Convite ao Louvor


                                                               CONVITE AO LOUVOR
                Vinde, irmãos, louvar a Deus,
                Criador da terra e céus.
                               Exaltemos o Senhor!
                               Infinito é seu amor!
                Glória e honra ao grande Rei;
                Alta e santa é sua lei.
                Age com poder real,
                Com grandeza divinal.
                Dia e noite a sua mão
                Desenvolve o tenro grão.
                Com os dons do seu poder
                Nossas vidas faz crescer.
                               (S. P. Kalley)
                O Breve Catecismo, um dos mais importantes Símbolos de Fé da Teologia ancorada na Tradição Reformada, assevera-nos, logo em sua pergunta inaugural, que a finalidade precípua do homem é glorificar a Deus e desfrutá-lo para sempre. Nisso reside a sua bem-aventurança eterna, fonte suprema de alegria e plenitude existencial. De fato, Deus é digno de toda honra, glória, louvor e adoração, não apenas por causa dos seus e grandes e poderosos feitos na história, seu absoluto, providencial, santo e soberano controle sobre toda a história, mas, sobretudo, porque Ele é Deus, Ser sumamente amável e adornado com os mais sublimes e gloriosos atributos morais.
                Louvar a Deus, portanto, é tanto um dever quanto um privilégio do seu povo, que é convocado pelo próprio Deus para cultuá-lo em Espírito e em verdade: ouvindo a sua Palavra, a ela respondendo com fé, oração, obediência e amor, expressões indeléveis de corações que têm como anelo supremo viver de maneira inteiramente agradável ao Senhor. O hino em foco, uma verdadeira obra-prima do Novo Cântico Presbiteriano, admirável consórcio entre poema e sólida teologia, é um santo chamamento ao povo de Deus para louvar ao Senhor e exaltá-Lo, realçando alguns dos aspectos mais notáveis do seu grandioso Ser.
                O primeiro ponto que releva no texto é o que sinaliza para a dimensão comunitária de que se deve revestir a adoração pública que a igreja realiza em seus ajuntamentos solenes. Esse traço conceitual, doutrinariamente falando, é sobremaneira pedagógico, pois nos ensina que o cantar para Deus, na realidade concreta do culto, é uma atividade rigorosamente congregacional. Não há, no culto que prestamos ao Senhor, justificativa teológica para apresentações individuais que, por causa de nossa congênita pecaminosidade, facilmente descambam para o desfile exibicionista de vaidades tolas, apropriações indébitas de uma glória somente passível de ser tributada a Deus. Quem se julga imune a essas tentações é porque nutre uma imagem muito positiva de si mesmo e, na outra ponta, desconhece o quanto é “enganoso e desesperadamente corrupto o coração humano”. (Jeremias 17.9).
                Na congregacionalidade do culto público, acentua-se em nós uma forte relação de pertencimento ao corpo de Cristo, uma compreensão tanto intelectiva quanto experimental de que, verdadeiramente, Deus fez uma aliança conosco, exemplarmente manifestada na igreja, da qual Jesus Cristo é o Cabeça, e na qual o Espírito Santo habita, sempiternamente. Prossegue o hino, pondo em realce o poder de Deus revelado na criação de todas as coisas.
                O Credo Apostólico enfatiza, em sua proposição inicial, a onipotência criadora de Deus. O brilho aqui recai sobre o fato de Deus ter criado tudo do nada, valendo-se, unicamente, da proferição livre e soberana da sua Palavra. Desse poder magnífico dá-nos o Livro de Gênesis vislumbres impressionantes e belos. Ali, vemos Deus falando, e, imediatamente, o universo todo, em sua assombrosa diversidade, sendo formado; tal inspirado escrito foi, mais tarde, pelo mesmo Espírito Santo, esculpido nas páginas neotestamentárias, mais precisamente as que emergiram da pena do autor da Epístola aos Hebreus, que, ao tratar da matéria em foco, assim se pronunciou: “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem”. (Hebreus 11.3).
                Ao Deus Criador de todas as coisas, com especialidade do homem, feito à sua imagem e semelhança, “vinde, irmãos, louvar”. Continuando em sua argumentação, damo-nos conta de que o Deus Criador é, também, amor em sua essência; e que ama infinitamente a sua criação, tanto que, mesmo depois de caída e rebelada contra o seu senhorio, Ele ainda a sustenta, renova sobre ela as suas misericórdias, causa de não sermos consumidos por seu justo furor, conforme sinaliza o profeta Jeremias; e, em amor incomparável e sem fim, providenciou para o seu povo, urdida nos bastidores da eternidade e consumada no palco concreto da história e do tempo, uma grande, perfeita e eterna salvação. Salvação, assim adjetivada, não porque a sua eficácia radica no presumido e falacioso poder do supostamente livre arbítrio humano, mas sim na ação harmônica e soberana da misteriosa Trindade: do Pai, que elege; do Filho, que redime; e do Espírito Santo, que sela e torna-se o definitivo e irrasurável penhor dos eleitos de Deus. Ao Deus, que é puro amor, e que ama tão pura e infinitamente, “vinde, irmãos, louvar”.
                O Deus Criador e amoroso é, de igual modo, Rei supremo do universo. A figura de Deus como um rei perpassa as Escrituras Sagradas de uma a outra ponta, com ênfase no Antigo Testamento. Quando o povo de Israel, ávido por imitar o comportamento das nações circunvizinhas, pediu ao profeta Samuel que lhes concedesse um rei, tal anelo, mais do que ao servo de Deus, desagradou ao próprio Deus, que tinha a prerrogativa maior e indisputável de reinar sobre o seu povo.
                No Novo Testamento, a figura de Deus como rei avulta, e de modo emblemático, no modo como Jesus Cristo, que é Deus, é descrito na carta de Paulo aos irmãos da cidade de Filipos, mais precisamente no capítulo dois. Nele, depois de ser mostrado em seu estado de extrema humilhação, Jesus Cristo é glorificado e recebe do Pai um nome que está acima de todo nome, e diante de quem, na consumação da história, a gosto ou a contragosto, todo joelho se dobrará e toda língua entoará uma submissa e monofônica sinfonia: Jesus Cristo é o Senhor, o que promoverá a glória do Deus Pai.
                Vê-se aqui, claramente, o Filho de Deus entronizado como o Rei dos reis e o Senhor dos senhores. Sendo Jesus Cristo o nosso grande Rei, sejamos os seus súditos leais e prontos para fazer a sua boa, perfeita e agradável vontade. Ao nosso Deus, que é Rei absoluto do universo, “vinde, irmãos, louvar”. Criador, amoroso e Rei soberano, o nosso Deus, para cujo louvor todos somos convocados, é um Deus que se revelou para nós: na ordem natural da criação (Revelação Geral) e nas Escrituras Sagradas (Revelação Especial), , “sua alta e santa lei” por meio da qual conhecemos quem é Deus; tomamos ciência do seu caráter; discernimos os seus grandes e redentivos atos espalhados pela história; recebemos, enfim, informações suficientes, embora não exaustivas, sobre o Senhor, as quais nos habilitam a amá-Lo e servi-Lo corretamente.
                Não tivesse Deus se revelado a nós e, como cegos, viveríamos tateando na mais abismal escuridão, cultuando falsos deuses, dado que, como bem pontua João Calvino: “nosso coração é uma fábrica de ídolos”, em tudo carente da iluminação somente de Deus procedente; da sua suficiente Palavra, “Escola do Espírito”, ainda de acordo com o notável exegeta da Reforma Protestante. Ao Deus revelado nas Escrituras Sagradas, “vinde, irmãos, louvar”.
                O nosso Deus é, também, o Deus da soberana providência. Tomamos por empréstimo ao teólogo presbiteriano Heber Carlos de Campos o justo conceito de “providência divina como a atividade do Deus triúno por meio do qual ele (a) provê as necessidades de suas criaturas, (b) preserva todo o universo criado, (c) dirige todos os caminhos individualmente, (d) governa toda a obra de suas mãos, (e) retribui todas as obras más e (f) concorre em todos os atos de suas criaturas racionais, sejam atos bons ou maus, de modo que nada escapa ao seu controle”.
                Os três dísticos finais do hino em apreço sinalizam nessa direção. Deus é grande, poderoso, de tudo cuida com cirúrgica precisão. Do grão mais ínfimo que fecunda a terra, ao homem, coroa da sua criação, a muitos dos quais salva, a eles concedendo a profusão dos seus dons maravilhosos. Ao Deus da providência, “vinde, irmãos, louvar”. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.
                                                                                              JOSÉ MÁRIO DA SILVA
                                                                                              PRESBÍTERO

