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Conflito de gerações: como manter a fé bíblica sem perder filhos e netos


Introdução 

Há um tipo de tristeza que não faz barulho, mas pesa como pedra: a sensação de que os filhos e netos estão “escorregando” dos princípios bíblicos — não de um dia para o outro, mas lentamente, como quem se afasta do porto sem perceber. Para muitos cristãos, a dor não é só moral; é espiritual e familiar: “Será que a fé da nossa casa vai terminar comigo?”​

Esse conflito não se resume a música, roupa, internet ou política; é um choque de visão de mundo. A geração dos pais cresceu aprendendo que autoridade é algo a ser honrado e que a verdade é algo a ser recebido; já muitos jovens da geração atual foram educados a suspeitar de instituições e a tratar a própria experiência como bússola final. O resultado costuma ser um ciclo cruel: quanto mais os pais apertam, mais os filhos se fecham; quanto mais os filhos se afastam, mais os pais se desesperam.​

A Escritura, porém, não romantiza famílias “perfeitas” e não ignora o conflito entre gerações. Ela mostra feridas reais e, ao mesmo tempo, oferece um caminho de fidelidade: firmes na verdade, mansos no tom, perseverantes no amor e confiantes de que Deus continua alcançando gente — inclusive os nossos. Este texto quer ajudar você a enxergar o que está por trás do conflito de gerações e apresentar atitudes práticas que preservam o relacionamento, fortalecem a influência espiritual e mantêm a Bíblia no centro.​

O conflito é antigo (e bíblico)

Um erro comum é imaginar que “na nossa época era mais fácil” e que o problema atual é puramente tecnológico. A tecnologia acelerou e amplificou, mas o coração do ser  humano continua o mesmo, e a Bíblia registra tensões familiares profundas em contextos sem rede social nenhuma.​

Pense no Sacerdote Eli, que viu seus filhos desprezarem as coisas santas e trazerem vergonha ao culto; a narrativa não coloca a culpa em “influências externas”, mas mostra negligências internas e consequências espirituais sérias (ver 1Sm 2–3). Pense também em Davi e Absalão: uma casa marcada por pecado não tratado, feridas acumuladas e rebelião aberta (2Sm 13–18). Esses relatos não existem para apontar dedos, mas para lembrar que a fé não é “automática” dentro da família: ela precisa ser ensinada, encarnada e cultivada — e mesmo assim os resultados não estão sob o controle humano.​

Ao mesmo tempo, a Bíblia também mostra heranças espirituais exemplares e realistas. Paulo lembra Timóteo da fé que habitou primeiro em sua avó e em sua mãe (2Tm 1:5) e o chama a permanecer na Palavra que aprendeu desde a infância (2Tm 3:14–15). Isso ensina duas coisas: (1) transmissão de fé é um processo longo e intencional; (2) Deus usa avós e pais como instrumentos reais, não como figurantes.​

O que a Bíblia  ordena aos pais (sem prometer controle)

Para nós, é libertador voltar ao coração de Deuteronômio 6:4–9: a fé é ensinada no caminho, em casa, no ritmo da vida — não apenas em “discursos” pontuais exaustivos. O texto descreve uma pedagogia espiritual contínua: conversar, repetir, lembrar, vincular a Palavra ao cotidiano, palavra a vivência, experiência, não como algo filosófico apenas. Isso confronta dois extremos comuns: a omissão (“um dia eles aprendem na igreja”) e a rigidez (“aqui em casa ninguém questiona”).​

Outro texto frequentemente citado é Provérbios 22:6. Muitos o tratam como uma promessa matemática (“se eu fizer certo, o resultado é garantido”), e quando o filho se desvia, a culpa vira condenação. Provérbios, porém, é literatura de sabedoria: apresenta princípios gerais sobre a vida diante de Deus, não contratos de resultado. A aplicação madura é: a formação no caminho certo importa profundamente, mas Deus continua sendo Deus — e os filhos continuam sendo agentes morais responsáveis que necessitam de salvação tanto quanto nós.​

No Novo Testamento, há uma combinação preciosa de firmeza e mansidão. Pais são advertidos a não provocar os filhos à ira, mas criá-los na disciplina e admoestação do Senhor (Ef 6:4), e a não exasperá-los, para que não desanimem (Cl 3:21). Esses textos não enfraquecem a autoridade parental; eles purificam essa autoridade do autoritarismo e da dureza, que podem até produzir conformidade externa por um tempo, mas frequentemente destroem a confiança e o diálogo.​


Por que parece pior hoje

A geração mais nova não está apenas “mais rebelde”; ela foi formada em outro ecossistema de ideias. Três mudanças pesam bastante.​

Primeiro, a mudança na noção de verdade. Muitos jovens foram ensinados a pensar que a verdade é algo “construído” pela cultura e pela experiência; por isso, uma frase como “a Bíblia diz” pode soar, para eles, como “um grupo impôs sua visão”.​

Segundo, a desconfiança institucional. Escândalos, polarização e discursos agressivos — inclusive em ambientes cristãos — fizeram muitos associarem “tradição” com “hipocrisia”. Nesse cenário, a coerência pessoal vale mais do que a posição teórica; é por isso que a pergunta não dita deles costuma ser: “Isso é real na vida de vocês?”​

Terceiro, a concorrência de discipulados. Se antes a igreja e a família eram as principais formadoras, hoje o celular oferece catequeses diárias, emocionais e repetidas, moldando desejos, medos e certezas. 

