Homem é Agredido e expulso por pregar a verdade na Igreja
2 Timóteo 4:3
Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos;
OS ATRIBUTOS COMUNICÁVEIS DE DEUS
Semana retrasada dissertamos,
nesta coluna dominical, sobre os atributos incomunicáveis de Deus, que são
prerrogativas indisputáveis do Senhor, e não podem ser compartilhadas, em
nenhuma hipótese, com os seres humanos. Como emblemáticos exemplos de atributos
radicados no cerne essencial e intransferível da divindade, apontamos a
onipotência, a onisciência e a onipresença. Deus tudo pode, tudo sabe e em
todos os lugares manifesta a sua gloriosa presença.
Já os atributos comunicáveis de
Deus são aqueles que ele compartilha com as suas criaturas, conferindo a elas
as possibilidades efetivas para encarná-las e manifestá-las em seu viver
cotidiano. É claro que, na realidade concreta e experiencial dos homens, tais
atributos comunicáveis nunca se operacionalizam de modo pleno e isento de
imperfeição, dado que os homens se encontram, ontologicamente, contaminados
pela corrupção do pecado. Em suma: os atributos comunicáveis de Deus
incorporam-se à condição humana e materializam-se de forma limitada.
No viver prático das pessoas
regeneradas, renascidas pelo poder do Espírito Santo de Deus e do transformador
evangelho da graça do Pai e do Filho, tais atributos comunicáveis de Deus devem
ser reais, visíveis e progressivos, uma espécie de antecipação gloriosa daquilo
que nós seremos e faremos quando, completamente glorificados e sem o mais leve
vestígio do pecado, estivermos, definitivamente, na presença do Senhor, com
corpos plenamente renovados e almas totalmente purificadas.
A Escritura Sagrada diz-nos que
Deus é amor. Essa é a imutável essência do seu ser. Amor que, antes mesmo de
ser explicitado nos grandes atos da criação do mundo e do homem, e, depois, na
redenção dos seus eleitos, já se constituía na natureza intrínseca do
relacionamento que, na eternidade, Pai/Filho/Espírito Santo vivenciavam entre
si. O Deus revelado nas Escrituras Sagradas é, sobretudo, um Deus relacional.
Na belíssima Oração Sacerdotal
que realizou, Jesus Cristo fala ao Pai acerca da glória que lhe foi conferida,
porque me “amaste antes da fundação do
mundo” (João 17.24). Pois é exatamente esse amor que norteia o maravilhoso
relacionamento exponenciado pelas pessoas da Trindade que Deus, por meio da
obra regeneradora do seu Santo Espírito, comunica ao seu povo para que ele o
pratique de forma genuína, facilmente perceptível, de modo a fazer com que as
pessoas com as quais nós convivemos percebam, claramente, que, em nós, o
evangelho é uma verdade comprovada por nossos exemplos e gestos; e não um mero
discurso, peça retórica bonita para ser ouvida, mas realidade feia demais para
ser acatada, dado que, flagrantemente, negada pelas nossas atitudes.
Num dos últimos sermões que
pregou aos seus discípulos, Jesus Cristo, de modo luminosamente incontroverso
sentenciou: “Novo mandamento vos dou:
que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos ameis, que também vos ameis uns
aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor
uns aos outros”. (João 13.34,35).
Ao criar o homem à sua imagem e
semelhança, Deus o fez com propósitos distintos, mas rigorosamente
complementares: que ele amasse a Deus com todas as dimensões do seu ser; o
glorificasse em todos os seus atos; e, e igual modo, amasse o seu próximo,
irreservada e altruisticamente, transformando o viver na terra numa experiência
comunitária marcada pelos indeléveis signos da fraternidade, da solidariedade e
do amor recíproco.