Firmando sua Fé em Jesus JC Ryle


             

Você pertence àquele pequeno grupo de pessoas que confessam ter fé verdadeira em Cristo e procuram, embora com fragilidade, segui-Lo neste mundo perverso? Penso que sei algumas coisas que se passam em seu coração. Talvez você esteja sentindo que não perseverará até ao fim e que, algum dia, abandonará a sua confissão. Com freqüência, você imagina coisas amargas a respeito de si mesmo e que não possui realmente a graça de Deus. Receio que miríades de verdadeiros crentes estão nesta condição; eles prosseguem, tremendo e duvidando, a sua caminhada em direção ao céu, acompanhados por “Desespero” e “Temeroso”; e, tal como o “Peregrino”, têm medo de que nunca chegarão à Cidade Celestial. No entanto, embora seja muito estranho, apesar dos seus gemidos, temores e dúvidas, eles não voltam atrás, para a cidade da qual saíram; eles seguem em frente e, mesmo desfalecidos, avançam e terminam bem.
Meu conselho para esses crentes é bem simples. Cultivem o hábito de firmar mais a sua fé em Jesus Cristo, procurando conhecer mais a plenitude que existe nEle, para todos os membros do seu povo. Não permaneçam a contemplar suas imperfeições e a dissecar seus pecados. Olhem para cima! Contemplem mais o seu Senhor ressurreto, que está nos céus, e procurem compreender ainda melhor que o Senhor Jesus não somente morreu por vocês, mas também ressuscitou e vive à direita de Deus, ministrando como Sumo Sacerdote, Advogado e Amigo todo-poderoso de vocês. Quando o apóstolo Pedro andou por sobre as águas, ele foi bemsucedido enquanto seus olhos estavam fixos no seu Salvador e Senhor todo-poderoso. Mas, quando Pedro desviou o olhar para as ondas e o mar, levando em conta o peso de seu corpo, logo começou a afundar e clamou: “Salva-me, Senhor!” Não ficamos admirados ante o fato de que nosso Senhor gracioso disse, enquanto segurava a mão de Pedro e o libertava de um sepulcro de águas: “Homem de pequena fé, por que duvidaste?” Infelizmente, muitos de nós somos como Pedro, desviamos nosso olhar de Jesus, nossos corações desfalecem, e sentimos que estamos afundando. Ó Deus, ajuda-nos a estar sempre “olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé” (Hb 12.2).

A RESSURREIÇÃO DE JESUS CRISTO


                                               
                A doutrina da ressurreição física e histórica do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo constitui-se num dos pilares fundamentais do Cristianismo, não podendo, em hipótese alguma, ser removida, nem alterada, em sua essencialidade conceitual, sob pena de resultar inteiramente desfigurada a fé cristã.
                Ao longo da história, não poucas foram as vozes que se levantaram para questionar o fato concreto de ter o Filho de Deus, depois de ter passado três dias agasalhado no seio frio da terra, ressuscitado, corporalmente, e se apresentado, “com infalíveis provas”, aos seus discípulos, conforme o incontroverso testemunho das Escrituras Sagradas.
                Primeiro, de acordo com o relato dos evangelhos, houve uma fraudulenta tentativa de falseamento dos fatos. A estratégia mentirosa era se divulgar que os discípulos de Jesus Cristo haviam roubado o corpo de Jesus Cristo e, posteriormente, o ocultado e propagado a tese da sua ressurreição, contando, para o êxito do referido engodo, com a credulidade ingênua das massas ávidas por qualquer forma de expressão da esperança.
                Mais adiante, considerando que o Diabo nunca se cansa de atentar contra a verdade, dado que é o Pai da Mentira, os teólogos liberais encarregaram-se de produzir uma versão de cariz existencialista para a ressurreição de Jesus Cristo. Para esses apóstolos da incredulidade, Jesus Cristo não ressuscitou dos mortos literalmente, mas, sim, espiritualmente, no coração das pessoas que ouvem o seu evangelho; tomam conhecimento da sua mensagem; e, ato contínuo, acolhem-na; dão-lhe crédito e, assim, tornam melhor a si mesmas e o mundo no qual estão inseridas.
                Vê-se, aqui, claramente, que essa (des)crença radica em pressuposições puramente subjetivistas, carentes de qualquer dimensão de objetividade e historicidade. Para esses arautos consumados da incredulidade, que negam qualquer estatuto de sobrenaturalismo na Palavra de Deus, Jesus Cristo não morreu para salvar ninguém; antes, com a sua vida santa, amorosa, e morte solidária, deu-nos um grande exemplo, a fim de, inspirados nele, podermos nos aperfeiçoar moral e espiritualmente.
                Conquanto supostamente refinadas intelectualmente e matizadas por uma falsa piedade, inescondivelmente tingidas de exacerbado humanismo, tais pontos de vista são inspirados por aquele que, desde o princípio, tem-se oposto a Deus e à verdade da sua santa Palavra.
                Diferentemente dessas ideias contrárias à Palavra de Deus, aprendemos nas Escrituras Sagradas que a ressurreição de Jesus Cristo, operada pelo prodigioso e poder de Deus, foi corpórea, visível e histórica. Jesus Cristo, como ele mesmo afirmou e prometeu aos seus discípulos, ressurgiu dentre os mortos corporalmente, sendo visto e tocado por muitos no palco concreto da história.
                Examinada, à luz das Escrituras Sagradas, a ressurreição de Jesus Cristo sinaliza para uma série de verdades extremamente significativas para a vida do cristão. Em primeiro lugar, a ressurreição de Jesus Cristo ratifica a suficiência das Escrituras Sagradas, dado que, em várias passagens, ela é ensinada com inquestionável clareza.
                No Antigo Testamento, por exemplo, mais precisamente no poético Livro dos Salmos, aprendemos que Deus não permitiria jamais que o corpo do seu Filho amado experimentasse a corrupção inerente à morte física, numa indicação clara de que o foco, aqui, é o da ressurreição de Jesus Cristo.
                Em segundo lugar, a ressurreição de Jesus Cristo aponta para a sua completa vitória, na condição de verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, sobre a morte, o pecado e o Diabo. A morte de Jesus Cristo, na Bíblia Sagrada, não é encarada como um fatalismo histórico, contra o qual o Senhor Jesus Cristo nada pôde fazer, mas, sim, como uma entrega sacrificial voluntária, pois, como bem disse Jesus Cristo, ele recebeu do Pai um duplo mandamento: doar a sua vida em favor dos seus eleitos e, depois, reassumi-la na ressurreição.
                Em terceiro lugar, a ressurreição de Jesus Cristo é um indício claro de que a sua obra redentiva, em benefício do seu povo, foi plenamente aprovada pelo Pai, que o ressuscitou dentre os mortos, o glorificou e lhe conferiu um nome que está acima de todo nome; e diante de quem, na consumação de todas as coisas, todos os seres humanos haverão de se curvar e reconhecer o seu absoluto senhorio, conforme assevera o apóstolo Paulo em sua Epístola aos Filipenses.
                Em quarto lugar, a ressurreição de Jesus Cristo escancarou as portas do céu e propiciou a vinda, em plenitude, do Espírito Santo, para batizar a igreja, selá-la, fazer-se o penhor da sua herança eterna, e nela permanecer eternamente. Não que o Espírito Santo, no Antigo Testamente, fosse um ilustre desconhecido. Nada mais falso e desarmonizado com uma boa compreensão acerca da doutrina do Espírito Santo. O ponto, aqui, é a intrínseca relação que há entre a obra salvífica de Jesus Cristo e a descida do Espírito Santo.
                Em quinto lugar, a ressurreição de Jesus Cristo é o fundamento inabalável da nossa justificação, pois, de acordo com o inspirado escrito do apóstolo Paulo endereçado aos Romanos, Jesus Cristo “por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” (Romanos 4.25b).
                Por último, a ressurreição de Jesus Cristo é a antecipada garantia de que nós haveremos também de ressuscitar e receber das mãos do nosso Salvador bendito, conforme as promessas infalíveis da sua Palavra, um corpo glorioso, completamente renovado, não mais sujeito às contingências terrenas, às tentações que nos angustiam, ao pecado que nos envergonha, à dor que nos maltrata, ao sofrimento que nos aflige e, por fim, à morte. Assim, rendamos ao Senhor Jesus Cristo, que morreu, mas está vivo pelos séculos dos séculos, hoje e sempre, todo louvor, honra, glória e adoração. Vivamos para o seu completo agrado, servindo-o, amando-o e a ele obedecendo irreservadamente. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.
                                                                                              JOSÉ MÁRIO DA SILVA
                                                                                              PRESBÍTERO

