. Trueman, O imperativo confessional (Brasília, Editora Monergismo).
. David W. Hall, The practice of confessional subscription (Oak Ridge, The Covenant Foundation).
. Morton H. Smith, The case for full subscription to Westminster Standards in the Presbyterian Church in America (Greenville, GPTS).
. Ulisses Horta Simões, A subscrição confessional - necessidade, relevância e extensão (Belo Horizonte, Efrata Publicações e Distribuição).


NOTAS:
[1] Philip Schaff reconhece nas Escrituras os seguintes credos em forma embrionária: Êx 20:2-3; Dt 6:4; Jo 1:50; Mt 16:16; 28:19; Jo 6:68; 20:28; At 8:37; 1 Co 8:6; 1 Tm 3:16; Hb 6:1-2. Philip Schaff, The Creeds of Christendom – with a history and critical notes (Grand Rapids, Baker Books, 2007), vol. 2, pp. 3-8.
[2] David W. Hall, “Southern Presbyterians: The virtue of confessional relaxation?” in: Joseph A. Pipa Jr., org., Confessing our hope – Essays celebrating the life and ministry of Morton H. Smith (Taylors, Southern Presbyterian Press, 2004), p. 97.
[3] A relevância da tradição está em preservar e passar adiante a verdade. Ela deve ser um instrumento para comunicar o ensino da Palavra de Deus, e nunca parte dela.
[4] Aqueles que leem em inglês poderão estudar de modo mais completo as confissões de herança calvinista. Se for do interesse saber James T. Dennison Jr. publicou uma coletânea bem extensa dos documentos confessionais reformados desde o século XVI até o XVII. Veja em James T. Dennison, Jr., ed., Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English Translation (Grand Rapids, Reformation Heritage Books) em 4 volumes. Este manual é a compilação mais completa dos documentos reformados disponível em inglês.


http://doutrinacalvinista.blogspot.com/2016/05/somos-uma-igreja-confessional.html

Batismo Infantil uma perspectiva biblica


O batismo é símbolo da nova aliança da graça, do mesmo modo que a circuncisão era símbolo da velha aliança. Considerando-se que as criancinhas são reconhecidas como sendo incluídas na redenção, afirmamos que elas podem ser batizadas mediante o pedido dos pais, ou tutores, os quais deverão comprometer-se lhes dar a devida formação cristã. Os que foram batizados na infância serão obrigados a reafirmar o voto de batismo, por eles mesmos, antes de serem admitidos como membros da igreja.
O batismo não é principalmente um sinal de arrependimento e fé da parte dos batizados. É um sinal da aliança e da obra de Salvação de Cristo realizada na Cruz. Esta obra vicária deve ser pregada a todos, e o sinal e o selo pode ser estendido não somente aqueles que já corresponderam a ela, como também aos filhos destes, que estão sendo educados na atmosfera cristã com o conhecimento daquilo que Deus já fez de uma vez por todas em Cristo, e isto de modo totalmente suficiente.
Finalmente, o batismo é sinal da obra regeneradora do Espírito (Tt 3.5). O Espírito Santo é soberano (Jo 3.8). Ele freqüentemente está presente antes de Seu ministério ser percebido, e Sua operação não precisa ser necessariamente acompanhada por nossa apreensão dela. Pois o Espírito Santo trabalha para convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:8). Ele não despreza as mentes dos infantes. João Batista foi movido pelo Espírito Santo no ventre de sua mãe, quando da aproximação de Maria, que estava grávida de Jesus: “Ouvindo esta a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre; então, Isabel ficou possuída do Espírito Santo” (Lc 1:41).
Jesus disse que as criancinhas, mesmo as que ainda estão na fase de amamentação, são capazes de oferecer um perfeito louvor a Deus: “Ouves o que estes estão dizendo? Respondeu-lhes Jesus: Sim; nunca lestes: Da boca de pequeninos e crianças de peito tiraste perfeito louvor?” (Mt 21:16).

Base Bíblica

Antigo Testamento

Vamos começar examinando o Antigo Testamento, pois todos os ensinos do Novo Testamento têm suas raízes pedagógicas no Antigo Testamento. Todas as prefigurações do batismo encontradas no Antigo Testamento favorecem o ponto de vista de que Deus lida com famílias mais do que com indivíduos. Quando Noé foi salvo do dilúvio, toda sua família é recebida com ele na arca (cf. 1Pe 3.20-21).
Quando Abraão recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé (Rm 4.11), é ordenado a aplicá-lo a todos os membros do sexo masculino da sua família como um sinal da salvação que possuem por pertencerem ao povo de Deus: “Circuncidareis a carne do vosso prepúcio; será isso por sinal de aliança entre mim e vós” (Gn. 17:11).
Em Cl 2.11-12, Paulo faz uma associação entre o batismo e a circuncisão, chamando o batismo cristão de a circuncisão de Cristo.
No Mar Vermelho, todo o Israel, incluindo crianças, passa pelas águas no grande ato de redenção que prefigura não somente o sinal do batismo como também a obra de Deus que está por trás dele. É isto mesmo que Paulo está dizendo em 1 Co 10.1-2: “Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem como no mar, com respeito a Moisés”.
Moisés aspergiu sangue sobre todo o povo, incluindo crianças (Hb 9.19). Deus convocou adultos e crianças para entrarem em aliança com Ele (Dt 29.10-12). Josué disse: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24.15). “Mas a misericórdia do SENHOR é de eternidade a eternidade, sobre os que o temem, e a sua justiça, sobre os filhos dos filhos” (Salmos 103:17).

Novo Testamento

Já, no Novo Testamento, é bem provável que as crianças tenham sido incluídas nos batismos de famílias inteiras em Atos: família da Lídia (16.15), do Carcereiro (16.32, 33), de Crispo (18.8) e Estéfanas (1 Co 1.16).
Encontramos ainda vários textos relevantes que revelam progressos no tratamento dispensado às crianças em relação à prática comum até então: Jesus se torna um bebê concebido pelo Espírito Santo. João Batista, também, fica cheio do Espírito Santo desde o ventre da sua mãe, de modo que poderia ser um candidato ao batismo (Lc 1.39-45; cf. At 10.47 “Porventura pode alguém recusar a água para que não sejam batizados estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo?”).
Cristo acolhe e abençoa os pequeninos (Mt 19.13-14) e fica zangado quando seus discípulos os repreendem (Mc 10.14). Ele diz que as coisas de Deus são reveladas aos pequeninos mais do que aos sábios e entendidos (Lc 10.21). Ele retoma a declaração do Sl 8.2 no tocante ao louvor da boca de crianças de peito (Mt 21.16). Adverte contra o perigo de alguém ser um tropeço para os pequeninos que crêem nEle (Mt 18.6), e no mesmo contexto nos diz que, como cristãos, não temos de nos tornar adultos, mas, sim crianças. Jesus descreveu a condição espiritual especial destes pequeninos, dizendo: “Vede, não desprezeis a qualquer destes pequeninos; porque eu vos afirmo que os seus anjos nos céus vêem incessantemente a face de meu Pai celeste” (Mt 18:10).
Na primeira pregação da Igreja, Pedro diz que a promessa do Espírito é para os filhos também e não apenas para os adultos: “Respondeu-lhes Pedro: arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos…” (At 2.38,39). Nas epístolas existem palavras dirigidas especialmente às crianças (Efésios, Colossenses e 1 João).
Em 1 Co 7.14, Paulo diz que os filhos de um casal, onde pelo menos um dos pais é crente, são “santos”, o que certamente significa que pertencem ao povo da aliança, tendo, portanto, também o direito ao sinal desta aliança. Uma pergunta que se faz necessária aqui é: Os filhos dos crentes devem ser considerados cristãos ou pagãos?
As crianças eram incluídas na antiga aliança, eram circuncidadas e participavam da Páscoa, que eram os sinais daquela aliança, por que razão as crianças deveriam ser impedidas de participar dos sinais da nova aliança? A Nova Aliança não é superior a antiga? Porventura a nova aliança não inclui igualmente, e, por que não dizer, até principalmente os pequeninos?
Quando é que se dá ou deveria se dar a conversão de alguém nascido em lar cristão? Precisaria ele experimentar uma crise de conversão? Não deveriam, os filhos de cristãos, serem abençoados e dedicados a Deus como cristãos, ensinados como cristãos, considerados como cristãos desde o seu nascimento?
Temos vários exemplos no Novo Testamento de filhos sendo grandemente abençoados por causa da fé do pais. A ressurreição da filha de Jairo (Mateus 9:18-19, 23-26), O pai de um epiléptico pediu que Jesus curasse o seu filho (Mt 17:14-18), a ressurreição do filho da viúva de Naim, episódio em que Jesus teve compaixão da mulher, e favoreceu o filho por causa da mãe (Lc 7:11-17), a cura do filho de um oficial da cidade de Cafarnaum (João 4:46-54).