O flagelo abominável do pecado,
contudo, conforme conta-nos o santo livro, entrou na história humana, envenenou
os corações e infeccionou as almas com o vírus do desamor, do ódio e da
indiferença. No lugar da cooperação amistosa, instalou-se a competição
predatória; no lugar do cuidado de uns para com os ostros, entronizou-se o
egoísmo e a lógica perversa do cada um por si. Que o diga Caim, que, ao ser perguntado
por Deus acerca do seu irmão Abel, insolentemente respondeu: “Não sei; acaso, sou o tutor de meu irmão?”.
(Gênesis 4.9b).
A Escritura Sagrada nos afirma
que “o amor de Deus é derramado em nosso
coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado”. (Romanos 5.5b). Amar,
portanto, irmãos queridos, não é uma opção a ser acolhida ou rejeitada por nós,
de conformidade com a nossa vontade, mas sim um mandamento do Senhor, para cujo
cumprimento recebemos de Deus a capacitação do seu Espírito Santo.
Assim como o amor, a
misericórdia também é um atributo que Deus nos comunica. Misericórdia é um
atributo moral que faz com que Deus tenha uma disposição permanentemente
benévola para colocar em seu coração um ser miserável, completamente despojado
de qualquer merecimento. Por meio da misericórdia, Deus estende a sua mão
bondosa a quem nada faz para desse ato gracioso tornar-se merecedor. Mesmo
quando arrepende-se dos seus pecados e clama a Deus pela sua misericórdia,
ainda assim, ele não se torna portador de mérito algum, dado que o
arrependimento somente pode brotar no coração do pecador pela ação do Espírito
Santo.
Um dos exemplos mais
impressionantes da misericórdia de Deus, nós encontramos na dramática história
do rei Manassés. Depois de fazer da iniquidade o seu mais acalentado projeto de
vida, Manassés tornou-se prisioneiro de um exército adversário de Israel;
objeto do escárnio público e símbolo de um líder derrotado por sua própria
maldade. Mas, arrependido, ele roga ao Senhor, que se apieda dele, concede-lhe
perdão; enfim, é misericordioso para com ele.
O crente em Jesus Cristo, alvo
da misericórdia de Deus, deve também ser misericordioso com as pessoas que o
cercam e com as quais convive, notadamente com as que mais sofrem,
principalmente, o sofrimento maior, vivenciado pelos que se encontram longe de
Deus e do evangelho da salvação, caminhando, céleres, para uma eternidade de
eterno sofrimento. Um coração duro, frio e insensível à dor alheia, desprovido
de misericórdia, não combina em nada com quem se diz renovado pelo poder do
evangelho.
Outro atributo comunicável de
Deus é o que aponta para a sua gloriosa santidade. A Escritura Sagrada nos
apresenta Deus como um ser santo, santo e santo; aliás, esse é o único atributo
de Deus que aparece repetido três vezes. Alguns intérpretes sugerem que essa
reiteração, para além da intensidade argumentativa de que se reveste, sinaliza
para as três pessoas da Trindade. Seja como for, o ponto evidenciado radica na
absoluta perfeição moral que envolve todo o ser de Deus.
O Livro de Levítico, por
exemplo, está, o tempo todo, lembrando ao povo de Israel, que Deus é santo; e
que ninguém pode se aproximar dele desassistido do ministério de um mediador
eficaz e suficiente chamado Jesus Cristo, tipologicamente, representado por
todo o sistema sacrificial instituído pelo próprio Deus para assegurar ao seu
povo livre acesso à sua presença.
Deus é santo e, de igual modo,
exige santidade dos que se dizem seus servos. Na Oração do Pai Nosso, Jesus nos
ensina a santificar o nome do Senhor em nosso viver. O apóstolo Pedro, em sua
primeira epístola, exorta-nos dizendo: “segundo
é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o
vosso procedimento, porque escrito está: sede santos, porque eu sou santo”
(1 Pedro 1.15b-16).