A Porta do Arrependimento


ARREPENDIMENTO :  A PORTA DE ENTRADA PARA O REINO DE DEUS
               A doutrina do arrependimento é uma das mais importantes do cristianismo e ocupa um espaço absolutamente central na história da redenção. Por toda a Escritura Sagrada, de modo mais ostensivamente explícita ou subentendida, a doutrina do arrependimento avulta, revelando-se, assim, a sua indiscutível significação teológica.
               No Antigo Testamento, por exemplo, o ministério dos profetas, traduzido pela recepção, compreensão e proclamação da Palavra de Deus ao povo, frequentemente, tinha na pregação da mensagem do arrependimento uma das suas marcas principais. E tal ocorria por uma razão muito simples: havia no seio do povo de Deus uma impressionante propensão para o afastamento do Senhor, para o trilhamento de caminhos pecaminosos, inteiramente desaprovados pelo Senhor.
               Diante das contumazes rebeliões dos israelitas, sempre pródigos em enveredar pelas sendas da idolatria e da corrupção do culto a Jeová, Deus, longânima e benevolentemente, enviava a sua Palavra pela instrumentalidade dos profetas, exortava o povo, denunciava a sua impiedade, confrontava os seus maus caminhos, trazia sobre eles o seu justo juízo e, desse modo, mostrava a sua inviolável santidade, deixando bem claro que jamais compactuaria com o mal, tratando o culpado como se inocente fosse. Contudo, o intento primordial do Senhor não era simplesmente punir o seu povo, mas sim quebrantá-lo e levá-lo a uma mudança de atitude; enfim, ao arrependimento e, ato contínuo, ao abandono de uma vida de consciente iniqüidade.
               Nesse particular, um dos mais emblemáticos exemplos do modo gracioso como Deus trata o arrependimento de um pecador contrito é-nos conferido pela história de Manassés, catalogado, no livro santo de Deus, como um dos mais perversos reis que Israel já teve em sua turbulenta história. O relato bíblico acerca do reinado de Manassés é primoroso na cartografia que empreende a respeito da impressionante impiedade que lhe marcou as ações no comando político-administrativo de Israel.
               O governo de Manassés foi longo, 51 anos, todos eles caracterizados por maldade, profanação, idolatria, feitiçaria, crimes abomináveis como o de queimar os seus filhos e oferecê-los como sacrifício aos deuses vãos e inexistentes, fabricados por sua imaginação depravada. Tais barbaridades não se constituíram em lances fortuitos na vida de Manassés, antes de impuseram como um paradigma comportamental predileto, dado que ele “prosseguiu em fazer o que era mau perante o Senhor, para o provocar à ira” (2 Crônicas 33.6b).
               Mais tarde, transformado em prisioneiro de guerra e troféu do exército assírio, sendo conduzido em praça pública em sinal de humilhação suprema, “Ele, angustiado, suplicou deveras ao Senhor, seu Deus, e muito se humilhou perante o Deus de seus pais; fez-lhe oração, e Deus se tornou favorável para com ele, atendeu-lhe a súplica e o fez voltar para Jerusalém, ao seu reino; então, reconheceu Manassés que o Senhor era Deus” (2 Crônicas 33.12,13).
               No Novo Testamento, não é menor e menos relevante o valor da doutrina do arrependimento. Pelo contrário, ela é, por assim dizer, o coração da mensagem do evangelho da graça de Deus. O arrependimento foi o tema central da pregação desencadeada por João Batista, cuja aparição no deserto da Judéia deu-se da seguinte forma: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mateus 3.2). O arrependimento também configurou-se como o cerne da pregação de Jesus Cristo, a própria Palavra encarnada de Deus: “Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mateus 4.17).
               Mais adiante, depois de ressuscitado dentre os mortos, Jesus Cristo “instrui os seus discípulos que estavam no caminho de Emaús, abrindo-lhes o entendimento para que compreendessem as Escrituras Sagradas e lhes ordena que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém “ (Lucas 24.45,47). Depois da descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes, que conferiu à igreja a capacitação necessária para a proclamação do evangelho, o apóstolo Pedro prega o seu primeiro e poderoso sermão, ao fim do qual houve “um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas” (Atos 2.41b).
               O ponto central da mensagem anunciada por Pedro não foi outro senão o que se nuclearizou por um veemente apelo à consciência dos que o ouviram: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo” (Atos 2.38b). Apelo aqui, bem entendido, encarado como a mensagem em toda a sua integralidade, dirigida, de igual modo, ao ser total do homem, seu pensar/sentir/agir; e não o apelo visto como uma cerimônia emocional acrescentada à pregação e que seria, supostamente, portadora de uma virtude adicional capaz de comover o pecador e, desse modo, levá-lo a Cristo.
               Nessa acepção semântica particular e inteiramente estranha à boa tradição do cristianismo bíblico-histórico, o apelo é tributário das crenças e práticas pelagianas de um teólogo americano chamado Charles Finney, cujos ensinamentos trouxeram muitos males para a igreja cristã. No ministério do apóstolo Paulo, a doutrina do arrependimento também foi presença fulcral. Uma grande demonstração dessa realidade verifica-se no paradigmático sermão que ele proferiu no Areópago de Atenas. Ali, no panteão da intelectualidade grega, cercado pelos mais laureados corifeus do pensamento helênico, Paulo refuta, como amor, sabedoria e firmeza, um a um, todos os falsos conceitos filosóficos que aquelas pessoas nutriam a respeito de Deus e do sentido último e definitivo da vida.
               Contestando estóicos e epicureus, as principais correntes filosóficas ali presentes, Paulo proclama uma mensagem profundamente rica do ponto de vista teológico. Nela, Deus emerge como o criador supremo de todas as coisas, que a tudo concedeu vida pelo poder glorioso da sua Palavra. Prosseguindo em sua argumentação, o apóstolo aponta, de igual modo, para o Deus que preserva todas as coisas que criou, sustentando-as pelo seu poder imenso.
               Diferentemente do que apregoavam os sistemas filosóficos gregos combatidos por Paulo, defensores da ideia de divindades distantes e absolutamente desinteressadas pelos seres humanos, as quais não passavam de projeções da vã e idolátrica imaginação humana, o Deus único, vivo e verdadeiro das Escrituras Sagradas é um Deus presente, envolvido com a sua criação de modo extremamente radical, tanto é assim que, na pessoa bendita do seu Filho Jesus Cristo, Deus se encarnou, fez-se homem, andou e viveu nesta terra santamente, morreu, substitutivamente, na cruz do calvário, a fim de salvar, eficazmente, pecadores que lhe foram, antes da fundação do mundo, entregues pelo Pai. Em suma: o Deus apresentado por Paulo é um Deus amoroso, gracioso, benevolente, misericordioso, bom; é um Deus redentor. É, também, um Deus santo, justo, plenamente puro, que, ao ter a sua lei quebrada pelo pecador, exige, como salvaguarda do seu caráter inquebrantavelmente santo, a morte do pecador, dado que “a alma que pecar, essa morrerá” (Ezequiel 18.20).