O que não pode ser negociado

O conflito de gerações não se resolve trocando a verdade por aceitação. O verdadeiro evangelho chama pais e filhos ao arrependimento e à fé, e Cristo permanece o centro da esperança familiar (Jo 14:6; At 4:12). Isso significa que os princípios bíblicos não são “preferências de uma geração”, mas expressão do senhorio de Deus sobre todas as gerações.​

Também não é negociável a forma cristã de sustentar a verdade. A Escritura chama o povo de Deus a falar a verdade em amor (Ef 4:15) e a responder com mansidão e temor (1Pe 3:15). Quando a defesa da fé se torna gritaria, sarcasmo e humilhação, o conteúdo pode até estar correto, mas o espírito contradiz o evangelho e fecha portas.​

Por fim, não é negociável a confiança no agir de Deus. Pais não são o Espírito Santo e não convertem ninguém; eles plantam e regam a santa semente (evangelho), mas Deus dá o crescimento (1Co 3:6–7). Essa verdade protege contra duas tentações: a soberba (“eu salvei meus filhos”) e o desespero (“perdi meus filhos para sempre”).​

Um caminho prático (7 passos)

  1. Ore de forma específica e perseverante.​
    Use o padrão bíblico de levar ansiedades a Deus e pedir sabedoria (Fp 4:6–7; Tg 1:5).​

  2. Troque discursos por perguntas.​
    Perguntas como “O que te fez pensar assim?” e “Que experiências te marcaram?” ajudam a sair do ringue e entrar na sala de conversa (Tg 1:19).​

  3. Defina o alvo: proximidade antes de controle.​
    Filho controlado pode continuar longe; filho amado tende a continuar conversando. O pai do filho pródigo mantém amor, dignidade e esperança mesmo no desgaste (Lc 15).​

  4. Pratique convites leves para a Palavra.​
    Em vez de “você tem que voltar”, proponha: “vamos ler um Evangelho juntos, uma vez por semana?”. O objetivo inicial é reabrir contato com Jesus nas Escrituras (Jo 5:39).​

  5. Cultive uma casa emocionalmente segura.​
    Onde há zombaria e ironia, a verdade não entra; onde há acolhimento, a verdade pode ser ouvida com menos defesa. O padrão bíblico de fala que edifica e transmite graça é essencial (Ef 4:29).​

  6. Seja coerente no privado.​
    Muitos jovens rejeitam “princípios” porque viram incoerência: dureza em casa e espiritualidade pública; moralismo sem misericórdia; exigência sem pedido de perdão. A Bíblia chama para integridade e exemplo, não teatro religioso (Mt 23).​

  7. Busque ajuda de uma Igreja Bíblica e comprometida com a Verdade.​
    Às vezes, a voz que o filho escuta não é a do pai — e isso não é derrota; é graça. Deus usa o corpo de Cristo para exortar e consolar (Hb 3:13).​


Força na jornada e que Deus nos Ilumine.

Rev. Renê Montarroios



INDIGNO - 1 CO 11:27

O significado da palavra "indigno" em 1 Co 11:27
A palavra grega traduzida por indignamente (anaziôs) é uma hapax legomena.[1] Em outras palavras, em todo o Novo Testamento ela somente ocorre nesta passagem. Se Paulo quisesse exigir um caráter digno dos participantes da Ceia em Corinto, teria empregado a palavra anaziós e não anaziôs. A diferença entre as duas é realmente pequena, se limita apenas a um trocadilho entre as vogais ómicron e ômega. Todavia, a palavra anaziós é um adjetivo, o que qualificaria o caráter do participante. Enquanto que anaziôs é um advérbio que descreve o modo da ação do participante.

Por ser uma hapax legomena dificulta uma análise comparativa da palavra pelo número de ocorrências. Entretanto, é possível fazê-lo de seu antônimo. Pode-se concluir que, enquanto a palavra anaxiôs é “agir de modo digno”, a palavra anaziôs significa “agir de modo indigno”. O articulista E. Tiedtke observa que “nas epístolas, axios freqüentemente tem o significado de ‘apropriado’, ‘de acordo com’. Este uso é especialmente evidente no uso do adv. axios nas exortações que exigem a maneira de vida à altura do evangelho de Cristo (Fp 1:27), do Senhor (Cl 1:10; 1 Ts 2:12), ou da nossa vocação (Ef 4:1). De modo semelhante em 1 Co 11:27, Paulo adverte contra a celebração da Ceia do Senhor de modo indigno (anaziôs). Não é tanto uma exigência de qualidades morais nos participantes, mas, sim, procurar um modo de vida de acordo com o evangelho, i.é, o amor mútuo (cf. o contexto, 1 Co 11:17-34).”[2]

O advérbio “indignamente” possui na língua portuguesa um sentido moral que não corresponde com exatidão ao significado da palavra grega anaziôs. O Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa fornece as seguintes explicações dos verbetes correlatos: desprezível, torpe, inconveniente, impróprio. Neste caso, somente a palavra “impróprio” aproxima-se do significado original. Por isso, traduzir anaziôs por indignamente, como ocorre na Versão Revista e Atualizada, embora esteja correto, não esclarece completamente o seu sentido original. Na língua portuguesa a palavra indigno tem a sua origem no latim, significa “algo que não convém, indigno, que não merece, não merecedor, injusto, vergonhoso, infamante.”[3] Daí o entendimento popular, de que para participar da Ceia do Senhor a pessoa necessita ser “digna”, subentendendo as suas virtudes pessoais, ou boa conduta como mérito.