Na vida prática de um cristão, a
santidade, cultivada de modo progressivo é tão importante, que o autor da
epístola aos Hebreus sentencia: “Segui a
paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. (Hebreus
12.14). O apóstolo João, por sua vez, afirma que quem nutre, em seu coração, a
esperança viva de um dia estar com o Senhor, em sua refulgente glória, “a si mesmo se purifica, assim como ele é
puro” (I João 3.3b).
Amor, misericórdia e santidade,
eis, aqui, três atributos comunicáveis de Deus, que devem fazer parte da nossa
vida aqui na terra, até o dia em que, no céu, se manifestarão de modo pleno e
perene. Certamente, amados irmãos, dada a nossa inata pecaminosidade, nenhum de
nós “é suficiente para essas coisas”,
mas, pela mediação de Jesus Cristo e pelo munificente poder do Espírito Santo,
“em todas essas coisas somos mais do que
vencedores”. SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.
JOSÉ
MÁRIO DA SILVA
PRESBÍTERO
MEDITAÇÕES SOBRE O BREVE CATECISMO (PARTE LXXXIX)
Pergunta 89 – Como a Palavra de Deus se torna eficaz para a
salvação?
Resposta – O Espírito de Deus
torna a leitura e, especialmente, a pregação da Palavra, meios eficazes para os
pecadores, para os edificar em santidade e conforto, por meio da fé para a
salvação.
Dentre
todos os meios de graça disponibilizados por Deus e postos em favor dos crentes
em Jesus Cristo, a Palavra avulta como o mais sublime e glorioso. A Fé
Reformada, inteiramente alicerçada na Revelação que Deus fez de Si mesmo nas
Escrituras sagradas, considera a Palavra de Deus o Primeiro Meio de Graça, o
superlativo e eficaz instrumento de que se Deus se utiliza para salvar
pecadores, edificar a igreja e santificar a alma dos crentes.
Centralíssima
no culto público, onde deve ser lida e pregada expositivamente, a Palavra de
Deus, escola do Espírito Santo no acertado dizer de João Calvino, é um
poderoso, eficaz e indisputável meio para atrair pecadores a Cristo e, ato
contínuo, edificá-los no pleno crescimento espiritual. A Palavra de Deus, aqui
referida, compreende as Escrituras sagradas do Antigo e do Novo Testamento. O
mesmo Espírito Santo que esteve sobre Paulo, Pedro, Tiago, Lucas, João,
impelindo-os a, inspiradamente, escrever a Revelação de Deus, também esteve
sobre Jeremias, Isaías, Moisés, Davi, dentre tantos outros, a fim de fazer
deles redatores inerrantes do santo livro de Deus. Portanto, equivocam-se
sobremaneira os que insistem em dividir a Palavra de Deus e valorizar um Testamento
em detrimento de outro. Uma, harmônica e esplendorosamente coerente, toda a
Escritura é a voz de Deus para a nossa salvação, edificação e crescimento na
fé.
A
Palavra de Deus, como nos recomenda o Catecismo
Maior, deve ser lida “com um alto e
reverente respeito; com firme persuasão de serem elas a própria Palavra de
Deus; e de que somente ele pode habilitar-nos a entendê-las”. A leitura das
Escrituras sagradas deve ser uma prática devocional constante em nossa
espiritualidade cotidiana. Através da leitura diária da Palavra de Deus,
estreitamos os nossos laços de comunhão com o Senhor; conhecemos, mais
detidamente, a sua vontade para a nossa vida; experimentamos um contínuo
processo de restauração do nosso caráter e, por fim, moldamos o nosso pensar/sentir/agir
de acordo com a cosmovisão procedente de Deus, e que tem nos altos e sublimes
valores do seu reino o seu paradigma comportamental predileto.
Paralelamente
à leitura da Palavra de Deus, temos a pregação expositiva das Escrituras
sagradas, ponto mais alto do culto público, o momento glorioso em que Deus
comunica ao seu povo as suas santas e ternas verdades. A pregação expositiva é
um método de proclamação da Palavra de Deus que, ancorado em sólida
hermenêutica e rigorosa exegese, tem como finalidade precípua recuperar a
intenção original do escritor sagrado, o que, na prática, é a intenção original
do Espírito Santo que o inspirou.