               Mas, o Deus que não transige com o pecado, nem tem o culpado na conta do inocente, é o mesmo que, graciosamente, “não levou em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda a parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (Atos 17.30b,31). Vemos, pois, que, centralíssima em toda a Escritura Sagrada, a doutrina do arrependimento é a porta indesviável de entrada do pecador no reino de Deus.
               Um ponto, de pronto, se impõe: quem precisa de arrependimento? A pergunta parece óbvia, mas a sua existência tem uma nítida razão de ser. No senso comum, sobretudo por causa do alto grau de justiça própria cultivado pelos homens, há sempre quem ache que arrependimento não é uma necessidade de todos, mas sim de algumas pessoas supostamente mais pecadoras, praticantes, digamos, de males mais escabrosos e moralmente mais passíveis de censura coletiva.
               A Escritura Sagrada, no entanto, caminha em direção inteiramente contrária. Visto que todos pecaram, todos precisam de arrependimento, sem exceção e sem distinção. Uma passagem bíblica emblemática a esse respeito é a que o evangelista Lucas registra no capítulo 13 do seu evangelho. Nele, há uma história que faz referência a alguns “galileus cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios que os mesmos realizavam” (Lucas 13.1b). Depois, o texto alude a dezoito pessoas “sobre as quais desabou a torre de Siloé”, matando-os imediatamente.
               Diante de tais acontecimentos, não faltou quem julgasse que tais infortúnios se abateram sobre essas pessoas pelo fato delas serem mais pecadoras do que as outras. Ouçamos o que diz Jesus Cristo acerca do assunto: “não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” (Lucas 13.4b,5). Um outro questionamento importante é o que legisla sobre a seguinte matéria: de que devem os homens se arrepender? Não somente do que fazem, mas também do que são. Não somente dos atos desarmonizados com a vontade santa de Deus, mas do estado espiritual em que se encontram.
               O homem é pecador na sua essência, e disso ele deve se arrepender-se, de viver constantemente errando o alvo estabelecido por Deus e, em direção contrária, prosseguir andando de modo contrário ao elevado padrão da lei do Senhor. Para quem se julga bom e merecedor do céu por seus próprios méritos, nada mais recomendável do que um estágio, ainda que breve, na escola dos dez mandamentos, diante dos quais fica evidenciada, sem rasuras, a completa falência do homem diante de tão sublime modelo de santidade.
               Os evangelhos falam acerca de um jovem riquíssimo que, pretextando interesse pelas coisas espirituais, perguntou a Jesus o que deveria fazer para herdar a vida eterna. Jesus ordenou-lhe que observasse os mandamentos de Deus e os praticasse. Ele disse que tudo isso já fazia, desde a sua infância. Jesus, então, dá o golpe final no ensoberbecido e autoconfiante ego do rico e perdido jovem: “uma coisa ainda te falta: vende o que tu tens, dá aos pobres, vem e segue-me; e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. Mas, ouvindo ele estas coisas, ficou muito triste, porque era riquíssimo” (Lucas 18.22,23).
               Diferentemente do que presumem que Jesus estaria aqui ensinando a possibilidade de haver salvação pela observância da lei de Deus, o que vemos, de fato, é o Filho de Deus demonstrando, cabalmente, que pela guarda da lei ninguém pode ser salvo. O jovem rico, por exemplo, gabava-se de ser um exímio guardião de toda a lei de Deus, mas, na verdade, começou a transgredi-la já a partir do primeiro mandamento, na medida em que o seu deus era o dinheiro, a quem ele amava “de todo o coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento” (Lucas 10.27b). Em suma: o jovem rico era simplesmente um idólatra, um triste e perdido pecador, mais do que necessitado de arrependimento e carente da perdoadora graça de Deus. Um último e nodal ponto acerca da doutrina do arrependimento é o seguinte: como o homem pode se arrepender?
               Chegamos, pois, ao coração de um dos grandes paradoxos do cristianismo. Embora a Escritura Sagrada, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, deixe muito claro que o arrependimento é uma ação de inteira responsabilidade do homem, não é menos meridiana a sinalização que ela dá de que o arrependimento genuíno, e não um mal-estar passageiro da consciência, só acontece num coração que foi poderosamente tocado pelo Santo Espírito de Deus; o qual, valendo-se da instrumentalidade da pregação do evangelho, convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (João 16.8b), revela a sua completa miséria moral e espiritual e, por fim, o conduz a Jesus Cristo, o perfeito e eficaz Salvador, que na cruz, ao bradar: “está consumado” (João 19.30b), salvou, efetivamente, todos aqueles por quem morreu; que lhe foram entregues pelo Pai; e nos quais o Espírito Santo aplica as virtudes dessa grande e salvífica obra.
               Nesse particular, vale transcrever as seguintes palavras das Escrituras Sagradas: “E ao servo do Senhor não convém contender, mas sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que resistem a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade. E tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele estão presos” (2 Timóteo 2.24,26).
               Claro que o arrependimento, na passagem em foco, direciona-se, fundamentalmente, aos falsos mestres que se distanciaram da Palavra de Deus e se tornaram, ato contínuo, pregoeiros do engodo, cuja linguagem “corrói como gangrena” (2 Timóteo 2.17b), o que não anula o fato de que, em qualquer circunstância, o arrependimento genuíno somente se efetiva pela ação sobrenatural do Santo Espírito de Deus, que aquece os afetos, ilumina o coração e alforria a vontade, impelindo-a a abraçar a Cristo pelos inquebrantáveis laços da fé, gracioso dom de Deus.
               A despeito de toda a importância da doutrina do arrependimento para a vida do cristão, ela será inócua se se confinar apenas ao campo do academicismo teórico; se não desembocar num viver contrito e piedoso, que cultiva a plena consciência de que em nosso dia-a-dia, de variadas formas, nós pecamos contra Deus e carecemos, desesperadamente, da sua restauradora graça.
               Concluímos essas considerações sobre o arrependimento com os seguintes questionamentos a todos os que as lerem: você já se arrependeu verdadeiramente dos seus pecados? Já foi persuadido pelo Espírito de Deus de que sem Cristo está irremediavelmente perdido? Já abandonou a vã presunção de ser possível ser acolhido por Deus amparado pelas imprestáveis muletas das obras supostamente meritórias? Tais fatos já fazem parte da sua vida ou, ao contrário, você continua longe de Deus e resistindo ao seu gracioso chamado para a salvação? Pense nisso, lembrando-se sempre de que somente as ovelhas de Cristo ouvem a sua poderosa e libertadora voz. Arrependa-se dos seus pecados, dê ouvidos ao chamado de Salvador Jesus Cristo e creia nele de todo o seu coração. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.
                                                                                                                      JOSÉ MÁRIO DA SILVA
                                                                                                                      PRESBÍTERO