Base histórica

O Batismo Infantil era prática comum nos tempos da Igreja Primitiva

O batismo infantil era praticado nos tempos da igreja primitiva, atestado já em Justino Mártir (130 d.C. -Apol.I.15), Irineu (180), Orígenes (230), que alegavam estarem seguindo o exemplo que também batizavam crianças (Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã, v. 1, p. 157). O batismo infantil era algo normal, tanto que não causava surpresa nem questionamentos, pois estava em conformidade com o ensinamento de Jesus Cristo e dos apóstolos.
Irineu, que foi discípulo de Policarpo, um discípulo do apóstolo João, foi batizado quando criança. Ele afirmou: “A igreja aprendeu dos apóstolos a ministrar o batismo a crianças” e, em 180 d.C., Irineu afirma também que “Jesus veio para salvar a todos que são renascidos através dele em Deus: recém nascidos, crianças, adolescentes, jovens e adultos” (Adv. Haer., livro II, 22.4; 39). O termo “renascidos”, para os pais da Igreja, é termo técnico para o “batismo”.
Na Constituição Eclesiástica de Roma, formulada por Hipólito em 215, encontramos a frase: “Primeiro devemos batizar os pequenos. Todos que podem falar por si mesmos. Para aqueles que ainda não sabem falar, falem seus pais ou alguém que pertença à família” (Const. Ecl. XVI, 4).
Orígenes, que foi o mais completo conhecedor da Bíblia entre os escritores da Igreja primitiva, nascido na Grécia no ano de 185 d.C., cujo avô e bisavô eram cristãos quando os apóstolos ainda eram vivos. Orígenes, em seu comentário à carta de Romanos, afirma: “A igreja recebeu dos apóstolos a tradição de batizar também os recém nascidos” (Epist. ad. Rom. Livro V, 9 Hom. in Lev., VIII. 4). Sabemos também que o próprio Orígenes foi batizado quando criança.
Ireneu de Lião (sec III) considera óbvia a presença de “crianças e pequeninos” , entre os batizados em geral (Contra as Heresias II,24,4;).
Hermas, contemporâneo do apóstolo Paulo (Rm 16.14), fala de crianças que receberam o selo do batismo, nestas palavras: “Ora, esse selo é a água do batismo”.
Clemente, que também viveu com o apóstolo Paulo (Fl 4.3), aconselhava os pais: “Batizai os vossos filhos e criai-vos na disciplina e correção do Senhor”.
O “Didaqué” (manual da Igreja Antiga, também conhecido como doutrina dos doze apóstolos) prescreve o batismo de crianças.
Tertuliano (De Bapt., 18).
Cipriano, em 258, escreve: “Do batismo e da graça não devemos afastar as crianças” (carta a Fido). No século III , um sínodo do Norte da África determinou que era permitido batizar as crianças “já a partir do segundo ou terceiro dia após o nascimento” (Epístola 64 de São Cipriano).
O Concílio de Cartago recebeu consulta se era lícito batizar crianças antes de oito dias. O que significa que a prática do batismo infantil após o oitavo dia de vida era comum.
Agostinho dizia: “Desde a Antigüidade a Igreja tem observado o batismo infantil” e ainda, “O costume de nossa igreja mãe de batizar crianças não deve ser desconhecido nem tido como desnecessário; nem se deve crer que seja algo mais do que uma ordenança que nos foi entregue pelos apóstolos” dizia ainda: Não foi instituído por concílios mas sempre esteve em uso”. Estas afirmações foram feitas e o batismo de criança estava sendo praticado antes do desvio do catolicismo, pois os relatos dos pais da Igreja sobre a prática do mesmo, são do período em que a Igreja Cristã estava vivendo o Evangelho na sua “pureza”.

As crianças continuaram sendo Batizadas na Reforma Protestante

Lutero condenou o rebatismo duramente. Para ele, quem rebatiza um adulto batizado como criança “blasfema e profana o sacramento em sumo grau” (Catecismo Maior IV, 55).
Esta propagação do batismo de crianças na Igreja Antiga, certamente deu-se pela convicção de que no batismo é Deus que age na vida do batizando, enquanto que este apenas recebe o batismo. A fé, neste caso, é fruto do batismo, ou seja, do agir de Deus. Outro motivo que permitiu a difusão do Batismo de crianças na Igreja Antiga, certamente, foi a convicção de que a Igreja precede o cristão individual como o espaço do senhorio de Cristo onde o Espírito Santo atua e como comunhão dos que crêem e mutuamente sustentam e fortalecem sua fé. Neste sentido, a fé da Igreja sempre precede à do batizando, seja ele adulto ou criança.
Portanto, os Pais da Igreja consideravam o Batismo de crianças uma tradição apostólica, e, por esta razão, foi uma prática comum desde os tempos da Igreja Primitiva. Somente no século XVI, com o surgimento do movimento anabatista é que se começou a questionar 1.500 anos de história da prática do batismo infantil. Lutero, no entanto, condenou o rebatismo duramente. Para ele, quem rebatiza um adulto batizado como criança “blasfema e profana o sacramento em sumo grau” (Catecismo Maior IV, 55).
Para Lutero, porém, a obra do Batismo e sua validade para o ser humano dependem exclusivamente da obra que Deus realiza neste sacramento. A fé, ainda que imprescindível, apenas recebe o batismo, confiando na sua obra. Por isso, o Batismo de crianças é válido mesmo que a fé e a confiança no sacramento cheguem mais tarde. Aliás, nem é possível dizer que o batismo de crianças aconteça sem fé. Os pais, os padrinhos, as madrinhas e toda a igreja agem em fé e em esperança: “Levamos a criança ao batismo com o ânimo e na esperança que ela creia; e rogamos que Deus lhe dê a fé” (Catecismo Maior IV, 57). Este, porém, ainda não é o argumento maior que permite Lutero batizar – sejam crianças ou adultos. O batismo acontece porque a Igreja age em obediência ao mandato divino: “Não é, porém, à vista disso que a batizamos, mas unicamente porque Deus o ordenou” (Catecismo Maior IV, 57).
Para Calvino, “Se as crianças cristãs não puderem ser batizadas, elas ficarão em desvantagem em relação às crianças judias, as quais eram pública e externamente seladas e introduzidas na comunidade da aliança através da circuncisão (Institutas da Religião Cristã, IV.xvi.6). Portanto, Calvino argumenta que as crianças deveriam ser batizadas, não lhes sendo negados os benefícios daí decorrentes.
E, no Catecismo de Heidelberg, cap. XXVII, temos a pergunta de número 74, que diz: “As crianças devem ser baptizadas?” A resposta é a seguinte: “Sim. Elas pertencem tanto como os adultos à aliança de Deus e à sua Igreja (Gén.17:7). Visto que a remissão dos pecados (Mt.19: 14) e o Espírito Santo, que produz a fé, lhes são prometidos não menos que aos adultos (Luc. 1: 14, Sal. 22: 11, Is. 44: 1-3, Act. 2: 39), devem ser incorporadas pelo baptismo, que é o sinal da aliança, à Igreja cristã e serem distinguidas dos filhos dos incrédulos (Act. 10: 47), como se fazia no Antigo Testamento pela circuncisão (Gén. 17: 14), em cujo lugar no Novo Testamento foi o Batismo instituído (Col.2:11-13).”
Zwínglio afirmou: “Visto que as crianças cristãs pertencem tão obviamente a Deus, como podemos negar-lhes o sinal dessa posse?”
João Wesley, em “Um Tratado Sobre o Batismo Infantil”, afirma: “A circuncisão era, então, o selo da aliança; o que é,em si mesma, portanto, figurativamente denominada de a aliança. (Atos 7:8). Por isto, as crianças daqueles que professaram a verdadeira religião foram, então, admitidas nela, e obrigadas às condições dela; e, quando a lei foi acrescentada, à observância dela também. E quando o antigo selo da circuncisão foi tirado, este do batismo foi acrescentado em seu lugar; nosso Senhor indicou uma instituição inegável para suceder outra. Um novo selo foi colocado para a aliança deAbraão; os selos diferiam, mas o contrato era o mesmo; apenas aquela parte foi cortada, a que era política ou cerimonial. Que aquele batismo veio em lugar da circuncisão, aparece da clara razão da coisa, como do argumento do Apóstolo, onde, depois da circuncisão, ele menciona o batismo, como aquele em queDeus ‘perdoou nossas transgressões'; ao qual ele acrescenta o ‘apagar dos manuscritos das ordenanças’, plenamente referindo-se à circuncisão e outros ritos judaicos; que tão fielmente implica que o batismo veio no lugar da circuncisão,como nosso Salvador denominar o outro sacramento de páscoa dos judeus, (Colossenses 2:11-13; Lucas 22:15) mostra que ele foi instituído no lugar dele.”
Wesley conclui assim o seu Tratado sobre o Batismo Infantil: “No conjunto, portanto, não é apenas lícito e inocente,mas adequado, correto, e nosso dever sagrado, em conformidade com a prática ininterrupta de toda a Igreja de Cristo, desde as primeiras eras, consagrar nossas crianças a Deus, através do batismo, como a Igreja judaica foi ordenada fazer, através da circuncisão.”
( http://www.metodistavilaisabel.org.br/docs/um-tratado-sobre-batismo-infantil.pdf )