A
pregação da Palavra de Deus consola a igreja e a edifica na santíssima fé que
lhe foi entregue de uma vez por todas. A pregação da Palavra de Deus atrai a
Cristo todos os que são irresistivelmente impactados pelo toque regenerador do
Espírito Santo e, desse modo, levados ao arrependimento e à fé salvadora. A
pregação da Palavra de Deus alimenta as ovelhas de Cristo, as guia no caminho
da justiça e as livra de cair no pântano tenebroso das falsas doutrinas. A
pregação da Palavra de Deus deve ser feita de forma honesta, fiel ao que Deus
revelou nas Escrituras sagradas, sem deturpação nem invencionice humana; e, de
igual modo, deve ser levada a cabo por quem recebeu do Senhor essa solene e
gloriosa vocação. Como bem acentua Leonard T. Van Horn: “a Palavra é eficaz e todos nós temos a responsabilidade assombrosa de
cuidar disso, de sempre estar presente quando ela é ensinada ou pregada”.
SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER
JOSÉ
MÁRIO DA SILVA
PRESBÍTERO
Palavra em destaque Hesed.
No Antigo Testamento, hesed é uma palavra teológica central. É um atributo-chave na autodescrição do Senhor em Êxodo 34.6-7; e, conforme Miquéias 6.8, é uma obrigação colocada sobre todo o povo de Deus. No entanto, por não haver um termo exato para expressar a ideia em outros idiomas, alguns tradutores bíblicos tiveram dificuldade para traduzi-la com precisão. Em várias versões, ela aparece como “benignidade”, “fidelidade”, “misericórdia”, “bondade”, “lealdade” e “amor firme”. Em seguida, exploraremos como amor e lealdade se combinam nesta palavra única.
Normalmente, hesed descreve algo que acontece dentro de um relacionamento existente, quer seja entre seres humanos, quer seja entre Deus e o homem. Nos relacionamentos humanos, hesed significa amar nosso próximo, não apenas em termos de sentimentos emocionais calorosos, mas também em atos de amor e serviço que devemos à outra pessoa apenas porque ela faz parte da comunidade da aliança. O povo de Deus tem de praticar a justiça, amar a hesed e andar humildemente com o seu Deus (Mq 6.8).
Um exemplo disso que redefine profundamente o limite da comunidade de obrigação é a parábola que nosso Senhor contou sobre o bom samaritano (Lc 10.30-37). Um bom vizinho tinha a obrigação de ajudar um membro da comunidade que estava em problemas. Contudo, esta obrigação de mostrar hesed foi rejeitada pelo sacerdote e pelo levita que passaram de largo do homem ferido. Na ocasião, o verdadeiro próximo foi o samaritano que “usou de misericórdia” para com o estranho (v. 37). Não coincidentemente, a palavra grega que significa “misericórdia” é a mesma que foi usada para traduzir hesed no Antigo Testamento grego.
Hesed também pode descrever lealdade de uma pessoa às obrigações para com Deus. Isso inclui ações fiéis para com os outros membros da comunidade da aliança; pois, como podemos dizer que amamos o nosso Senhor da aliança, se ignoramos os seus mandamentos de amar nossos irmãos (1 Jo 4.20)? A pessoa que é hasid (de hesed) é leal ao seu Deus e roga ao Senhor que lhe mostre fidelidade similar em retorno (Sl 4.4; 32.6). Por isso, o nome hasidim tem sido atribuído aos judeus mais austeros no judaísmo contemporâneo.
No entanto, o uso mais precioso da palavra hesed no Antigo Testamento é uma descrição do que Deus faz. Havendo entrado em um relacionamento de aliança com seu povo, Deus se comprometeu a agir para com eles de certas maneiras. E Deus é totalmente fiel ao seu compromisso pessoal.