OS ATRIBUTOS INCOMUNICÁVEIS DE DEUS


              
               As Escrituras Sagradas nos apresentam Deus como um ser glorioso e adornado com os mais sublimes e simétricos atributos. Sublimes pela beleza e excelência de que se revestem. Simétricos porque não conflitam entre si, antes convivem numa harmonia própria da perfeição do ser que os exibe tão solenemente.
               Esses atributos de Deus sinalizam para a pureza absoluta do seu caráter, que o faz, em superlativa tonalidade, ser digno de toda honra, glória, louvor e adoração, não apenas em função dos seus grandiosos atos redentivos espalhados por toda a história, todo o universo, mas, sobretudo, por sua essência de Deus único, vivo e verdadeiro, merecedor, por isso mesmo, da devoção e do culto de todos os seres humanos.
               Ao discorrer sobre os atributos de Deus, a Teologia Sistemática costuma catalogá-los em dois campos distintos: os comunicáveis e os incomunicáveis. Os primeiros são os que Deus compartilha com os homens, não no sentido absoluto, obviamente, mas na proporção exata do que é inerente ao cultivo dos seres humanos. Os últimos, por sua vez, são prerrogativa indisputável do Senhor, somente passíveis de ser encontrados no cerne misterioso e singular do ser divino.
               Como emblemático exemplo dos atributos incomunicáveis de Deus, podemos citar a onipotência, a onisciência e a onipresença. A onipotência significa que Deus detém em suas mãos todo o poder, que o capacita a realizar todas as coisas por ele mesmo preordenadas e, de igual modo, compatíveis com a sua natureza santa, e com a bondade, perfeição e agradabilidade inerentes ao exercício da sua vontade.
               Dentre outras expressões ostensivamente visíveis, a onipotência de Deus prefigura-se, nas Escrituras Sagradas, no fato de Deus ter criado todas as coisas existentes tão-somente com a proferição da sua poderosa Palavra, fazendo-as emergir do nada. Onipotência para criar e onipotência para preservar tudo quanto foi criado. No plano espiritual, vemos a onipotência de Deus atuando na constituição soberana do seu povo, por meio da ação coesa das três pessoas da Trindade santíssima. Dentre a multiplicidade de textos bíblicos que, inspiradamente, chancelam o atributo da onipotência de Deus, um há que o evidencia de maneira absolutamente incontestável: “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2).
               A onisciência de Deus sinaliza para o fato de que de Deus detém conhecimento irrestrito de todas as coisas; que, no imenso universo emergido das suas onipotentes mãos, não há nada que escape do escrutínio pleno do seu olhar assemelhado à irresistível chama de um brilhante e inapagável fogo. A onisciência de Deus significa que ele sabe todas as coisas; sonda o profundo e o supostamente oculto de todos os corações; penetra nas regiões mais aparentemente indevassáveis da alma humana, estando todas as cogitações dos homens, conforme bem pontua o inspirado autor da Epístola aos Hebreus, inteiramente expostas e patentes diante daquele em cuja presença haveremos de estar um dia; e a quem deveremos prestar contas de todos os atos que tivermos praticado pela instrumentalidade dos nossos corpos.
               Um ponto importante a ser salientado na matéria relacionada à onisciência de Deus diz respeito ao fato de que a ampla e absoluta ciência que o Senhor tem sobre todas as coisas ancora na verdade bíblica, sobejamente chancelada pela Palavra de Deus, segundo a qual, sábia, santa, soberana e providencialmente, Deus preordenou todos os acontecimentos que se delineiam no universo, conduzindo-os de forma misteriosa, e compatibilizando-os com a sua vontade e propósitos eternos.
               Evidentemente, tais verdades transcendem em muito as possibilidades de um completo entendimento a ser evidenciado por nosso intelecto limitado e comprometido com os devastadores efeitos do pecado, contudo, elas se impõem como a expressão mais exata da Revelação de Deus esculpida em sua suficiente Palavra. A onipresença de Deus, por sua vez, aponta para o fato de que não há nenhuma geografia na qual Deus não se faça presente; nenhum espaço que não comporte o seu estar ali; nenhum ambiente em cujo interior Deus não pontifique como a realidade mais solene e indisfarçável.
               Há, na Escritura Sagrada, uma porção transbordante de singular beleza poética e sublime verticalidade teológica, amplamente consorciadas no tratamento da doutrina da onipresença de Deus. Refiro-me ao salmo 139, no qual, com mente/coração/e escrita supervisionados eficazmente pelo Espírito Santo do Altíssimo, o rei/poeta Davi indaga de modo dramático e retórico: “Para onde me ausentarei do Teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra de sustenta. Se eu digo: as trevas, com efeito, me encobrirão, e a luz ao redor de mim se fará noite, até as próprias trevas te serão escuras: as trevas e a luz são a mesma coisa”. (salmo 139.7,11).
               A força da linguagem bíblica é de tal monta que dispensa esforços interpretativos mais intensos. O ponto central do texto sacro é que Deus está em todos os lugares, sua majestosa presença abarca cada partícula do universo, ainda a mais ínfima e imperceptível aos olhos humanos. Até mesmo no inferno, lugar de horror eterno para onde serão enviadas as pessoas que se esquecem de Deus, recusam-se a se arrepender dos seus pecados, rejeitam a Jesus Cristo e o seu sacrifício redentivo e, ato contínuo, firmam-se numa vida cotidiana matizada por inafastável compromisso com a iniqüidade, Deus se faz presente por meio do exercício santo da sua reta justiça, frequentemente ultrajada pelos que insistem em fazer pouco caso da sua lei perfeita e gloriosa.
               Sim, Deus é onipresente, sendo, pois, inútil, toda e qualquer tentativa feita pelo homem para dele se ocultar; homem que, muitas vezes, presume, tolamente, ser possível eclipsar do Senhor as suas transgressões. Deus tudo pode, Deus tudo vê, Deus está em todos os lugares. Conquanto essas verdades valham por si mesmas e não dependam da recepção acolhedora ou resistente que os homens derem a elas, na condição de Filhos de Deus, nascidos de novo pelo poder do Espírito Santo, benefícios incontáveis traremos às nossas almas e ao exercício cotidiano da nossa vida cristã, se as aplicarmos ao solo concreto da existência, compreendendo-as com as nossas mentes, abrigando-as em nossos corações e, por fim, incorporando-as à nossa vontade.