A Responsabilidade dos pais

Os pais têm uma grande responsabilidade sobre a fé e a educação religiosa dos seus filhos (Dt 6.6-7). Temos na Bíblia a promessa de que os filhos bem educados no caminho do Senhor não irão se desviar dele (Pv 22.6). Sendo assim, os pais devem guiar seus filhos, através da instrução e do exemplo, no caminho da vida eterna.
A promessa do Espírito e da salvação não se restringe aos adultos, mas se estende aos filhos (At 2.38). Um pai ouve de Paulo que seu ato de fé em Deus abriria a porta da salvação a toda a sua casa (At 16.31). Quando Zaqueu se converteu, Jesus declarou: “hoje veio salvação para esta casa” (Lc 19.9). A Bíblia ensina também que a “oração de um justo pode muito em seus efeitos” (Tg 5) e, como já mencionado, sabemos que uma mulher crente santifica sua família a ponto dos seus filhos serem contados entre os “santos” (1 Co 7.14).

Respondendo às objeções mais comuns

1. Não existe mandamento para batizar crianças

E nem era necessário, pois as crianças que eram filhas dos crentes sempre foram reconhecidas como membros da igreja visível do Antigo Testamento. Seria de se esperar o contrário: um mandamento para não mais incluí-las na igreja do Novo Testamento.

2. As crianças não preenchem as condições necessárias: arrependimento e fé

Textos que mencionam arrependimento e fé como condição para o batismo foram dirigidos a primeira geração de convertidos. Pois, o mesmo argumento as excluiria do céu! “Se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” (Lc 13:3). “Quem nele crê não é condenado; o que não crê já está condenado” (Jo 3:18). Mesmo aqueles que condenam o batismo infantil não são capazes de concluir que estariam condenadas ao inferno as criancinhas que não tem idade para se arrepender e exercer fé. Portanto, concluímos que tais textos se dirigem àqueles que têm idade para responder com arrependimento e fé e não formam uma legislação aplicável aos infantes. A Bíblia também diz: ‘‘Quem não trabalha não coma’’. E as crianças?! Devemos deixá-las com fome, porque não podem trabalhar?!
As crianças de Israel também não poderiam se arrepender e ter fé nas promessas, que eram condições para a salvação também nos tempos do Antigo Testamento, mas mesmo assim eram circuncidadas e consideradas membros do povo de Deus. Abraão, por exemplo, creu em Deus e isto lhe foi imputado por justiça, recebendo a seguir o sinal da aliança, que foi também aplicado a seus filhos, ainda que não tivessem idade para exercer fé em Deus (Gn 17).

3. Jesus só foi batizado quando tinha 30 anos de idade

Através de seu batismo, o Senhor Jesus confirmou a pregação de João que preparava o caminho para a chegada dele próprio, o Cristo! Há uma clara distinção entre o batismo de João e o de Cristo que não é com apenas água, mas também com o Espírito Santo e com fogo! Os que haviam sido batizados com o batismo de João, precisaram ser batizados no batismo de Cristo para serem reconhecidos como cristãos e recebidos na Igreja (Atos 19-3-5).
João Wesley lembra que os judeus da época de Cristo “continuamente batizaram, assim como circuncidaram todos os prosélitos infantis. Nosso Senhor, portanto, ordenou aos seus Apóstolos a fazerem prosélitos ou discípulos de todas as nações, batizando-os, e não os proibindo de receberem as criancinhas, assim como outros, eles necessitariam batizar crianças também.
Os judeus admitiram prosélitos, através do batismo, assim como, através da circuncisão, até mesmo famílias completas juntas, pais e filhos, nós temos o testemunho unânime de seus mais antigos, eruditos e autênticos escritores. Os homens eram recebidos pelo batismo e circuncisão; as mulheres pelo batismo apenas. Consequentemente, os Apóstolos, exceto se nosso Senhor proibisse expressamente, faziam a mesma coisa, evidentemente. Na verdade, a conseqüência mantida da circuncisão apenas. Porque, se fosse costume dos judeus, quando eles reuniam prosélitos de todas as nações, admitirem crianças dentro da Igreja, através da circuncisão, embora elas não pudessem verdadeiramente acreditar na lei, ou obedecerem-na; então, os Apóstolos, fazendo prosélitos para o Cristianismo, através do batismo, nunca pensariam em excluir crianças, a quem os judeus sempre admitiram (a razão porque sua admissão é a mesma), exceto se nosso Senhor tivesse expressamente proibido isto. Segue-se que os Apóstolos batizaram crianças. Portanto, eles são objetos apropriados do batismo.” (Um Tratado Sobre o Batismo Infantil).
Além do mais, os que querem levar o exemplo de Cristo ao pé da letra, para serem coerentes consigo mesmos, deveriam adotar o batismo única e tão somente para aqueles que tivessem 30 anos de idade.

4. Mas e se vier a desviar-se da fé depois de grande?

Este risco existe para todos, independente da etapa da vida em que foram batizados. É um questão de discipulado. Há mais risco em deixar os filhos decidirem pelo batismo na fase da adolescência, pois pode dar a entender que eles tem ali a oportunidade de decidirem se querem ou não abraçar a fé cristã. No caso dos que foram batizados na infância, a única e mais difícil opção seria abandonar a fé em que foram batizados e educados. O batismo na infância, como sinal da Aliança, exorta o desviado a retornar ao Caminho.