A palavra anaziôs não sugere mérito pessoal do participante. Esta palavra simplesmente acusa a maneira como se procedeu. Spiros Zodhiates comenta que este verbete grego significa “indignamente, irreverente, de uma maneira indigna (1 Co 11:27, 29), tratando a Ceia do Senhor como se fosse um alimento comum, sem atribuir-lhe, e aos seus elementos o valor próprio.”[4]

Notas:
[1] Algumas versões que adotam o Texto Majoritário (Zane C. hodges & Arthur L. Farstad, The Greek New Testament According to the Majoritary Text [Nashville, Thomas Nelson Publishers, 2a.ed., 1985], pág. 532) trazem no verso 29 o acréscimo “indignamente” (Edição Revista e Corrida da Imprensa Bíblica Brasileira, a Edição Contemporânea da Editora Vida e a Edição Corrigida e Revisada da Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil). Gordon Fee observa que “esta adição e a que segue são intentos compreensíveis para conformar esta oração ao vs. 27, mas ao fazê-lo alteram consideravelmente o sentido.” Gordon Fee, Primera Epistola a los Corintios (Buenos Aires, Nueva Creación, 1994), p. 632
[2] E. Tiedtke, in: Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento (São Paulo, Ed. Vida Nova, 2ª ed., 2000) vol.2, p. 2106.
[3] Ernesto Faria, Dicionário Escolar Latino-Português (Rio de Janeiro, FAE, 1994) p. 274.
[4] Spiros Zodhiates, ed., The Complete Word Study Dictionary New Testament (Chattanooga, 1993), p. 156. Outro dicionário diz “não correspondendo ao que poderia acontecer – impropriedade, de uma maneira imprópria, alguém que come do pão e bebe do cálice do Senhor de uma maneira imprópria 1 Co 11:27” in: J.P. Louw & E.A. Nida, eds., Greek-English Lexicon of the New Testament Based on Semantic Domains (New York, United Bible Societies, 2ªed., 1989), p. 628.

Fe Reformada para O Caos Teologico Brasileiro


O QUE É?

Fé reformada é a herança doutrinária oriunda do movimento conhecido como Reforma Protestante, ocorrido no século XVI. Os preponentes da Reforma sentiram-se impelidos a transformar litúrgica, dogmática, política e socialmente a realidade onde o magistério e o clero da Igreja Romana detinham poder exacerbado e se utilizavam disso para oprimir o povo. Essa Reforma pretendia olhar para a Bíblia somente, contrariando assim, a tradição católica que conferia igual valor e importância também ao Papa e a tradição eclesiástica da Igreja Romana.

CENÁRIO ATUAL

Em certo sentido, o contexto evangélico brasileiro contemporâneo não se encontra diferente. Uma parcela dos evangélicos se submete aos gurus da fé que escravizam, bestializam e oprimem seus fiéis, tanto quanto o clero católico romano do século XVI. Tais homens usam ferramentas como o medo do inferno, a culpa proveniente do pecado e a ganância por bens materiais para manobrar as massas. Outra parcela da liderança evangélica adota a prática de inúmeras crendices e bizarrices em nome de Jesus, afim de aproximar os fiéis do cenário religioso predominante no Brasil, que é fartamente nutrido pelo sincretismo e pela necessidade de símbolos e imagens tangíveis que alimentem a fé do indivíduo. Por fim, há uma última parcela ainda, vagando pelas mais diversas formas metodológicas de liturgia e evangelização que aparecem e que desaparecem com o mesmo ímpeto e velocidade com que são disseminadas no Brasil, fazendo com que de tempos em tempos uma nova onda se autoproclame: ‘’avivamento’’.

DECEPÇÃO

Toda essa confusão gerou um grande número de pessoas decepcionadas. Perceberam que as promessas de prosperidade não seriam cumpridas pelo movimento neopentecostal, que as metodologias das igrejas emergentes são frágeis e os movimentos forjados pelo sincretismo religioso se parecem mais com ritos pagãos históricos do que com o evangelho de Cristo.
Contudo, há uma celeuma nessa migração, pois nem todos enxergam um lugar seguro para onde ir. Uma parcela procura reuniões pós-denominacionais, outros vão para os movimentos pára-eclesiásticos, alguns compram a ideia liberal por serem persuadidos pela boa retórica e vasto material acadêmico desta vertente de teólogos e por fim, um expressivo grupo decide se manter longe da igreja institucional, são os chamados: desigrejados.

UM CAMINHO

O que gostaria de lhes propor é que com base numa simples análise, pode-se notar que a melhor opção a se adotar frente a possíveis decepções com a igreja evangélica brasileira, é se reformar, e a compatibilidade dos contextos históricos apontam para isso.
A proposta da Reforma é uma doutrina exclusivamente bíblica. Os exegetas, expositores e mestres reformados enfocam a mensagem bíblica de maneira clara, considerando o contexto em que ela foi redigida para compreendê-la e não forçando os textos ao aplicá-lo. É uma teologia sistemática que leva em conta a Bíblia como um todo, defendendo sua infalibilidade, inerrância, e autoridade, atribuindo a ela o status de Palavra de Deus. Como dizem os reformados, um texto tirado de seu contexto, é um pretexto. Para Lutero, ‘’a Bíblia é a mãe de todas as heresias’’, e de fato se mal interpretada ela tem esse potencial.
A tradição reformada preza pelo sentido único de cada texto, e estimula que seus ministros orem e labutem incansavelmente atrás desse sentido, que fora pretendido pelo autor bíblico e inspirado pelo Espírito Santo de Deus. Isso faz com que na fé reformada não haja espaço para achismos humanos ou novas revelações, visto que Deus se revelou de maneira plena na Escritura, com isso aumenta-se em grande escala a precisão da interpretação bíblica.
A proposta da Reforma é mais comprometida com a propagação da Palavra de Deus simples e pura, do que qualquer outra. Em um cenário tão místico como o nosso onde pessoas estão preocupadas em ter contato com as coisas transcendentes, são fascinadas pelo sobrenatural, e o objetivo principal do culto de alguns é entrar em transe a fim de receber algum benefício do divino, a melhor opção é recorrer ao fundamento sólido da Palavra de Deus proposto pela fé reformada que, obviamente, não anula a existência de milagres e ações sobrenaturais do Espírito na igreja, mas, á luz da Bíblia, não explora tais atividades a fim de conquistar novos adeptos.
A história comprova a eficiência, a consistência, a contundência e a ação de Deus na fé reformada. Hoje as igrejas adotam estratégias para conquistar novos fiéis, alegando terem recebido uma nova visão de Deus, visão esta que dura somente até surgir outro empreendedor com uma nova ideia mais “eficiente” e espalhá-la sob o pressuposto de ter recebido a novidade de Deus. A fé reformada é sólida. Os grandes momentos da igreja protestante ao longo da história foram protagonizados em sua maioria através de homens adeptos desta tradição.
Portanto, meus amigos, lhes proponho a tese de que a fé reformada é a opção mais segura, por sua interpretação coerente, comprometimento e seriedade com a humildade e a piedade pessoal, racionalidade equilibrada, preocupação contumaz com a glória de Deus em detrimento do homem, e o seu histórico de solidez e eficiência nesses quinhentos anos de história.
Em Cristo, o dono da graça.
Guilherme Andrade é membro do Projeto Sola e da GAB, é pastor e plantador da Igreja Batista Reformada em Guaratinguetá/SP, é professor de música e produtor musical, marido da Tainah e pai do Tito.