               Noutras palavras: os atributos da onipotência, onisciência e onipresença de Deus não devem ser para nós mera matéria teológica pronta para ser corretamente repetida num exame de seminário ou, quem sabe, numa sabatina conciliar. Se o for, estaremos conferindo à nossa fé um verniz puramente academicista, frio, sem o calor necessário ao ato/processo da vida em seu fluir cotidiano.
               É neste ponto que conhecimento e experiência, essa legitimamente concebida e não a que se perde no território do subjetivismo mais desgarrado e inconsistente, devem dar as mãos num caminhar coeso e indeslindavelmente solidário. A meditação demorada sobre os atributos de Deus deve levar-nos a extrair significativas lições para a nossa vida espiritual.
               A onipotência de Deus, dentre outros aspectos práticos, deve estimular-nos a uma vida mais intensa de oração, adubada pela firme expectativa de que o Deus das Escrituras Sagradas ainda responde às orações do seu povo. Digo ainda, não porque nutra dúvidas acerca da ação de Deus no tempo presente, mas porque, muitas vezes, corremos o risco de nos relacionarmos com Deus de modo nostálgico, como se o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó não fosse, de igual modo, o nosso Deus, que tem todo o poder, e age, sempre, de conformidade com o conselho da sua boa, perfeita e agradável vontade.
               Outra implicação importante derivada do atributo da onipotência divina é que o nosso coração deveria ser bem menos susceptível ao poder sorrateiro e avassalador da ansiedade que, quando encontra espaço em nossa alma, nela instala o medo, a incredulidade e a desesperança. Um outro ponto evidenciado no atributo da onipotência divina é que ele deve reforçar em nós a inabalável convicção de que Deus controla toda a história, e a conduz de modo a que, no último drama a ser encenado no palco da existência humana, sua absoluta justiça e glória resplandeçam sempiternamente. Por sua vez, a onisciência de Deus deve induzir-nos ao cultivo de uma espiritualidade piedosa, ancorada no cuidado redobrado com as motivações que, enraizadas no solo íntimo dos nossos corações, dizem muito do caráter de genuinidade ou falsidade da fé que dizemos possuir.
               Saber que Deus vê todas as coisas, de igual maneira, deve levar-nos a avaliar o conteúdo profundo do nosso caráter, dado que é exatamente quando estamos sozinhos, no exercício de uma solidão mais rigorosa, completamente distantes de qualquer escrutínio humano, que revelamos, mais profundamente, aquilo que somos em essência. De frente para o realista espelho do olhar onisciente de Deus, a hipocrisia mostra a sua verdadeira face de inutilidade e de auto-engano. Certa feita, o missionário Ronaldo Lidório afirmou que reputação é aquilo que os homens dizem entre si a nosso respeito; e caráter é o que os anjos dirão ao Senhor acerca de nós no dia da nossa morte. Saber que não há nada que se possa ocultar da absoluta ciência de Deus sobre tudo, deveria estimular-nos a ser e a fazer todas as coisas com a nítida convicção de que estamos na presença de Deus. Coram Deo, eis um dos lemas preferidos pelos reformadores.
               O ideário teológico do coram deo compreende o viver cristão como uma integralidade indivisível, sem a canhestra separação entre a dimensão secular e a dimensão sagrada do existir. Conquanto cada ação humana tenha a sua especificidade, todas elas devem ser feitas com o sinete da santidade, e com o fito indesviável de promover a glória de Deus. Assim, a mais comezinha práxis doméstica não é menos santa, por exemplo, que o momento em que um pregador assoma ao púlpito para proclamar a Palavra de Deus. Saber que o nosso Deus está presente em todos os lugares deve impregnar a nossa alma de espanto, admiração e desmedido louvor em reconhecimento da grandeza daquele que nem mesmo os céus dos céus podem conter.
               Diferentemente do homem, ser contingente e rodeado por limitações de toda espécie, o nosso Deus é infinito, a todas as coisas abarca, mas com nada se confunde; em tudo está revelado, mas a tudo transcende. Não é a energia impessoal do panteísmo, nem muito menos o ser apequenado que emerge da Teologia do Processo, mais tarde desembocado na heresia do Teísmo Aberto.
               O Deus onipresente assiste a sua igreja onde quer que ela esteja presente, dado que nela habita, sempiternamente, por meio do seu Santo Espírito. Que, ao meditarmos nessas verdades tão maravilhosas acerca do Deus que nos é revelado pelas Escrituras Sagradas, possamos conhecê-lo mais, melhor, em estrita conformidade com a sua Palavra. Desse modo, o adoraremos, mais e mais, em espírito e em verdade, o serviremos de todo o nosso coração, o amaremos sem reservas e viveremos de modo que lhe seja agradável. Não que sejamos suficientes para essas coisas, mas o faremos pela mediação perfeita de Jesus Cristo e pelo poder do Espírito Santo do Senhor. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.
                                                                                                       JOSÉ MÁRIO DA SILVA
                                                                                                       PRESBÍTERO

AS CONVICÇÕES DA PREGAÇÃO BÍBLICA Haddon Robinson



Para realizar a árdua tarefa de serem pregadores da Bíblia, homens e mulheres no ministério precisam estar comprometidos com certas verdades.

(1)          A Bíblia é a Palavra de Deus. Como Agostinho o coloca: "Quando a Bíblia fala, Deus fala". Essa é a convicção de que se eu posso realmente entender uma passagem em seu contexto, então o que eu sei é o que Deus quer dizer (eu não penso que muitos evangélicos, assim como muitos liberais, acreditem nisso).