Salmos 136 explora o que a hesed do Senhor significa em seus termos mais amplos, pois cada verso termina com as palavras: “Sua hesed dura para sempre”. Por causa da hesed do Senhor, ele criou o universo e o governa diariamente por meio de sua providência (Sl 136.5-9, 25). Por causa da sua hesed para com Israel, ele os redimiu do Egito e os trouxe, através do mar Vermelho e do deserto, à Terra da Promessa. Por essa mesma razão, ele lançou os egípcios no mar e destruiu os reis cananeus diante dos israelitas (vv. 11-21). Tanto a libertação por parte do Senhor como a destruição dos inimigos de Israel são aspectos da fidelidade do Senhor à sua promessa de fazer de Abraão uma grande nação, de abençoar os que o abençoassem e de amaldiçoar os que o amaldiçoassem (Gn 12.1-3).
Mesmo quando o povo de Deus peca contra ele e sofre as consequências de seu pecado, eles podem ainda apelar à heseddo Senhor, como o fez o escritor de Lamentações em meio à destruição de Jerusalém, em 586 a.C. Cercado pela evidência da fidelidade do Senhor em julgar a impiedade, a rebelião e o pecado, o profeta se lança sobre o imutável caráter de Deus, afirmando: “A hesed do Senhor nunca cessa; suas misericórdias nunca chegam ao fim; elas se renovam cada manhã; grande é a tua fidelidade” (Lm 3.22-23).
Em Salmos 23.6, o salmista declarou que o Senhor a bondade e a hesed do Senhor o seguiriam todos os dias da sua vida. A palavra seguir descreve normalmente a ação de exércitos de pilhagem e maldição da aliança, mas o salmista estava convencido de que, em vez da maldição da aliança que ele merecia, o amor e a bondade fiel do Senhor o seguiriam incansavelmente.
A plenitude da hesed do Senhor é vista na cruz. Ali, o verdadeiro hasid, o próprio Jesus Cristo – o único homem que foi verdadeiramente leal ao Senhor e ao seu próximo em todos os aspectos da vida –, foi tratado como um transgressor da aliança e amaldiçoado pelo pecado, para que nós, que somos infiéis, fôssemos vestidos de sua fidelidade e redimidos. Desta maneira, o propósito da aliança original de Deus – ter um povo para o seu louvor – se cumpriu fielmente.
A hesed do Senhor nunca nos abandonará. Em meio às aflições e tragédias da vida, podemos clamar ao nosso Deus amoroso, na confiança de que nada, em toda a criação, pode jamais nos separar do amor leal que nos escolheu antes de existir tempo, que está nos santificando no presente e nos levará fielmente ao nosso lar eterno (Rm 8.28-30).
Dr. Iain Duguid é professor de Antigo Testamento no Grove City College e o pastor da Christ Presbiterian Church in Grove City (Pennsylvania).
A IGREJA DE JESUS CRISTO: COLUNA E BALUARTE DA VERDADE
“Para que, se eu tardar, fiques ciente de
como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e
baluarte da verdade” (1 Timóteo 3.15).
Escrita no contexto das sólidas
orientações endereçadas pelo apóstolo Paulo ao jovem pastor Timóteo, no tocante
ao estabelecimento do ministério de presbíteros e diáconos, a passagem em foco
referencia a igreja de Jesus Cristo como a
coluna e o baluarte da verdade.
Igreja e verdade, portanto, na
compreensão teológica de Paulo, são realidades espirituais umbilicalmente
interligadas, jungidas uma a outra de modo absolutamente inseparável. Não é que
a igreja seja a verdade em si mesma, evidentemente que não. A verdade absoluta,
sabemos bem pelas Escrituras Sagradas, é o Senhor Jesus Cristo, a Palavra
encarnada de Deus. É o Pai, Senhor soberano da história, de quem procede “toda boa dádiva e todo dom perfeito, e em
quem não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1.17). É o Espírito
Santo, Espírito da verdade imutável e eterna.