5. O batismo infantil não é válido por ser por aspersão

Existe muita controvérsia em relação a forma de batismo. Muitos apregoam que o batismo só é válido se for feito por imersão, questionando, assim, o valor do batismo daqueles que foram batizados por aspersão ou afusão. Fazem um verdadeiro cavalo de batalha sobre uma questão secundária, pois se o método fosse fundamental, certamente, haveria prescrições claras nas Escrituras a este respeito. No entanto, nem Jesus e nem os seus Apóstolos escreveram uma linha sequer ensinando que o batismo deve ser feito desta ou daquela forma. E não é plausível a alegação de que a ausência de prescrição imersionista se deu por falta de necessidade, numa tentativa de nos fazer crer que na época não se ventilava sequer a hipótese de que o batismo fosse feito por aspersão ou afusão. Pois, os rituais de purificação e os batismos judaicos eram todos realizados por aspersão, além disto, é bem sabido que a prática do batismo cristão por afusão ou aspersão era algo bem comum já no primeiro século da Igreja.
A Didaqué, conhecida também como Doutrina dos Apóstolos, e que foi escrita no final do primeiro século da era cristã, quer dizer, logo depois do apóstolo João ter escrito o seu Evangelho, sim, este que, depois das Escrituras, é o mais antigo documento cristão, já ensinava ser legítimo o uso das distintas formas de batismo: “Quanto ao batismo, procedam assim: depois de ditas todas essas coisas [isto é, de instruídos os catecúmenos na doutrina cristã], batizem em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Se não se tem água corrente, batize em qualquer outra água; se não puder batizar em água fria, faça-o em água quente. Na falta de uma e outra, derrame três vezes água sobre a cabeça [do neófito], em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.(Didaque,VII — Tradução, introdução e notas: Pe. Ivo Storniolo-Euclides Martins Balancin, Ed. Paulus, São Paulo, 1989, p. 19).
É obvio que os primeiros cristãos tiveram de lidar com circunstâncias em que o batismo por imersão seria inadequado ou, até mesmo, impossível. Pois, dependendo da gravidade da enfermidade de um candidato ao batismo, torna-se impraticável o método imersionista. Tal método também seria inconveniente em muitas outras ocasiões, como, por exemplo, quando o Apóstolo Paulo e outros mártires tiveram que batizar outros presos e, até mesmo, alguns guardas que se converteram durante o período de seus ministérios em que estavam aprisionados. Como praticar o batismo por imersão em lugares inóspitos como as regiões de deserto, onde a água é produto raríssimo?
O próprio livro dos Atos dos Apóstolos registra alguns episódios onde o batismo por imersão seria inviável. Por exemplo, como batizar por imersão uma multidão de três mil pessoas que se converteu na cidade de Jerusalém, onde não havia rio? Observar também que em Atos 2 não há nenhuma menção de ter havido uma movimentação daquela enorme multidão numa longa jornada até um rio distante fora da cidade para a realização do batismo. Outro exemplo notório é o do batismo do carcereiro de Filipos, registrado em Atos 16, que foi batizado de madrugada. Até o pastor batista, Tácito da Gama Leite Filho, em seu livro “Seitas Proféticas”, na página 108, reconhece o fato, escrevendo que: “O carcereiro de Filipos e seus familiares certamente não foram batizados num rio, pois era de madrugada e as portas da cidade estavam fechadas”.
Outro ponto a ser levado em consideração é que batismos para purificação eram uma prática milenar entre os judeus. O método da aspersão de água para purificação de pecados era o usado no Antigo Testamento. Tanto que há mais de duzentas menções a ele na Bíblia. O autor de Hebreus claramente ensina que o método da aspersão usado por Moisés para a purificação do povo hebreu era um tipo ou cópia da purificação perfeita que hoje encontramos em Cristo (Hb 9.19-28). Se as purificações se davam por aspersão no contexto do nascimento da igreja, é bem plausível que os Apóstolos tenham seguido o modelo do Antigo Testamento, que eram as Escrituras Sagradas deles, para a prática do batismo cristão, ainda mais tendo de lidar com circunstâncias onde a imersão era impraticável. O mesmo podemos dizer com referência a João Batista, que, conforme Jesus, era o Elias prometido em Malaquias 4.5, cuja missão era a de preparar o caminho do Messias, promovendo a purificação dos levitas (Ml3.1-3). Para a purificação dos levitas, João Batista, que era um profeta judeu cumpridor da lei, deveria obedecer o que o Senhor havia prescrito a Moisés: “Separe os levitas do meio dos israelitas e purifique-os. A purificação deles será assim: você aspergirá a água da purificação sobre eles…” (Nm 8.6-7). Se a imersão é a única forma correta correta de batismo, por que, então, as figuras cristãs mais antigas do mundo, retratam o batismo de Jesus como tendo sido feito por aspersão ou afusão?
Visto que o batismo é o ritual de iniciação cristã que aponta para o lavar regenerador e purificador do Espírito Santo que Deus derramou sobre nós abundantemente por meio de Jesus, nosso Salvador (Tito 3.5-6), e cientes de que o batismo de Cristo é com o Espírito Santo e com fogo, então, precisamos reconhecer que o método de batismo por aspersão ou afusão seria o que melhor expressa o batismo com o Espírito Santo, que é constantemente descrito como sendo derramado: “derramarei do meu Espírito sobre toda carne” (Joel), “o Espírito Santo veio sobre vós” (At 1:5), e “até que se derrame sobre nós o espírito lá do alto” (Is 32:15).
De acordo com o texto original grego, o batismo é sempre “com” o Espírito Santo e nunca “no” Espírito, o que também sugere o ato de derramar. Por exemplo, em Lucas 3:16, João está dizendo: “eu na verdade batizo com água… mas ele vos batizará com o Espírito Santo”; se os mesmos termos são usados para descrever os dois tipos de batismos, “batizo com” e “batizará com”, por que com o Espírito teria o sentido de derramamento, enquanto com água deveria ser interpretado como imersão? E se o termo batismo apenas significasse imersão como poderia estar sendo utilizado como uma referência ao derramar do Espírito?
Em Ezequiel 36.25-27, Deus promete aspergir água pura para purificar seu povo, promete também dar a eles um novo coração e também promete conceder-lhes o Seu Espírito. Sabemos que tudo isto se cumpre através de Cristo a partir do dia de Pentecostes. Temos aí uma clara referência ao Batismo Cristão que é operado pelo derramar do Espírito Santo. Sendo assim, o batismo está sendo prefigurado pelo ato do próprio Deus que está aspergindo água pura visando promover purificação e nova vida. O mesmo podemos ver em Isaías 44:1-6, onde a promessa do derramamento do Espírito está atrelada ao promessa do derramamento de água!
O “Léxico do Novo Testamento Grego/Português”, páginas 40 e 41 define “baptizo” como mergulhar, imergir, lavagens rituais judaicas, lavar as mãos, ablução, lavagem cerimonial, molhar, embeber, salpicar, o que combina com aspersão. Em Marcos 7.4, o termo grego, ‘batismo’, significa lavar, e esta lavagem ritual judaica era sempre feita através do derramamento de água sobre os utensílios (Nm 8. 5-7) ou sobre as pessoas (Ez 36.25). Em Hebreus 9.10, o termo grego ‘batismos’ é traduzido por abluções que também se davam por aspersão (Ex 29.21).
Berkhof, na pg. 630, diz que: “é mais que evidente que as palavras bapto e baptizo, tinham outros significados, como os de (lavar), (banhar-se) e (purificar mediante livramento).” Sendo que a ideia de purificação acabou sendo a predominante. E a aspersão era a forma ritual de purificação no contexto judaico (Nm 8:7, 19:13, 18-20; Sl 51:4, Ez 36:25). Além disto, não existe um único texto no Novo Testamento que descreva o batismo sendo realizado por imersão.
Apenas para ressaltar que o termo batismo era também usado no sentido de aspersão mesmo antes do período do Novo Testamento, menciono a tradução grega de Eclesiástico 34:30, datada de 132 A.C., que utiliza a palavra baptizo para referir-se ao ato de aspergir água para purificação de quem tivera tocado em cadáver (Cf. Nm 19).
Certa vez, ouvi alguém argumentando que o Apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 10.2, estaria fazendo menção ao batismo por imersão quando afirma que os antepassados judeus haviam sido batizados na nuvem e no mar. No entanto, tal texto, em vez de colaborar com o ponto de vista imersionista, serve, de fato, como um forte argumento em favor do batismo por aspersão ou afusão. Pois sabemos que os hebreus da época de Moisés não foram mergulhados na nuvem, pelo contrário, o versículo um, claramente afirma que eles estavam sob a nuvem, de modo que as águas da nuvem eram derramadas sobre eles. E também sabemos que o povo hebreu jamais foi mergulhado no Mar Vermelho. Na verdade, eles atravessaram o mar com os pés enxutos, apenas o exército egípcio que os perseguia é que foi submerso! No máximo, o povo hebreu recebeu os respingos que eram aspergidos pelos dois paredões de água que se fizeram quando o mar se abriu. Portanto, tais metáforas melhor se harmonizam com a ideia de aspersão e afusão.
O Apóstolo Pedro apresenta a arca de Noé como uma metáfora para o batismo cristão, dizendo que as 8 pessoas ali foram salvas por meio da água, e conclui dizendo: “isto é representado pelo batismo que agora também salva vocês” (1 Pe 3.20,21). Como sabemos que a arca não foi imersa nas águas do dilúvio, temos aí, mais uma metáfora que favorece o batismo por aspersão ou afusão, pois eles foram salvas através das águas que foram derramadas sobre eles. Tanto no episódio do Mar Vermelho como também aqui, somente os ímpios é que foram imersos como punição.
De maneira semelhante aos rituais de expiação do Antigo Testamento, o sangue do Cordeiro de Deus que foi derramado em nosso favor (Lc 22:20), é, figuradamente, aplicado a nós através do método da aspersão: “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas” (I Pe 1:2). Esta é uma alusão ao batismo porque diz respeito a aplicação dos méritos do sangue de Cristo para a justificação e santificação do convertido. A associação entre água e sangue se vê claramente em 1 Jo 5.6, onde se lê: “Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo: não somente por água, mas por água e sangue”. “Sendo assim, aproxime-mo-nos de Deus com um coração sincero e com plena convicção de fé, tendo os corações aspergidos para nos purificar de uma consciência culpada, e tendo os nossos corpos lavados com água pura” (Hb 10.22).
Portanto, não é errado batizar por aspersão ou efusão. Como também não vejo que haja erro no batismo por imersão. Não é a quantidade de água e nem a forma de sua aplicação que torna o batismo mais ou menos eficaz. Algumas considerações bíblicas podem levar alguns a preferirem a aspersão ou a afusão no lugar da imersão, por serem os que melhor expressam o derramamento do Espírito e também por se assemelharem aos rituais de purificação e aos batismos que eram praticados pelos judeus em obediência a Lei de Moisés. Outros, devido a tradição e também à algumas passagens bíblicas como Romanos 6, podem preferir o batismo por imersão. Independentemente de nossa preferência, o mais importante é reconhecer que existem bons argumentos bíblicos e históricos para o uso de todas as formas batismais. O que não podemos fazer, de maneira alguma, é discriminar as pessoas por causa da forma de seu batismo, conclamando-as ao rebatismo numa atitude de desprezo ao seu batismo, pois isto promove confusão e divisão no corpo de Cristo, além de não ser justificável à luz das Escrituras Sagradas conforme demonstrado neste breve estudo.
Para finalizar, gostaria de levantar a seguinte questão: Por que aqueles que são tão rigorosos quanto ao que eles supõem ser a forma correta de batismo não usam do mesmo rigor quanto a forma da celebração da Ceia do Senhor, fazendo uso de suco de uva no lugar do vinho e de pão fermentado no lugar do pão ázimo? Tal incongruência é simplesmente injustificável!