(2)          Toda a Bíblia é a Palavra de Deus. Não apenas Romanos ou Levítico, não apenas Efésios ou Ester. Não apenas as passagens "quentes", mas também as "frias".

(3)          A Bíblia é auto-atestatória. Se pessoas podem ser expostas a um entendimento das Escrituras de maneira regular e constante, então elas não precisam de argumentos a respeito da veracidade das Escrituras. Portanto, um ouvinte ou leitor não precisa aderir totalmente à idéia dos dois primeiros compromissos para que Deus possa trabalhar na vida dessa pessoa por meio de sua Palavra.

(4)          Isso conduz a uma abordagem da pregação do tipo: "Assim diz o Senhor". Não estou me referindo a um método homilético aqui, mas a um desejo de abrir as Escrituras de modo que a autoridade da mensagem se apoie na Bíblia (isso funciona contra o espírito contrário à autoridade de nossa sociedade).

(5)          O estudante da Bíblia precisa tentar chegar à intenção do autor bíblico. A primeira questão é: "O que o autor bíblico queria dizer ao leitor da Bíblia? Por quê?". A teoria da Reação do Leitor adotada por muitos estudiosos literários hoje em dia não funciona no estudo da Bíblia. Posto de maneira simples: "A Bíblia não pode significar o que não significou".

(6)          A Bíblia é um livro sobre Deus. Ela não é um livro religioso de conselhos sobre as "respostas" que precisamos para um casamento feliz, sexo satisfatório, para o trabalho ou para perder peso. Embora as Escrituras reflitam muito a respeito dessas questões, elas são, acima de tudo, sobre quem Deus é e o que Deus pensa e quer. Eu entendo a realidade unicamente se tenho apreciação por quem ele é e o que deseja para sua criação e de sua criação.

(7)          Nós não "tornamos a Bíblia relevante"; mas apenas mostramos sua relevância. A verdade é tão relevante quanto a água para a sede, e a comida para a fome. A publicidade moderna cria necessidades que de fato não existem para vender a mercadoria.

Hinologia Igreja em Adoração


                                                           A IGREJA EM ADORAÇÃO                           
                                             Eterno Deus, teu povo congregado,
                                             Humilde entoa teu louvor aqui!
                                             No dia para o culto reservado,
                                             Com esperança olhamos para ti.
                                             Teu santo livro, ó grande Deus, tomamos
                                             Com fé singela e reverente amor;
                                             E, como atentos filhos, procurarmos
                                             Ciência na Palavra do Senhor.

                                             Jesus! Aos teus benditos pés sentados
                                             Queremos teu conselho receber,
                                             E sendo por ti mesmo doutrinados,
                                             De mais em mais na santa fé crescer.
                                             Do mundo descansar em ti, Senhor,
                                             Mirando os ricos bens entesourados
                                             Na plenitude do teu vasto amor.