Contudo, a igreja é a reunião
santa de todos os que foram eleitos pelo Pai, redimidos pelo Filho, Cordeiro
santo de Deus, e, ato contínuo, feitos morada permanente do Espírito Santo. A
igreja é o corpo de Cristo, sublime e irretocável metáfora que aponta para o
caráter coesivo e harmônico que deve reger o modo de crer e de viver de todas
as pessoas que experimentaram o milagre bendito do novo nascimento, por meio do
qual, escravos são alforriados; mortos ressuscitam; cegos recebem a luz da
vida; condenados são poderosamente salvos; e corações já corroídos pelo parcial
inferno da ausência de Deus, cintilam pela aurifulgente presente de estrelas e
luzes, indesmentíveis sinais de um céu reverberante nos recessos de uma alma
perdoada por Deus e com ele reconciliada.
Assim, unida pela fé à verdade,
que é Jesus Cristo, a igreja é, então, por Deus constituída como coluna da verdade; e, da verdade, baluarte inamovível. O mundo vive, hoje, mergulhado num contexto
em que a verdade tem sido terrivelmente combatida, negada, espezinhada,
deformada, sufocada e substituída por toda espécie de mentira disfarçada.
O universo gelatinoso da
decantada Pós-Modernidade, privilegiado paradigma de pensadores de variado
matiz, desdenha do conceito de verdade absoluta e, em seu lugar, tem erigido a
relativização de tudo como o ponto de partida e de chegada de todas as suas
cogitações epistemológicas.
Relativismo na ética, na moral,
na cultura, nos costumes, nas crenças, nos valores, enfim, em tudo.
Relativismo, eis a charmosa e indispensável senha para se ingressar em qualquer
debate nos nossos desventurados tempos. Nessa quadra, então, de decretação da
morte da verdade, de achincalhe da verdade, a igreja de Jesus Cristo, por meio
da imorredoura sentença das Escrituras Sagradas, é lembrada da sua íntima,
intransferível e insubstituível identidade: coluna da verdade e baluarte da verdade. À igreja cabe,
indesviavelmente, preservar a verdade, defendê-la, proclamá-la, vivê-la, viver
por ela, sempre, e, por fim, por ela morrer, sempre que necessário for.
A igreja não é um clube de
diversões, espaço lúdico para entreter o ego de pessoas muito satisfeitas
consigo mesmas. Não é uma associação de livre pensadores, no interior da qual
cada um julga-se no direito de pensar como quer e viver como acha mais
conveniente para o atingimento de um ideal caprichoso chamado pomposamente de
felicidade, que tem de ser conquistada de qualquer jeito, custe o que custar.
A igreja é o solene ajuntamento
de pecadores justificados e em processo crescente de santificação que um dia
foram confrontados pela mensagem desafiadora do evangelho. Postos face a face
com o espelho fiel e lancinante da Palavra santa do grande Rei do universo.
Convencidos da sua completa falência moral e espiritual. Por fim, expostos à
ação soberana de uma graça que os humilha e restaura; exibe a lepra que lhes
apodrece o coração e, ao mesmo tempo, revela-lhes a insecável fonte de um
sangue santo e santamente purificador.
A igreja é a coluna e o baluarte da verdade na adoração verdadeira ao único
Deus vivo e verdadeiro. Adoração que, prescrita na Escritura Sagrada e ancorada
no majestoso caráter de um Deus revelado, é o mais extraordinário alvo e o mais
incomparável privilégio de vida a que qualquer ser humano pode aspirar. E
somente poderá fazê-lo, se a suficiente e eficaz graça de Deus dobrar-lhe a
dureza interna do coração depravado e, de igual modo, dissipar-lhe as trevas da
mente cega para as realidades espirituais.