Conclusão

Temos base bíblica para o batismo infantil. Cristo concedeu as crianças um tratamento superior ao que era dado a elas no Antigo Testamento. Se o sinal da Antiga Aliança devia ser comunicado aos infantes, não seria coerente privar a estes do sinal da Nova Aliança que em tudo é superior a Antiga. O batismo infantil tem sido praticado desde os tempos dos apóstolos.
Bispo José Ildo Swartele de Mello

Os 5 solas da reforma protestante

Os Cinco Solas da Reforma
Sola Scriptura, Sola Christus, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria
por
Declaração de Cambridge


SOLA SCRIPTURA: A Erosão da Autoridade
Só a Escritura é a regra inerrante da vida da igreja, mas a igreja evangélica atual fez separação entre a Escritura e sua função oficial. Na prática, a igreja é guiada, por vezes demais, pela cultura. Técnicas terapêuticas, estratégias de marketing, e o ritmo do mundo de entretenimento muitas vezes tem mais voz naquilo que a igreja quer, em como funciona, e no que oferece, do que a Palavra de Deus. Os pastores negligenciam a supervisão do culto, que lhes compete, inclusive o conteúdo doutrinário da música. À medida que a autoridade bíblica foi abandonada na prática, que suas verdades se enfraqueceram na consciência cristã, e que suas doutrinas perderam sua proeminência, a igreja foi cada vez mais esvaziada de sua integridade, autoridade moral e discernimento.
Em lugar de adaptar a fé cristã para satisfazer as necessidades sentidas dos consumidores, devemos proclamar a Lei como medida única da justiça verdadeira, e o evangelho como a única proclamação da verdade salvadora. A verdade bíblica é indispensável para a compreensão, o desvelo e a disciplina da igreja.
A Escritura deve nos levar além de nossas necessidades percebidas para nossas necessidades reais, e libertar-nos do hábito de nos enxergar por meio das imagens sedutoras, clichês, promessas e prioridades da cultura massificada. É só à luz da verdade de Deus que nós nos entendemos corretamente e abrimos os olhos para a provisão de Deus para a nossa sociedade. A Bíblia, portanto, precisa ser ensinada e pregada na igreja. Os sermões precisam ser exposições da Bíblia e de seus ensino, não a expressão de opinião ou de idéias da época. Não devemos aceitar menos do que aquilo que Deus nos tem dado.
A obra do Espírito Santo na experiência pessoal não pode ser desvinculada da Escritura. O Espírito não fala em formas que independem da Escritura. À parte da Escritura nunca teríamos conhecido a graça de Deus em Cristo. A Palavra bíblica, e não a experiência espiritual, é o teste da verdade.
Tese 1: Sola Scriptura
Reafirmamos a Escritura inerrante como fonte única de revelação divina escrita, única para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado.
Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação.

SOLO CHRISTUS
: A Erosão da Fé Centrada em Cristo


À medida que a fé evangélica se secularizou, seus interesses se confundiram com os da cultura. O resultado é uma perda de valores absolutos, um individualismo permissivo, a substituição da santidade pela integridade, do arrependimento pela recuperação, da verdade pela intuição, da fé pelo sentimento, da providência pelo acaso e da esperança duradoura pela gratificação imediata. Cristo e sua cruz se deslocaram do centro de nossa visão.
Tese 2: Solus Christus
Reafirmamos que nossa salvação é realizada unicamente pela obra mediatória do Cristo histórico. Sua vida sem pecado e sua expiação por si só são suficientes para nossa justificação e reconciliação com o Pai.
Negamos que o evangelho esteja sendo pregado se a obra substitutiva de Cristo não estiver sendo declarada e a fé em Cristo e sua obra não estiver sendo invocada.
SOLA GRATIA: A Erosão do Evangelho

A Confiança desmerecida na capacidade humana é um produto da natureza humana decaída. Esta falsa confiança enche hoje o mundo evangélico – desde o evangelho da auto-estima até o evangelho da saúde e da prosperidade, desde aqueles que já transformaram o evangelho num produto vendável e os pecadores em consumidores e aqueles que tratam a fé cristã como verdadeira simplesmente porque funciona. Isso faz calar a doutrina da justificação, a despeito dos compromissos oficiais de nossas igrejas.
A graça de Deus em Cristo não só é necessária como é a única causa eficaz da salvação. Confessamos que os seres humanos nascem espiritualmente mortos e nem mesmo são capazes de cooperar com a graça regeneradora.
Tese 3: Sola Gratia
Reafirmamos que na salvação somos resgatados da ira de Deus unicamente pela sua graça. A obra sobrenatural do Espírito Santo é que nos leva a Cristo, soltando-nos de nossa servidão ao pecado e erguendo-nos da morte espiritual à vida espiritual.
Negamos que a salvação seja em qualquer sentido obra humana. Os métodos, técnicas ou estratégias humanas por si só não podem realizar essa transformação. A fé não é produzida pela nossa natureza não-regenerada.

SOLA FIDE: A Erosão do Artigo Primordial


A justificação é somente pela graça, somente por intermédio da fé, somente por causa de Cristo. Este é o artigo pelo qual a igreja se sustenta ou cai. É um artigo muitas vezes ignorado, distorcido, ou por vezes até negado por líderes, estudiosos e pastores que professam ser evangélicos. Embora a natureza humana decaída sempre tenha recuado de professar sua necessidade da justiça imputada de Cristo, a modernidade alimenta as chamas desse descontentamento com o Evangelho bíblico. Já permitimos que esse descontentamento dite a natureza de nosso ministério e o conteúdo de nossa pregação.
Muitas pessoas ligadas ao movimento do crescimento da igreja acreditam que um entendimento sociológico daqueles que vêm assistir aos cultos é tão importante para o êxito do evangelho como o é a verdade bíblica proclamada. Como resultado, as convicções teológicas freqüentemente desaparecem, divorciadas do trabalho do ministério. A orientação publicitária de marketing em muitas igrejas leva isso mais adiante, apegando a distinção entre a Palavra bíblica e o mundo, roubando da cruz de Cristo a sua ofensa e reduzindo a fé cristã aos princípios e métodos que oferecem sucesso às empresas seculares.
Embora possam crer na teologia da cruz, esses movimentos a verdade estão esvaziando-a de seu conteúdo. Não existe evangelho a não ser o da substituição de Cristo em nosso lugar, pela qual Deus lhe imputou o nosso pecado e nos imputou a sua justiça. Por ele Ter levado sobre si a punição de nossa culpa, nós agora andamos na sua graça como aqueles que são para sempre perdoados, aceitos e adotados como filhos de Deus. Não há base para nossa aceitação diante de Deus a não ser na obra salvífica de Cristo; a base não é nosso patriotismo, devoção à igreja, ou probidade moral. O evangelho declara o que Deus fez por nós em Cristo. Não é sobre o que nós podemos fazer para alcançar Deus.
Tese 4: Sola Fide
Reafirmamos que a justificação é somente pela graça somente por intermédio da fé somente por causa de Cristo. Na justificação a retidão de Cristo nos é imputada como o único meio possível de satisfazer a perfeita justiça de Deus.
Negamos que a justificação se baseie em qualquer mérito que em nós possa ser achado, ou com base numa infusão da justiça de Cristo em nós; ou que uma instituição que reivindique ser igreja mas negue ou condene sola fide possa ser reconhecida como igreja legítima.
SOLI DEO GLORIA: A Erosão do Culto Centrado em Deus