                                             Ensina aos teus, Espírito divino,
                                             Dissipa as trevas destes corações;
                                             E com a luz do teu celeste ensino
                                             Vem aclarar as santas instruções.
                                             Aviva em nós as forças da memória,
                                             Pois sempre mais queremos conhecer
                                             O Rei dos céus, o Cristo cuja glória
                                             Enleva os santos anjos do prazer. Amém.
                                            (S. P. Kalley)
               Temos insistentemente pontuado em nossas dominicais meditações que, por ser parte constitutiva do culto público prescrito por Deus nas Escrituras Sagradas, o louvor, comunitariamente entoado pelos crentes, deve buscar o maior grau de harmonização possível com a Palavra de Deus. Isto posto, as letras que verbalizamos em nossa hinografia, às quais a melodia deve sujeitar-se, devem refletir, na extensão integral do seu conteúdo, o majestoso caráter de Deus, acumpliciado aos seus diversos e gloriosos atributos; a pessoa divina do Senhor Jesus Cristo e a salvífica obra realizada por Ele realizada na cruz do calvário; a obra gloriosa do Espírito na aplicação redentiva do sacrifício do Filho de Deus e a iluminadora direção espiritual que Ele promove no seio da igreja, na qual ele habita permanentemente.
               Em suma: devemos entoar louvores que sejam bíblico-teologicamente consistentes, que espelhem as Escrituras Sagradas; e, ato contínuo, não se percam em humanismos inapropriados e insuportáveis enveredamentos por um romantismo sentimentalista, mais revelador do subjetivismo humano que da plena munificência do Deus Criador/Sustentador de todas as coisas e, de igual modo, Redentor do seu povo.
               Não quer isso dizer, obviamente, que de nossa hinografia cúltica devam estar banidas as indeléveis marcas do nosso ser/estar no mundo como igreja sofredora e triunfante, mas sim que o foco deve centrar-se em Deus, na Trindade santa e bendita, que, antes da fundação do mundo, nos amou e em nosso favor arquitetou o mais sublime, perfeito e eterno plano de salvação.
               Todo esse conteúdo de excelência, que deve nortear a adoração comunitária que nós, como igreja redimida, somos chamados a oferecer ao nosso Deus, a meu ver, delineia-se, superlativamente, na bela e bíblica letra que emblematiza o hino de número três de nosso Novo Cântico, cancioneiro sacro adotado pela Igreja Presbiteriana do Brasil.
               O título já sinaliza, claramente, para aquela espécie de adoração que apresentamos ao Senhor no exato momento em que, convocados por Ele, comparecemos ao culto público para, como explana a Confissão de Fé de Westminster, lermos a sua Palavra, ouvirmos a sua fiel e expositiva pregação, o adorarmos com o nosso louvor coletivo e participarmos, reverente e conscientemente, da correta administração das ordenanças do batismo e da ceia memorial da nova aliança.
               Claro que, numa perspectiva mais ampla, a nossa adoração deve ser a expressão global de toda a nossa vida, em todos os âmbitos em que ela se manifesta: familiar, profissional, cultural, político, dentre outros que formam o multifacetado compósito da nossa existência. Enfim, a adoração encarada como sinônimo irrasurado de uma vida que, “na comida, na bebida ou em outra coisa qualquer”, busca a justa promoção da glória de Deus, de conformidade com a santa exortação feita pelo apóstolo Paulo na segunda epístola que endereçou aos cristãos da cidade de Corinto.
               Sem isso, a adoração que se presta a Deus, no âmbito mais restrito do culto público, não passa de pura e vazia encenação, ritual inteiramente desvalioso; e, pior que isso, exposto à desaprovação e ao certeiro ajuizamento de Deus. Contudo, a adoração pública ao Senhor, manifestada no ajuntamento solene do seu povo, deve pautar-se pelas seguras prescrições escriturísticas.
               No hino em tela, aprendemos algumas verdades sobremaneiras edificantes. Composto por três estrofes, o hino mostra como, no culto público que a Deus oferecemos, Pai, Filho e Espírito Santo estão, umbilicalmente, unidos. Vejamos, pois, como tal verdade consorcia-se no hino/poema.  
               De pronto, emerge, na parte introdutória do hino, o caráter teocêntrico do culto. O culto é prestado, exclusivamente, a Deus, e a mais ninguém, por isso não cabem nele as homenagens aos homens, os louvores aos homens, as celebrações aos homens, sejam eles quais forem. Insistir em ignorar esse ponto seminal é quebrar, flagrantemente, o primeiro mandamento, transgredir toda a Lei do Senhor, cometer idolatria e abominação contra o Altíssimo.
               O hino principia realçando a eternidade de Deus, a espantosa realidade do seu ser incriado e auto-existente. No culto, não estamos diante de um ser igual a nós, portador das mesmas mazelas e imperfeições que nos essencializam, mas sim diante do Deus eterno, Criador e Sustentador de tudo, poderoso Redentor da sua igreja, puro amor e, ao mesmo tempo, fogo consumidor, habitante de luz inacessível, invisível, mas real, chamado pelos antigos profetas como Deus grande e terrível.
               É diante desse Deus eterno, Pai das luzes, imutável e sem variação, que nos prostramos quando, congregados, prestamos-lhe culto de louvor, adoração, honra e gratidão pelo que Ele é e pelo que faz, pelo seu controle soberano sobre a história. Diante, pois, desse Deus tão grandioso, nenhuma atitude poderia ser mais conveniente e bíblico-teologicamente prescrita do que a humildade, a submissão e a reverência deleitosa. No culto ao Senhor, não há lugar para soberba, orgulho, altivez, comportamentos abominados por Deus e seriamente expostos à sua mais veemente condenação.
               A humildade é o único modo aceitável de nos aproximarmos de Deus, dado que ele é o Senhor, nós somos servos; ele é Deus, nós somos homens; ele é santo, nós somos pecadores; ele é Todo-Poderoso, e nós, quando muito, apenas pó e cinza. No culto público, olhamos para o Senhor com esperança, não a esperança humana, que é a última que morre no dizer popular, mas sim aquela que, conforme a inspirada asserção do apóstolo Paulo, “não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado” (Romanos 5.5).
               Ainda na monumental epístola de Paulo aos Romanos, deparamo-nos com um texto deveras consolador para os nossos corações, frequentemente açoitados pelas encapeladas ondas do tempetuoso mar da vida: “E o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer; para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo” (Romanos 15.13).
               Nós não sabemos cultuar ao Senhor como convém. Carentes de uma segura e sólida orientação, nossos corações, “fábrica de ídolos”, no sábio dizer de João Calvino, forjarão cultos estranhos, profanos, à imagem e semelhança da nossa vã imaginação. Também aqui não vale o sofisma, segundo o qual, se formos sinceros e se nos sentirmos bem com o que fazemos no culto, então, podemos tomar por certo de que Deus, de igual modo, se agradará e aprovará as nossas supostas piedosas intenções. Conquanto devamos em tudo cultivar “a verdade no íntimo” (Salmo 51.6a) e a sinceridade como um dos princípios motivacionais básicos das nossas atitudes, o compromisso inamovível de Deus é com a sua Palavra, pela qual ele vela, a fim de conferir a ela pleno e cabal cumprimento (Jeremias 1.12). Assim, o árbitro final das nossas consciências não deve ser o solo escorregadio da nossa sinceridade, mas sim a rocha inabalável da Palavra do Senhor.
               Eis a razão pela qual somente no Santo Livro de Deus, nas Escrituras Sagradas, na Palavra ditada pelo Espírito Santo, é que encontramos a instrução segura e a direção sábia para cultuarmos a Deus da forma como ele mesmo quer ser cultuado, sendo essa prerrogativa indisputável dEle, dado que é Deus, Senhor excelso e soberano controlador da história. Teocêntrico, porque indesmentivelmente dirigido a Deus, o culto, de igual modo, reveste-se de uma dimensão ontológica de cristocentricidade; e, por uma razão muito simples, ninguém pode aproximar-se de Deus sem a mediação de Jesus Cristo.
               Jesus Cristo é quem nos propicia a graça de cultuarmos ao Pai; o privilégio de nos assentarmos aos seus pés benditos; e, ato contínuo, deleitarmo-nos com a sua doutrina e com os seus maravilhosos ensinamentos. Em Cristo e por meio de Cristo nós experimentamos crescimento na graça, na fé e no conhecimento de Deus, visto que no Filho de Deus “reside, corporalmente, toda a plenitude da divindade” (Colossenses 2.9).
               Ao cultuarmos a Deus, por meio de Jesus Cristo, no Dia do Senhor, nós descansamos dos nossos labores cotidianos e repousamos nos braços do Filho de Deus, a ele entregando os nossos cansaços, as nossas angústias cotidianas, “mirando os ricos bens entesourados/na plenitude do teu vasto amor”.
               Teocêntrico, cristocêntrico, o culto a Deus, a adoração comunitária da igreja de Jesus Cristo ao Deus Todo-Poderoso, somente pode ser efetivamente realizada no poder do Espírito Santo, pois é o Santo Espírito, parácleto bendito, habitação permanente de Deus conosco, que “dissipa as trevas dos nossos corações”, por meio do “celeste ensino”, da aplicação perfeita e iluminadora das sublimes verdades da Lei de Deus aos nossos corações.
               Na economia salvífica da Trindade, o Espírito Santo ocupa papel de ostensivo relevo. É o Espírito Santo quem dobra as resistências do coração do pecador e o leva, arrependido, a confiar somente em Cristo para a sua salvação. É o Espírito Santo quem nos ilumina a mente, a fim de podermos compreender a Palavra de Deus; Palavra que ele mesmo inspirou sobrenaturalmente. Professor incomparável e divino, é o Espírito Santo quem “ativa as forças da memória”, a fim de que possamos, permanentemente, voltar ao nosso tesouro de fé, inviolável patrimônio da nossa alma redimida.
               Impulsionados, pois, por tão poderoso e Santo Espírito, podemos cultuar a Deus de modo fervoroso, racional, com intenso fogo na alma e sobrante entendimento na mente, degustando um conhecimento de Deus que o próprio Espírito Santo destila em toda a extensão do nosso ser, não de forma mística, mas por meio da instrumentalidade da Palavra.
               Nunca é demais lembrarmo-nos, recorrendo a João Calvino, de que o divórcio entre a Escritura Sagrada e o Espírito Santo é aventura temerária promovida por fanáticos, os quais, pretextando espiritualidade superior, findam solapando as bases seminais da suficiência das Escrituras Sagradas. Ao Pai, por meio do Filho, na capacitação do Espírito Santo, eis a natureza solene e comunitária da igreja em adoração, esplendidamente espelhada num hino admiravelmente consorciador de beleza estética e infrangível conteúdo bíblico.
               Que seja sempre assim a hinografia materializada em nossos cultos. Que haja em nós discernimento suficiente para não emprestarmos os nossos lábios para a reprodução de letras frívolas, conteudisticamente pobres e doutrinariamente desarmonizadas com a Palavra de Deus; que pouco ou quase nada dizem acerca de Deus, de Jesus Cristo e do Espírito Santo, das antigas e gloriosas doutrinas da graça, imperecível tesouro da nossa revelada, histórica e santíssima fé. SOLI DEO GLORIA NUC ET SEMPER.
                                                                                         JOSÉ MÁRIO DA SILVA
                                                                                         PRESBÍTERO