Nada novo debaixo do sol comentario eclesiates

Eclesiastes é considerado por muita gente como um livro pessimista, fruto de um ânimo depressivo e desiludido do autor, especialmente em sua introdução. Mas isso não é verdade. Para atravessarmos essa floresta de reflexões, muitas vezes fechada e com pouca luz, é preciso ter em mente aonde o escritor quer conduzir seus leitores. Isso, certamente, muda o enfoque de toda sua argumentação inicial e lhe dá cores que completam um belo quadro. Assim, mesmo chocados com a visão taciturna do início do livro, temos de dar um voto de confiança ao escritor no sentido de saber que ele quer nos ensinar coisas positivas, preciosas e edificantes. Estas, quando bem-compreendidas, mudarão nossa visão sobre a vida e seus valores e que os veremos do modo como Deus os vê. Para tanto, é preciso ter em mente que o propósito do escritor parece ser o de “estimular o temor do Senhor como a chave para uma vida significativa em um mundo que é, em tudo mais, desprovido de significado”.[1]
O livro começa de modo clássico, com a apresentação autoral (v.1): “Palavras do Pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém”. Apesar de o livro não vir assinado com o nome do seu escritor, não é difícil descobrir sua identidade, visto informar ser ao mesmo tempo “filho de Davi” e “rei em Jerusalém”. Nenhum outro filho do rei Davi, fora Salomão, assumiu o trono de Israel. É claro que a palavra “filho” pode, muitas vezes, ser compreendida no AT como outro descendente — como um “neto”, “bisneto” ou outro da mesma linhagem —, mas a história dos reis davídicos não habilita muitos deles a serem pregadores sábios e nenhum outro deles utilizando ensinos e linguagens tão semelhantes ao restante da literatura salomônica. Assim, apesar da objeção de boa parte dos estudiosos modernos, Salomão é o candidato praticamente indiscutível ao posto de autor do livro.
É bom notar que a palavra hebraica traduzida aqui como “Pregador” também tem o sentido de um “presidente de assembleia”,[2] uma boa descrição para um rei, ou de um “coletor” ou “colecionador”,[3] alguém que reúne informações suficientes para torná-lo um bom professor ou pregador, algo que descreve bem a figura e a função do rei Salomão, especialmente na produção de Eclesiastes.
Tendo se apresentado como autor, Salomão, então, faz sua primeira afirmação (v.2): “Futilidade de futilidades! — diz o Pregador — Futilidade de futilidades! Tudo é futilidade!”. O termo hebraico aqui traduzido por “futilidade” é normalmente traduzido nas Bíblias de língua portuguesa como “vaidade”. A dificuldade, porém, é que o termo vaidade pode ser confundido com o apego pessoal à beleza, em vez de apontar, como deveria, para coisas que são vãs, inúteis e passageiras. Assim, “futilidade”[4] é, talvez, uma escolha melhor, tanto para fazer jus à tradução do texto original como para transmitir ao leitor a ideia pretendida pelo escritor. Assim, esse é um início enigmático, pois se trata de uma conclusão forte e inesperada que precisa ainda ser explicada e provada. Em suma, o que é postulado nesse versículo é que todas as coisas ligadas à vida são passageiras e não têm sentido em si, ou melhor, não dão sentido à existência humana. Todas elas são inúteis para nos explicar por que e para que existimos. Além disso, a compreensão e o usufruto delas são incapazes de dar sentido à vida das pessoas e só podem fornecer uma felicidade ilusória a quem as busca.
Não é para menos que muita gente acha que Eclesiastes é um livro tremendamente pessimista e fruto de uma mente deprimida e decepcionada com o mundo. Mas isso não é verdade. Todo o livro deve ser lido e analisado à luz da conclusão do autor, na qual ele compara o temor do Senhor a todos os meios de vida sem ele. Mas, por ora, o escritor quer impactar seus leitores com as implicações inevitáveis da visão incorreta sobre o mundo à parte do conhecimento e do relacionamento com seu criador. Seu intuito parece ser o de mostrar a vacuidade das coisas nelas mesmas, sem que o relacionamento saudável com o Senhor dê sentido a tudo mais.
Desse modo, o escritor lança uma pergunta retórica (v.3): “Que proveito o homem tem em todo o esforço que ele empreende debaixo do Sol?”. A pergunta é retórica porque, apesar de, inevitavelmente, levar à reflexão a respeito dos resultados do trabalho, a resposta que o autor almeja obter é “nenhum”. A expressão traduzida como “o esforço que ele empreende” é a tradução da mesma palavra em duas formas diferentes e sequenciais, o que é um modo hebraico de dar ênfase ao significado do termo. Nesse caso, o termo tem o sentido de “trabalho”, mas também de “aflição” ou “problema”, mostrando que esse trabalho é árduo, preocupante e desgastante, criando mais aflição no homem do que lhe dando sentido à existência.
Algo importante a se notar para a boa compreensão do livro é a perspectiva com a qual Salomão expõe tais pensamentos, descrita na expressão “debaixo do Sol”. Sua preocupação não é com a localização desse astro dentro do sistema solar ou em relação às galáxias, mas oferecer uma ideia equivalente à expressão “debaixo do céu” em Êxodo 17.14 e em Deuteronômio 7.24 e 9.14, referindo-se a “este mundo”.[5] Assim, ele nos ajuda a olhar pela lente do homem que vive apenas pelo que vê e não pelo que está acima do Sol e do céu, a saber, o Deus criador de tudo e redentor daqueles que creem nele.