Onde quer que, na igreja, se tenha perdido a autoridade da Bíblia, onde Cristo tenha sido colocado de lado, o evangelho tenha sido distorcido ou a fé pervertida, sempre foi por uma mesma razão. Nossos interesses substituíram os de Deus e nós estamos fazendo o trabalho dele a nosso modo. A perda da centralidade de Deus na vida da igreja de hoje é comum e lamentável. É essa perda que nos permite transformar o culto em entretenimento, a pregação do evangelho em marketing, o crer em técnica, o ser bom em sentir-nos bem e a fidelidade em ser bem-sucedido. Como resultado, Deus, Cristo e a Bíblia vêm significando muito pouco para nós e têm um peso irrelevante sobre nós.
Deus não existe para satisfazer as ambições humanas, os desejos, os apetites de consumo, ou nossos interesses espirituais particulares. Precisamos nos focalizar em Deus em nossa adoração, e não em satisfazer nossas próprias necessidades. Deus é soberano no culto, não nós. Nossa preocupação precisa estar no reino de Deus, não em nossos próprios impérios, popularidade ou êxito.
Tese 5: Soli Deo Gloria
Reafirmamos que, como a salvação é de Deus e realizada por Deus, ela é para a glória de Deus e devemos glorificá-lo sempre. Devemos viver nossa vida inteira perante a face de Deus, sob a autoridade de Deus, e para sua glória somente.
Negamos que possamos apropriadamente glorificar a Deus se nosso culto for confundido com entretenimento, se negligenciarmos ou a Lei ou o Evangelho em nossa pregação, ou se permitirmos que o afeiçoamento próprio, a auto-estima e a auto-realização se tornem opções alternativas ao evangelho.



Fonte: Declaração de Cambridge

Crente pode julgar?


Em uma época em que muitos ensinos contrários a Bíblia Sagrada são propagados em nossos púlpitos e igrejas, posso perceber que dentre eles existem alguns que são usados com dolo por parte daqueles que o pregam, intentando realizar uma defesa própria em pleno Altar Eclesiástico.

Um destes ensinos (tão propagados) é o que concerne à questão de poder o crente julgar ou não o seu próximo, seu irmão e o seu meio como um todo. É comum ouvirmos em nosso meio os pregadores falarem com total “autoridade bíblica”: “Irmãos, não julgueis para que não sejais julgados! Aleluuuuuuuuuuiiiiiiiaaaaaaa!!”; em outros casos vemos frases como: “Quem é você para julgar os outros?”, e por aí vai!

Mas afinal de contas, o crente pode ou não pode julgar?

Não, o crente não pode julgar, ele DEVE julgar tudo o que se houve e se vê em nossas igrejas. Esta é a doutrina bíblica concernente ao assunto.

Alguns “eixegetas” evangélicos, tirando conclusões precipitadas de textos como Mt 7:1-5; Lc 6:37,38; Rm 14:4,10 e 1 Co 11:31, estes pregadores e ensinadores acabam concebendo uma má formação para aqueles crentes não abalizados na Palavra de Deus.

Para uma primeira análise e subsídio do leitor, deixo a definição dos três termos gregos que tratam sobre julgamento. Para tal farei uso da definição dos mesmos conforme o Dicionário “A Concise Greek – English Dictionary of The New Testament”:

κρινω - krino – julgar, passar julgamento, ser julgado, condenar, decidir, determinar, considerar, estimar, pensar e preferir; cf. Jo 7:24; At 4:19; 13:27; 21:25; 23:67; 24:21; Rm 2:27; Tg 5:9.

ανακρινω - anakrino – questionar, examinar (estudar as escrituras como em Atos 17:11), julgar, avaliar, sentar-se para julgar ou em juízo, convocar para prestar contas; cf. At 17:11; 1 Co 2:14,15; 4:3,4; 9:3; 10:25,27; Gl 2:11-14.

διακρινω - diakrino – avaliar, julgar, reconhecer, discernir, fazer distinção entre pessoas, considerar-se ou fazer-se superior a outras pessoas (ver 1 Coríntios 4:7), duvidar, hesitar, disputar, debater, tomar lado ou partido; cf. At 15:9; 1 Co 6:5; 11:31; 14:29.

A Bíblia é clara quanto à nossa obrigação de realizarmos um juízo de tudo o que vemos e ouvimos em nossas igrejas, tudo mesmo. Devemos suscitar uma mentalidade mais crítica do Povo de Deus; claro que esta crítica e análise deve ser sempre embasada na Palavra de Deus, que é a nossa Carta Magna, nosso Manual de Vida e Fé. Todo e qualquer julgamento que fugir aos padrões estabelecidos na Palavra de Deus com certeza será falho e injusto.

Já no Antigo Testamento vemos exemplos de homens de Deus julgando seu meio. Lembremo-nos logo de Abraão, em sua conversa com Deus relatada em Gn 18:24-32, onde o Patriarca judeu pede que Deus não destrua Sodoma se ele achasse naquela cidade 50 homens justos, sendo que Deus concorda em não destruir a cidade pelo amor aos 50; logo em seguida Abraão pensa direito e reduz o número do pedido para 45, e Deus concorda em poupar a cidade por amor aos 45; a conversa continua e Abraão vai analisando a situação dos “homens” de Sodoma e pede para diminuir o número para 40, depois para 30, depois 20 e por último Abraão já tava pedindo para achar apenas 10 justos em Sodoma (para quem começou com 50...). Percebemos claramente Abraão realizando um julgamento dos habitantes de Sodoma, taxando-os de ímpios e pecadores; e Deus não o repreendeu por isso, pois sabia que esta era a verdade dos fatos.

E o que falar de Jeremias, quando ele diz em Jr 5:30,31: “Coisa espantosa e horrenda se anda fazendo na terra: os profetas profetizam falsamente, e os sacerdotes dominam de mãos dadas com eles; e é o que deseja o meu povo. Porém que fareis quando estas coisas chegarem ao seu fim?”. Que coisa! Jeremias rasgou mesmo a podridão que estava reinando em Israel! Ele simplesmente disse que os profetas eram mentirosos, que os sacerdotes (líderes religiosos) governavam de mãos dadas, ou seja, eles diziam mais ou menos assim em minha humilde conjectura: “vamos gastar os dízimos e as ofertas ao nosso favor; eu ponho seu filho como chefe de tal setor e você põe meu sobrinho como chefe do setor tal”; por fim Jeremias julga o povo dizendo que eles compactuavam com este cenário deplorável e corrupto.

É notório a todos os leitores atentos da Bíblia Sagrada que Deus mandava mesmo os profetas julgarem ao seu povo. Basta lermos, dentre inúmeras referências, textos como Ez 13 e Is 59:7,8.

O salmista orou da seguinte maneira: “Ensina-me bom juízo e conhecimento, pois creio nos teus mandamentos” Salmo 119:66.

E no Novo Testamento é que vemos exemplos de homens de Deus julgando ao seu meio. Fico pensando o que estes pregadores atuais diriam de João Batista, ao ouvir o profeta chamar os judeus de raça de víboras (Mt 3:7; Lc 3:7).

E o que falar de Paulo? Quem conhece as suas cartas sabe que ele foi um dos maiores julgadores cristãos de toda a história. Lembremo-nos apenas das palavras do Apóstolo dos gentios em 1 Co 6:2-5: “Ou não sabeis que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deverá ser julgado por vós, sois, acaso, indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos? Quanto mais as coisas desta vida! Entretanto, vós, quando tendes a julgar negócios terrenos, constituís um tribunal daqueles que não têm nenhuma aceitação na igreja. Para vergonha vo-lo digo. Não há, porventura, nem ao menos um sábio entre vós, que possa julgar no meio da irmandade?”. Palavras claras. Não posso esquecer de citar Gl 2:11-14, onde Paulo dá uma senhora censurada em Pedro, além de lhe dar uma básica doutrinação também. Ver ainda 1 Co 5:12. Ver também 1 Co 14:29, onde Paulo manda a igreja julgar as profecias.