A igreja é a coluna e o baluarte da verdade na proclamação fiel e sem mistura
do evangelho simples e salvífico emergido do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Do Pai que elege, do Filho que redime e do Santo Espírito que, livre e
soberanamente, aplica ao coração dos filhos de Deus o resultado do grandioso
sacrifício que o Filho de Deus realizou no calvário. Tal proclamação correta é
o tesouro apostólico imperecível, legado eterno de uma geração a outra geração.
A igreja é a coluna e o baluarte da verdade superlativa do amor que foi
derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, por meio do qual, mesmo
imperfeitamente, dada a nossa pecaminosidade, nós podemos nos relacionar com os
nossos irmãos de modo solidário, fraterno, praticando, com beleza e ternura, a
“teologia do uns aos outros”.
A
igreja de Jesus Cristo, a coluna e o
baluarte da verdade, é o lugar cooperação recíproca, e não o da competição
de todos contra todos, mesmo porque, quem no reino de Deus vive na promoção
ímpia de divisões e contendas, expõe-se ao juízo de Deus, uma vez que, de
conformidade com o que escreveu o apóstolo Paulo em sua primeira epístola
endereçada aos cristãos da cidade de Corinto : “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo
de Deus, que sois vós, é sagrado” (1 Coríntios 3.17).
A igreja de Jesus Cristo, a coluna e o baluarte da verdade, é o
lugar onde, primária e primordialmente, a teleologia
suprema a ser perseguida é a glória de Deus, e não a satisfação egoística das
pessoas que a frequentam. Igreja é lugar de adoradores, não de consumidores
exigentes e cheios de justiça própria, como bem pontua David F. Wells, em seu
excelente livro Coragem para ser protestante.
Quem na igreja de Jesus Cristo, a coluna
e o baluarte da verdade, vive de fazer performances para ser aplaudido
pelos homens, já recebeu o seu galardão, conforme bem sentenciou o Senhor Jesus
Cristo, em seu magnífico e inexcedível Sermão da Montanha.
Agora, em face da realidade
bíblica acerca do que verdadeiramente vem a ser uma igreja, um questionamento
da mais alta relevância inapelavelmente se impõe aos nossos corações e às
nossas consciências: podemos ainda ser chamados de igreja, à luz do padrão
escriturístico? Ainda nos deleitamos com um culto solene, santo e prescrito por
Deus ou, ao contrário, julgamos tais diretrizes obsoletas, inaplicáveis aos
tempos pós-modernos e, em seu lugar, preferimos o culto espetáculo, plataforma
profana de entretenimento e perigosa distração espiritual?
Somos, de fato, a coluna e o baluarte da verdade no
quesito fidelidade ao evangelho simples de Jesus Cristo, por ele mesmo
anunciado e, mais tarde, transmitido pelos santos apóstolos ou, diferentemente,
com o fito obsessivo de enchermos as nossas igrejas a qualquer preço, o estamos
substituindo pela diluída mensagem da
auto-ajuda, da prosperidade egoística e da confissão positiva mais identificada
com certas epistemologias de matiz gnóstica do que com o cristianismo
bíblico-histórico radicado na pessoa e na obra do glorioso Filho de Deus?
Essas são perguntas sérias e que, de igual modo, exigem respostas que
reflitam uma avaliação criteriosa de nossa espiritualidade à luz da santa
Palavra de Deus. São questionamentos que devem nos levar a um retorno urgente
às Escrituras Sagradas, regra única de nossa fé e de nossa prática. Que Deus
tenha misericórdia de nós e não permita que venhamos, em nossa caminhada
cotidiana, a comprometer a elevada vocação de Deus para nós como igreja dele,
corpo vivo do seu bendito Filho e casa permanente do seu Espírito Santo: a coluna e o baluarte da verdade. SOLI
DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.
JOSÉ
MÁRIO DA SILVA
PRESBÍTERO
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