O primeiro golpe na visão existencialista é mostrar aos homens, especialmente àqueles que se acham importantes, o quanto são dispensáveis e passageiros (v.4): “Uma geração vai e outra geração vem, mas a Terra permanece continuamente”. A ideia de Salomão não é propriamente a de informar até quando a Terra irá existir, mas utilizá-la como parâmetro a fim de provar seu argumento a respeito da transitoriedade da vida. Normalmente, vemos nossa geração como central no desenvolvimento do mundo e fundamental no decurso da história. Entretanto, o texto chama à memória dos seus leitores as gerações passadas das quais eles quase nada sabem e que em nada afetam seus objetivos imediatos. É como se dissesse que todas as gerações pensaram ser fundamentais até passarem e darem lugar a outras. Ao contrastar a sucessão de gerações com a permanência da Terra, o autor quer tirar dos leitores qualquer tipo de pretensão de que suas vidas tenham em si importância atemporal e contínua.
É claro que alguém pode pensar que essa mensagem se encaixa melhor no mundo antigo do que no atual, com seus avanços rápidos e astronômicos, cheios de transformações. Alguém também pode dizer que a experiência de vida de cada pessoa é uma sucessão de mudanças. Contudo, apesar das grandes transformações pelas quais os homens passam em suas vidas e em suas gerações, a criação permanece seu curso sem ser transformada significativamente por nós, tornando nossas mudanças e nossos progressos em fatores insignificantes diante do mundo no qual habitamos.
Para provar esse ponto de vista, o escritor passa à observação de certos fenômenos da natureza (v.5): “O Sol se levanta, o Sol se põe e se apressa para o lugar de onde se levanta novamente”. A impressão inicial que o escritor dá é a de que o Sol está em movimento ao redor da Terra. Entretanto, isso não constitui um erro, mas o uso de um tipo de linguagem chamada fenomenológica, a qual narra os eventos como eles se parecem do ponto de vista do observador, sem se importar com a exatidão científica. Assim, o presente objetivo em expor o movimento diário do Sol é mostrar a continuidade e constância do universo, independente do que o homem faça, pense, sinta, queira ou conheça.
Logo depois de descrever a movimentação do Sol no sentido Leste-Oeste, ele completa o quadro com o vento girando constantemente no sentido Norte-Sul (v.6): “O vento sopra para o Sul e se volta para o Norte. Volta após volta, o vento vai e se volta novamente”. É claro que há ventos que se deslocam mesmo nas direções Norte e Sul (Jó 37.9,17; Ct 4.16), mas é certo, também, que não existem apenas tais ventos. A própria Bíblia cita outras direções de ventos, como aqueles vindos do Leste (Gn 41.6,23,27) e do Oeste (Êx 10.19). Porém, o quadro se completa em si mesmo quando, para os quatro lados que se olhe, a Terra e a natureza continuam seu curso constante sem qualquer alteração por causa dos homens, independente do que eles pensem de si.
O próximo ciclo descrito pelo escritor envolve a água dos rios (v.7): “Todos os rios correm para o mar, mas o mar não se enche. Os rios correm até o lugar para onde, então, voltam a correr”. O movimento contínuo da água em uma só direção é mais uma prova da continuidade e da automanutenção da natureza independente do homem. O que não é citado, mas que não é um grande mistério, é como pode a água correr constantemente sem encher o mar e sem esgotar seu suprimento, pois qualquer leitor é capaz de entender que a razão para tanto é a chuva, outro fator natural constante, geração após geração. Inicialmente, isso pode não parecer grande coisa no argumento sobre a futilidade das coisas que compõem a experiência humana e o progresso alavancado pelo desenvolvimento das humanidades. Porém, basta que haja uma temporada prolongada de estiagem ou de chuvas intensas para mostrar que, mesmo com todos os avanços, o homem é sujeito ao seu meio e é incapaz de vencer sua força ou impedi-lo em seu curso.
É óbvio que não há nada errado com os ciclos que mantêm a criação. É a renovação diária dos recursos naturais que nos possibilita viver e que mantém a fauna, a flora, a sucessão das estações do ano e a produção de alimentos. Mas a repetição de voltas nos elementos da criação — o Sol, os ventos e a água dos rios —, mais do que observações científicas ou análises do que veem os nossos olhos, parece ser a tentativa do escritor de provocar certa sensação no leitor, uma sensação de pequenez e de transitoriedade em um mundo que existia antes dele e que continuará a existir normalmente depois de sua morte, sem sentir sua falta.