O próprio Pedro em At 4:19 desafia os judeus para que os mesmos julgassem a questão religiosa entre eles e os seguidores de Cristo, tendo em mente que se eles realizassem um julgamento imparcial e bíblico seriam convencidos da messianidade de Jesus. Pedro mandou os judeus realizarem um julgamento.

E o que dizermos da conclusão de Tiago sobre o rito mosaico, onde o mesmo diz em At 15:19: “Por isso julgo que não se deve perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem a Deus”. Poxa vida, como é que pode, Tiago, um servo de Deus, realizando um julgamento. Com certeza ele também seria censurado por estes pregadores convencionais da atualidade.

E Jesus, o que ele nos mostrou sobre o julgar? Jesus nos ensinou que devemos sim julgar. Vejam bem o que Jesus disse e ficou registrado em Jo 7:24: “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça”. Que interessante. O próprio Cristo nos manda julgar, mas julgar segundo a reta justiça. E o que seria essa reta justiça? Jesus responde em Jo 12:48: “Quem me rejeitar a mim, e não receber as minhas palavras, já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar no último dia”. Vejam que Cristo não censura o ato de julgar, mas censura um julgamento injusto, apenas pela aparência, tendencioso, cego.

O julgamento deve ser realizado sob a ótica das Sagradas Escrituras, e todos, sem exceção, estão sob a jurisdição deste julgamento. É o que vemos em At 17:11, onde os crentes de Beréia sempre colocavam as palavras de Paulo e Silas sob o crivo das Escrituras, sendo que os mesmos foram elogiados por Paulo em virtude deste sublime ato. Vejam que o próprio Paulo, expoente maior da teologia cristã de todos os tempos, teve suas palavras julgadas sob o crivo da Palavra de Deus, imagine os “teólogos” de hoje em dia. Misericórdia!

Jesus em Lc 7:43 elogia Simão, pelo fato do mesmo ter realizado um julgamento correto. Ainda em Lc 12:57 Jesus desafia as multidões a julgarem por si mesmas o que é justo. Jesus ainda prometeu aos apóstolos que eles se assentariam sobre 12 tronos para julgarem as 12 tribos de Israel (Mt 19:28).

Por fim, em Ap 20:4a João diz: “E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar”.

Quanto aos textos de Mt 7:1-5; Lc 6:37,38; Rm 14:4,10 e 1 Co 11:31, se os mesmos forem analisados cuidadosamente, o leitor perceberá que não há nenhuma censura ao fato de julgar sob a ótica bíblica, mas sim ao fato de se julgar erroneamente, pela aparência, julgar com hipocrisia.

Em Mt 7:1 está escrito “NÃO julgueis, para que não sejais julgados”; oras, todos os leitores da Bíblia sabem que todos (crentes ou não) serão julgados por Deus (At 17:31; Rm 14:10; 1 Pe 4:17; Ap 20:13). Oras, pensar que se não executarmos nenhum juízo nesta terra contra ninguém nos livrará do julgamento de Deus é, no mínimo, uma inocência bíblica muito grande. O que Jesus censurou em Mt 7:1 foi a hipocrisia, é o que se aprende ao ler os versos seguintes, do 2 ao 5: “Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós. E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão”. Jesus censurou um julgamento proferido por alguém que está com o mesmo ou com outro pecado que o não permite a realizar o julgamento do irmão. No verso 2 Jesus apenas reforça a lei da semeadura de Gl 6:7, sendo que quem julgar injustamente, com certeza também será julgado injustamente pelos outros nesta vida. Todo este capítulo aqui exposto é reiterado em Lc 6:37,38; é a mesma coisa.

O caso de Rm 14:4,10 trata apenas do caso em que um irmão julga a outro (que está em pé) como se estivesse caído. Nada mais do que isso. Em 1 Co 11:31 Paulo apenas trata do julgamento que ele próprio estava proferindo contra os irmãos de Corinto, por causa das dissensões e mal celebração da Ceia do Senhor. Paulo disse que se eles houvessem se julgado, analisado as suas atitudes anteriormente, não estariam passando por este julgamento (repreensão) por parte do apóstolo, pois com certeza eles teriam percebido seus erros e teriam eles mesmos se corrigidos.

Que o Senhor abençoe a todos os seus, dando graça e sabedoria para melhor proveito do Reino dos Céus aqui na terra, e para honra e para glória do seu Eterno Nome. Amém.

Anchieta Campos

Tentação do Deserto- Exposição John Knox



Uma exposição confortadora de Mateus 4,

concernente a tentação de Cristo no deserto.

por John Knox (1503-1572†)

Pela graça de Deus, nos proporemos a observar, no trato deste assunto:

...

"Se és Filho de Deus manda que estas pedras se transformem em pães. Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Mt.4:3-4)

O propósito pelo qual o Espírito Santo conduziu Jesus ao deserto para que Jesus fosse tentado, é nos fazer entender, através deste fato, que Satanás nunca cessa de se opor aos filhos de Deus, mas continuamente, por um meio ou outro, os conduz e os provoca a algum juízo pecaminoso sobre o Deus deles. Desejar que pedras se transformem em pães ou que a fome seja satisfeita, nunca foi pecado, nem tão pouco uma opinião pecaminosa sobre Deus, mas, creio que esta tentação foi mais espiritual, mais sutil e mais perigosa. Satanás estava se referindo a voz de Deus que disse ser Cristo Seu Filho Amado.



Contra esta declaração ele luta, como lhe é intrínseco fazer, contra a indubitável e imutável palavra de Deus; pois sua malícia contra Deus e seus filhos escolhidos é tal, que para quem Deus declara amor e misericórdia, a estes ele ameaça com desprazeres e maldições; e onde Deus ameaça morte, lá ele é audacioso em declarar vida. Por causa disto Satanás é chamado de mentiroso desde o princípio (Jo. 8:44).

Assim sendo, o objetivo de Satanás é levar Cristo a desesperança, para que Ele não creia na voz de Deus seu Pai; e este parece ser o significado desta tentação: "Tu ouviste", Satanás diria, "uma voz dos céus dizer que Tu eras o amado Filho de Deus, no qual Ele se compraz (Mt.3:17), mas não te julgarão louco ou um tolo sem juízo, se creres em tal promessa? Onde estão os sinais deste amor? Tu não estás sem o conforto de todas as criaturas? Tu estás pior do que as brutas feras, pois todo dia elas caçam para se alimentar e a terra produz grama e ervas para seu sustento, de forma que nenhuma delas definha ou é consumida pela fome. Mas tu jejuas há quarenta dias e quarenta noites, esperando sempre algum alívio e conforto dos céus, mas tua melhor provisão são pedras duras! Se Te glorias em teu Deus, e crês verdadeiramente na promessa que foi feita, ordena que estas pedras se transformem em pães. Mas, é evidente que Tu não o podes fazer, pois se pudesses, ou se teu Deus tivesse Te concedido tal privilégio, há muito terias matado tua fome e não necessitarias suportar este abatimento por falta de comida. Mas vendo que ainda continuas assim e que nenhum mantimento foi preparado para Ti, é presunção acreditar em tal promessa, e por isso, perca a esperança de qualquer socorro das mãos de Deus e proveja para Ti, por qualquer outro meio!"

Eu usei muitas palavras, mas eu não posso expressar o grande despeito que se esconde nesta tentação de Satanás. Foi uma zombaria de Cristo e de sua obediência. Foi uma clara rejeição da promessa de Deus. Foi a voz triunfante dele que aparentava ter conseguido a vitória. Oh! quão amargo este tipo de tentação é, nenhuma criatura pode entender, a não ser os que sentem a dor de tais dardos lançados por Satanás na consciência sensível dos que alegremente descansam e repousam em Deus e nas suas promessas de misericórdia.



Mas aqui devemos notar a base e o fundamento desta tentação. A conclusão de Satanás é esta: "Tu não és um eleito de Deus, muito menos seu Filho amado". Sua razão é esta: "Tu estás em dificuldades e não achas alívio". Logo, o fundamento da tentação era a pobreza de Cristo e a falta de comida, sem esperança de receber, da parte de Deus, o remédio. É a mesma tentação com a qual o diabo objetou a Cristo por meio dos principais sacerdotes, quando em seu tormento atroz na cruz; eles gritavam: "Se Ele é Filho de Deus, deixe que desça da cruz e creremos nele. Confiou em Deus; pois venha livrá-lO agora, se de fato Lhe quer bem" (Mt. 27:40,43). Como se dissessem: "Deus liberta os seus servos dos problemas. Ele nunca permite que os que O temem sejam envergonhados. Mas vemos este homem em angústia extrema. Se Ele é o Filho de Deus, ou ainda um verdadeiro adorador do Seu nome, Deus o livrará desta calamidade. Se não livrá-lO, mas permitir que pereça nesta angústia, então é um sinal seguro de que Deus O rejeitou, como hipócrita, que não terá porção de sua glória". Assim, Satanás tem oportunidade para tentar e também para mover outros a julgar e condenar os eleitos de Deus e seus filhos escolhidos, em função de que lhes sobrevêm muitas angústias.



Aprenderemos, agora, com quais armas devemos lutar contra tais inimigos e assaltos, na resposta de Jesus: "Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus".



A resposta de Cristo prova aquilo que estivemos mencionando antes, pois a menos que o propósito de Satanás tenha sido demover Cristo de toda esperança na providência misericordiosa de Deus concernente a Ele, naquela sua necessidade, Cristo não respondeu diretamente às palavras de Satanás: "ordene que estas pedras se transformem em pães" (Mt.4:3). Mas Jesus Cristo, percebendo sua astúcia e malícia sutis, respondeu diretamente ao significado delas, desconsiderando suas palavras. Nesta resposta Satanás foi tão frustrado, que teve vergonha de replicar além, sobre este assunto.



Mas para que você entenda melhor o significado da resposta de Cristo, a expressaremos em outras palavras: "Você labora", Cristo diria, "em trazer ao meu coração dúvida e suspeita com relação a promessa de meu Pai, que foi publicamente proclamada no meu batismo, por causa da minha fome e da carência de toda provisão carnal. Você é audacioso em afirmar que Deus não cuida de mim. Mas você é enganador e sofista corrupto, e seu argumento é vão e repleto de blasfêmias; pois você vincula o amor, misericórdia e providência de Deus, a ter ou carecer da provisão carnal, o que não nos é ensinado em nenhuma parte das Escrituras de Deus, mas antes, elas expressam o contrário. Como está escrito "Nem só de pão...", ou seja, a vida e a felicidade do homem não consistem na abundância de coisas corpóreas, pois a possessão delas não abençoa ou torna feliz o homem, nem a falta delas é a causa da sua miséria final; mas a vida do homem consiste em Deus e nas suas promessas, e os que nelas se apegam sinceramente, viverão a vida eterna. E embora todas as criaturas na terra o desamparem, sua vida corpórea não perecerá até que o tempo apontado por Deus chegue. Pois Deus tem meios para alimentar, preservar e manter, ignorados pela razão humana e contrários ao curso comum da natureza. Ele alimentou seu povo Israel no deserto quarenta anos sem provisão humana. Ele preservou Jonas na barriga do grande peixe e manteve e guardou os corpos dos seus três filhos (Sadraque , Mesaque e Abede-Nego) no fogo da fornalha. A razão e o homem natural não viam saída nestes casos, a não ser destruição e morte, e julgariam que Deus havia retirado o Seu cuidado destas suas criaturas; e todavia, sua providência foi mais zelosa em relação a eles no limite dos perigos que enfrentaram, dos quais Ele os libertou de tal forma (e durante os assistiu), que sua glória, que é sua misericórdia e bondade, apareceu e sobressaiu-se mais, depois de seus problemas, do que se eles tivessem sucumbindo neles. E por esta razão, eu não meço a verdade e favor de Deus pelo fato de ter ou não necessidades físicas, mas pela promessa que Ele fez para mim. Assim como Ele é imutável, também são a sua palavra e promessa, as quais, Eu creio, me apego e sou fiel, independentemente do que possa vir externamente ao corpo".



Nesta resposta de Cristo podemos discernir quais armas devem ser usadas contra nosso adversário, o diabo, e como devemos refutar seus argumentos, que, com astúcia e malícia, ele faz contra os eleitos de Deus. Cristo poderia ter repelido Satanás com uma palavra ou pensamento, ordenando-o calar, como Aquele a quem todo poder foi dado no céu e na terra. Mas foi agradável a sua misericórdia, nos ensinar como usar a espada do Espírito Santo, que é a palavra de Deus, na batalha contra nosso inimigo espiritual. O texto da Escritura mencionado por Cristo, encontra-se no oitavo capítulo de Deuteronômio. Foi dito por Moisés, um pouco antes de sua morte, para firmar o povo na misericordiosa providência de Deus; pois no mesmo capítulo, e em outros depois deste, ele avalia a grande luta, os diversos perigos e as necessidades extremas que eles tiveram que suportar no deserto, no período de quarenta anos; e quão constante Deus tinha sido em mantê-los e em cumprir sua promessa, conduzindo-os através de todos os perigos até a terra prometida. E assim, este texto da Escritura responde, mais diretamente, às tentações de Satanás, pois Satanás raciocina deste modo(como mencionei antes): "Tu estás em pobreza e não tens provisão para sustentar tua vida. Isto prova que Deus não considera e nem toma conta de Ti, como Ele faz com os seus filhos escolhidos", Jesus Cristo responde: "Teu argumento é falso e vão, pois pobreza ou necessidade não excluem a providência ou cuidado de Deus, os quais são facilmente provados pelo exemplo do povo de Israel, que no deserto, muitas vezes, necessitou de coisas necessárias ao sustento da vida e, por carecerem delas, invejaram e murmuraram. Apesar disto, o Senhor nunca retirou deles seu cuidado e providência, mas, em conformidade ao que uma vez falou, a saber, que eles eram seu povo peculiar, e em conformidade a promessa feita a Abraão e àqueles que saíram do Egito, Ele continuou sendo seu guia e condutor, até que os colocou na tranqüila possessão da terra de Canaã, não obstante a grande debilidade e as diversas transgressões do seu povo".



Assim, nós somos ensinados, por Jesus Cristo, a repulsar Satanás e seus assaltos pela palavra de Deus e a aplicar os exemplos de sua misericórdia, mostrada a outros antes de nós, para nossa alma nas horas de tentação e nos tempos de nossas tribulações; pois aquilo que Deus faz a alguém em determinada época, cabe a todos que confiam e dependem Dele e nas suas promessas. Por esta razão, por mais que sejamos assaltados pelo nosso adversário Satanás, encontramos, na Palavra de Deus, armadura e armas suficientes.



A principal astúcia de Satanás é atormentar aqueles que começaram a abandonar seu domínio e a declarar inimizade contra a iniquidade, com diversos ataques, tendo como objetivo colocar em suas consciências, divergências entre eles e Deus, para que eles não descansem e repousem nas seguras promessas de Deus. E para conseguir isto, ele usa e inventa vários argumentos. Algumas vezes ele chama à lembrança deles, os pecados de sua juventude ou aqueles que cometeram no tempo de cegueira. Freqüentemente ele objeta a ingratidão deles em relação a Deus e suas presentes imperfeições. Através de doença, pobreza, tribulações nos seus lares, ou pela perseguição, ele pode alegar que Deus está zangado e não liga para eles. Ou pela cruz espiritual, que poucos sentem e menos ainda entendem sua utilidade e proveito, ele poderia levar os filhos de Deus ao desespero e, através de infinitos meios mais, ele anda ao redor como um leão que ruge, para minar e destruir nossa fé.



Mas é impossível para ele prevalecer contra nós, a menos que nós, obstinadamente, nos recusemos a usar a proteção e a arma que Deus tem oferecido.



Os eleitos de Deus não podem recusá-la, mas buscar pelo seu Defensor quando a batalha estiver mais acirrada, pois os soluços, gemidos e lamentações de tal luta (vencer o medo, as súplicas por persistência), são a busca incontestável e certa de Cristo nosso campeão. Não recusamos a arma, embora algumas vezes, por debilidade, não a usemos como devêssemos. É suficiente que seus corações sinceramente clamem por forca maior, por persistência e pelo livramento final de Cristo Jesus.



Aquilo que carecemos, Sua suficiência supre; pois é Ele que luta e triunfa por nós.



Nota sobre o Autor: John Knox foi o grande reformador da igreja na Escócia, contemporâneo de João Calvino e reconhecido pelo Dr. D.M. Lloyd-Jones como o "fundador" e o maior dos puritanos. Não é a toa que sua figura desponta em meio a Calvino e Farel na Placa Memorial a Reforma que se encontra na cidade de Genebra(Suíça). Para melhor conhecer este reformador, ler as páginas 268 a 288 do livro "Os Puritanos – Suas Origens e seus Sucessores" – Editora PES.

Fonte:arpav

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