Outro efeito de mencionar as sucessivas voltas do Sol no sentido Leste-Oeste, dos ventos no sentido Norte-Sul e das águas descendo e subindo morros é a sensação de monotonia, de modo que Salomão aponta isso também em seu argumento (v.8): “Todas essas coisas são maçantes a ponto de ninguém poder descrever. O olho não se farta de ver e o ouvido não se sacia de ouvir”. Esse é um versículo que apresenta muitas dificuldades de tradução, especialmente porque seu sentido não é tão claro a ponto de, pela facilidade de compreensão, auxiliar os tradutores em sua tarefa. Mesmo assim, ele parece mostrar que, apesar da continuidade repetitiva da criação, o homem não é capaz de explicar tudo que a move e a mantém, não havendo a possibilidade de um término no processo de observá-la e aprender sobre ela. É como se o homem fizesse um curso que ele nunca conseguirá concluir, não conseguindo obter realização pessoal e satisfação plena nessa atividade intelectual.[6]
Isso, obviamente, suscita uma questão: “É inútil observar a criação?”. Claro que não, pois as Escrituras afirmam que “os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1.20). Contudo, a perspectiva que Salomão está abordando em seu livro é a do mundo “debaixo do Sol”, no qual o homem ignora a existência do Senhor ou simplesmente não se importa com ela, herdando do universo, com isso, uma mensagem vazia e insatisfatória.
Nesse ponto, alguém poderia contestar dizendo que o sentido da vida não está no universo em que ele existe, mas na história que ele ajuda a traçar. Mas essa é mais uma área que recebe um duro golpe das observações do escritor (v.9): “O que foi antes é o mesmo que será depois. O que aconteceu antes é o mesmo que acontecerá depois. Não há nada novo debaixo do Sol”. O campo dos acontecimentos, pelo visto, é também marcado por ciclos que se repetem. Essa realidade se deve nem tanto à mesmice da natureza, mas à mesmice do homem, o qual, mesmo geração após geração, continua tendo as mesmas paixões, desejos, fraquezas, impulsos e pecados. É por isso que governos se sucedem, guerras se repetem, relacionamentos continuam a ocorrer, tradições são mantidas e quebradas, agrupamentos são feitos e desfeitos, conhecimento é transmitido, conquistas se acumulam e tragédias continuam a recair sobre os homens. E por mais que cada evento isolado tenha um grande impacto sobre sua geração, eventos semelhantes ocorreram em outras épocas sem que a história se quebrasse no meio ou deixasse de seguir seu rumo constante.  
A conclusão de que “não há nada novo debaixo do Sol” é enfatizada por uma pergunta que, apesar de seu caráter retórico, o escritor faz questão de responder (v.10): “Acaso há alguma coisa de que se possa dizer: ‘Veja, isso é novo’? Isso já aconteceu muito tempo antes de existirmos”. A resposta sobre o surgimento de novidades é um sonoro “não”, visto que os acontecimentos atuais são repetições de eventos semelhantes do passado. Da mesma forma que ocorre na natureza, a repetição constante de realizações anteriores é também verdadeira nas atividades das pessoas, fazendo com que sua observação também seja maçante e produza cansaço e falta de satisfação no homem.[7] No final das contas, as novidades que o homem vê são novidades apenas para ele,[8] algo que tira delas o caráter de novo e que confere falta de sentido ao seu descobrimento.
O escritor é alguém muito hábil com sua pena, pois os ciclos monótonos e repetitivos que ele descreve são também expostos por meio de suas frases sucessivas e circulares, dessa vez enfatizando os ciclos históricos (v.11): “Não há recordação das coisas passadas, nem haverá recordação das coisas que ocorrerão no futuro. Elas não serão lembradas por aqueles que virão depois”. Essa afirmação parece ser um pouco exagerada, pois a história se lembra de feitos e de nomes notáveis. Mas esses, se comparados à totalidade das pessoas que já viveram e que ninguém nunca ouviu falar delas, e dos acontecimentos que já ocorreram e ninguém sabe, são menos que uma gota no oceano. Isso certamente faz com que o escritor tenha razão ao desencorajar o leitor a se achar importante ou crer que deixará marcas indeléveis na história. Quando olhamos para a história passada e percebemos que só conhecemos pequenos grãos daquilo que ela foi, temos nisso mais uma prova da futilidade da vida quando considerada completa em si mesma.[9]
A conclusão que se pode tirar desse trecho inicial é que todo progresso que o homem julga conhecer ou promover é inexistente e vão, pois seu alcance é ínfimo na natureza, seu conhecimento completo é inatingível e suas conquistas são esquecidas nas gerações futuras, esvaziando-o de qualquer sentido ou valor duradouro. Mas o que o autor quer produzir com essa reflexão? Simplesmente desanimar seus leitores e tirar deles o prazer de viver? Não! Na verdade, ele tem propósitos bem maiores e nobres que esses. Porém, para atingi-los, é preciso, primeiro, que o leitor entenda qual é o resultado da perspectiva da vida apenas da visão existencialista, ateísta ou simplesmente de alguém que não se importa com Deus ou com aquilo que não vê, olhando apenas para as coisas “debaixo do Sol”. Se, pelos olhos da fé, o homem não consegue olhar para acima do Sol, para o Deus criador e salvador que a tudo dá sentido e significado, tudo que conhecerá na vida será “futilidade de futilidades”.
Pr. Thomas Tronco

[1] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 566.
[2] Schökel, Luiz Alonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. São Paulo: Paulus, 1997, p. 573.
[3] Brown, Francis; Driver, S. R.; Briggs, Charles. Enhanced Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon. Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, 2000, p. 875.
[4] The NET Bible. First Edition. Biblical Studies Press: www.bible.org, 2006, [Ec 1.2].
[5] Garrett, D. A. Proverbs, Ecclesiastes, Song of Songs. The New American Commentary. Vol. 14. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1993, p. 284.
[6] Eaton, Michael A; Carr, G. Lloyd. Eclesiastes e Cantares: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 65.
[7] Walvoord, J. F.; Zuck, R. B. The Bible Knowledge Commentary: Old Testament. Colorado Springs: David C. Cook, 1983, p. 980.
[8] Ogden, G. S.; Zogbo, L. A Handbook on Ecclesiastes. UBS Handbook Series. New York: United Bible Societies, 1998, p. 35.
[9] Spence-Jones, H. D. M. (Ed.). Ecclesiastes. The Pulpit Commentary. London: Funk & Wagnalls: 1909, p. 11.

Danos da falsidade

“Como um pedaço de pau, uma espada ou uma flecha aguda é o que dá falso testemunho contra o seu próximo. Como dente estragado ou pé deslocado é a confiança no hipócrita na hora da dificuldade” (Pv 25.18,19 NVI).
Em 1972, os contribuintes franceses ficaram chocados ao saber que seu primeiro-ministro não pagou qualquer imposto entre 1966 e 1969, embora ganhasse uma boa quantia. Na verdade, ele até havia pedido ao departamento fiscal um considerável reembolso. Era tudo perfeitamente legal; no entanto, não era exatamente correto em sentido moral, já que explorava algumas brechas na lei. Porém, o que mais irritou os franceses era que eles haviam se acostumado a ouvir o primeiro-ministro exortá-los a fazer sacrifícios pelo seu país e por sua economia. Aquele político hipócrita cobrou sacrifício do povo, mas não se importou em fazer qualquer sacrifício pessoal. Ele dizia uma coisa e fazia outra.
Infelizmente, dizer palavras que não correspondem à verdade não é exclusividade dos nossos dias. Salomão aponta dois casos em que a falsidade causa danos e sofrimento. O primeiro é o do “falso testemunho contra o seu próximo”. O termo tem uma óbvia conotação jurídica, contudo, o falso testemunho acontece também fora das delegacias e tribunais de justiça. Em conversas triviais, uma pessoa pode falar falsidades a respeito de outra e manchar sua imagem. Por isso, o escritor compara essa atividade a “um pedaço de pau, uma espada ou uma flecha aguda”. A intenção é criar na mente do leitor a imagem de alguém sendo ferido por pauladas, cortado por golpes de espada e atingido por flechas disparadas contra ele. Trata-se de agressões perigosas que causam ferimentos profundos e danos imensuráveis, assim como acontece quando se plantam mentiras sobre alguém em rodinhas ocultas, sem que a pessoa possa se defender ou esclarecer a verdade. Nem é preciso dizer que somente pessoas sem caráter e que não temem a Deus agem de modo tão desleal.
Desleal é também a atitude descrita no versículo seguinte, a saber, a hipocrisia. Por isso, o rei sábio fala da “confiança no hipócrita na hora da dificuldade” — e eis o segundo caso. O hipócrita aqui descrito tanto pode ser uma pessoa em quem se confiava como aquele em quem não se devia depositar qualquer confiança. Ao que tudo indica, ambos parecem ser boa gente nos momentos agradáveis. Porém, eles mostram seu lado falso justamente “na hora da dificuldade”. Por isso, Salomão os compara a um “dente estragado” com o qual não se pode contar para mastigar os alimentos, nem ter uma noite tranquila de descanso. Também os compara a um “pé deslocado” com o qual não se pode sustentar o corpo para caminhar. Por isso, afaste-se de pessoas que têm fama de não ter caráter. Normalmente, eles são mais bajuladores e solícitos que outros a fim de conquistar rapidamente uma confiança que não merecem. E quanto a você, jamais fale mentiras ou falsidades para os outros. O servo de Deus é alguém cuja verdade o completa por dentro e por fora.
Pr. Thomas Tronco

O Vaso de Alabastro



O vaso de alabastro é conhecido entre os cristãos por ter sido o tipo de recipiente utilizado para portar óleos ou essências em algumas passagens do Novo Testamento. Diante disto, muitos ficam curiosos sobre como era esse vaso, e o que significa alabastro. Neste estudo bíblico, iremos entender um pouco melhor o que é o vaso de alabastro.

O que significa alabastro e o que era o vaso de alabastro?

Originalmente a forma neutra do grego alabastros era usada para designar um frasco de alabastro que possuía um gargalo comprido. Quando o conteúdo era utilizado, tal gargalo era rompido. Geralmente o conteúdo armazenado nesses frascos eram óleos e essências.
O mesmo termo também era utilizado para se referir a qualquer frasco que possuía o formado indicado acima, não importando o material de que tivesse sido fabricado.
Já o alabastro era uma variedade de carbono de cálcio produzido por depósito natural e hidratado. Existe uma diferença entre os alabastros da antiguidade e os mais modernos. O alabastro moderno é um tipo de gesso, sendo uma pedra mais mole. Já os alabastros da antiguidade, chamados no hebraico de shayish ou shesh, geralmente eram de mármore, compostos de calcita (1 Crônicas 29:2; Ester 1:6).
Esse material em sua forma pura tem uma cor branca e translúcida. Geralmente o alabastro era encontrado em regiões calcárias, em cavernas e locais próximos de nascentes. Os alabastros eram muito utilizados na escultura de estátuas e na fabricação de vasos, frascos, caixas, garrafas e recipientes em geral.
Havia vasos de alabastro fabricado na região da Palestina com pedras escavadas no vale do Jordão. Outros eram importados do Egito, sendo estes mais valiosos.

O vaso de alabastro na Bíblia

No Novo Testamento encontramos algumas passagens que fazem referência à utilização do vaso de alabastro. A primeira está no Evangelho de Mateus, quando Jesus é ungido em Betânia:
Nos Evangelhos de Marcos e João encontramos um texto paralelo ao relato do Evangelho de Mateus (Marcos 14:3-9; João 12:1-8). No caso da referência de Marcos, trata-se de um paralelo exato. Já no texto do Evangelho de João algumas diferenças cronológicas podem ser percebidas; porém nenhum detalhe entra em conflito com os textos de Mateus e Marcos.
Alguns argumentam que na narrativa de João é dito que a mulher ungiu os pés de Jesus com o unguento que estava no vaso de alabastro; enquanto Mateus e Marcos relatam que o liquido foi derramado sobre sua cabeça. Porém é possível que ela tenha derramado tanto bálsamo em Jesus que o liquido escorreu até mesmo pelos pés d’Ele. Sobre isso, João escreve que havia “uma libra de bálsamo de nardo puro” dentro do vaso de alabastro (João 12:3). Essa medida equivalia a algo em torno de 450 gramas de perfume, uma quantidade suficiente para cobrir Jesus. 
Essa mulher que aparece anônima nos Evangelhos de Mateus e Marcos é identificada no Evangelho de João. Ela era Maria, irmã de Marta e Lázaro, aquele que foi ressuscitado.

O nardo puro no vaso de alabastro

O liquido que a mulher carregava no vaso de alabastro era o nardo puro (Marcos 14:3). O nardo era um perfume raro feito de raízes de uma planta nativa do Himalaia. Nos tempos bíblicos ele era importado justamente em frascos selados de alabastro. Esses pequenos vasos de alabastros eram abertos apenas em ocasiões muito especiais.
Judas estipulou o preço do nardo que havia naquele vaso de alabastro em trezentos denários (João 12:5). Isso equivalia a um ano de salário de um trabalhador da época. Esse valor também era provavelmente dez vezes maior que o valor que o mesmo Judas recebeu para trair Jesus.
O vaso de alabastro também é citado numa referência no Evangelho de Lucas (Lucas 7:36-50). Lucas fala de uma mulher pecadora que ungiu os pés de Jesus com especiarias que estavam num vaso de alabastro. Aqui é importante dizer que essa mulher não deve ser confundida com a mulher citada anteriormente no episódio registrado por Mateus, Marcos e João, apesar das evidentes semelhanças.
A mulher mencionada por Lucas realmente não teve sua identidade revelada. É muito comum a interpretação de que essa tal mulher tenha sido uma prostituta. Mas no texto original em grego a expressão “era pecadora” traduz um termo que não precisa significar necessariamente que ela era uma meretriz.
O texto apenas deixa claro que ela era muito conhecida no povoado por sua má reputação. Além disso, no texto de Lucas ela já aparece como uma mulher arrependida. Isso significa que seja lá o que a mulher do vaso de alabastro tivesse feito, ela já não fazia mais.

SOBRE A CONTINUIDADE DOS DONS E DE OUTRAS COISAS



Rev. Augustus Nicodemus

Guardadas as devidas proporções e os diferentes propósitos de Deus na História, acredito em milagres em nossos dias. O problema, porém, é mais complexo do que simplesmente acreditar ou não na continuidade dos dons. O fato é que espíritos mentirosos e enganadores, bem como homens maus e charlatões, são contemporâneos do mesmo jeito.
Acredito na continuidade dos espíritos malignos, na continuidade de Satanás, na continuidade do coração humano depravado e enganador, na continuidade de homens de consciências endurecidas, que falam mentiras. Eu creio nessas coisas porque a Bíblia diz que essas coisas sempre estarão presentes, lado a lado, com a obra de Deus na história.
Acreditar somente na continuidade de todos os dons é simplismo e reducionismo da complexidade que as Escrituras nos apresentam. É indispensável que juntamente com minha fé no Deus poderoso que age hoje, eu tenha também discernimento e sabedoria, para não ser iludido por espíritos mentirosos ou por falsos profetas.
Uma ingenuidade com capa de piedade, que considera como incredulidade qualquer questionamento das manifestações sobrenaturais modernas, acaba abrindo a porta para todo o tipo de engano. Essa piedade, na verdade, mais do que ingênua, acaba se tornando supersticiosa. Eu creio que Deus é poderoso para agir como lhe agrada. Mas também sei que o diabo está igualmente ativo, iludindo, enganando, corrompendo a fé de muitos; sei também que o homem é capaz de dizer muita coisa falsa, mentirosa, para enganar e tirar proveito dos crédulos.
Portanto, é necessário que exercitemos cautela, juízo, bom senso e que sempre procuremos, em oração diante de Deus, averiguar cuidadosamente a origem das manifestações sobrenaturais bem como relatos acerca das mesmas. A Igreja deve consistentemente examinar com cuidado os testemunhos, as histórias, os casos, para não cair no engano de espíritos mentirosos.
Não seria exagero admitir que o diabo, mesmo não sendo Todo-Poderoso e onisciente, pode produzir impressões e apercepções na alma humana. Pedro foi vítima desse poder, em certa ocasião e se não fora a intervenção do Senhor Jesus, teria pensado que fizera a coisa certa em querer evitar que o Senhor fosse à cruz (Mt 16.23). O diabo pode mesmo adivinhar certas coisas (ver At 16.17). Os magos de Faraó, através de suas ciências ocultas (certamente no poder de espíritos malignos), fizeram água se transformar em sangue, transformaram suas varas em serpentes e fizeram aparecer rãs, imitando os milagres de Moisés (ver Êx 7.10-12,22; 8.7). Nos tempos de Jó, Satanás fez com que fogo caísse do céu, confundindo os que o viram, que pensaram que havia sido Deus (Jó 1.12 e 16; ver Ap 13.13). Satanás pode se disfarçar e parecer até um anjo de luz, isto é, com aquele brilho da glória característico dos anjos e, quem sabe, aparecer assim disfarçado num sonho ou visão (2Co 11.14).
Já que Satanás, como imitador de Deus, pode chegar a confundir os próprios eleitos, qual o critério seguro para distinguirmos o que vem dele e o que vem do Espírito Santo? Acredito que a melhor resposta é indagarmos qual a posição que Cristo ocupa nessas manifestações. Já que Satanás, voluntariamente, jamais buscará exaltar e glorificar a Cristo (muito embora possa mencioná-lo e até falar bem dele), desconfiemos do que não traz qualquer glória explícita e proposital ao Senhor Jesus. O Senhor Jesus deixa de receber a glória que lhe é devida quando determinados movimentos, produzidos pelo homem e baseados em experiências emocionais e psicológicas, acabam exaltando o próprio homem ou essas experiências. Ou ainda, quando as pessoas acabam por deixar manifestações genuínas do Espírito, cujo alvo primário é exaltar a Jesus Cristo, se tornarem um fim em si mesmas.
“Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora...” (1Jo 4.1).

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